31 de janeiro de 2008

As opções que fazemos

A vida é feita de opções.
Já me arrependi de algumas que fiz, mas depois de algum tempo dei sentido à elas.
Hoje consigo ter mais clareza das consequências das opções que faço. Algum tempo atrás isso era mais difícil, eu era mais impulsiva. Sofri muito...
Nossa!! Às vezes paro pra pensar em coisas que fiz, burrices que cometi... Não as repetiria! Algumas geram até hoje muitas risadas, outras me envergonham...
Mas como a vida é feita de opções, nunca podemos fugir delas.Sempre teremos que escolher. As escolhas nos comprometem, são como assinatura. Não tem como escapar.
Quando trabalhei em uma determinada empresa, alguns anos atrás, tive uma colega que me fez perder a paciência muitas vezes... Toda vez que vinha uma proposta, onde todas as funcionárias daquele setor precisassem tomar uma decisão ela travava todo mundo. Nunca queria "dar a cara pra bater". Nossa! Isso me irritava muito. Muitas vezes perdíamos horas decidindo que caminho tomar, e lá vinha ela freiando todo mundo e não querendo optar por alguma das propostas. Sempre temi ficar assim, sem assumir uma posição, sem optar por alguma coisa com medo ou receio de julgamentos ou pré-conceitos.
Mas aprendi uma coisa com essa situação, mesmo que você escolha não optar, você já optou...
















Minha mãe não deixa eu brincar com fogo!

30 de janeiro de 2008

Saudade...

Hoje os calendários dizem que é o dia da saudade...
A saudade descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor.
Existem muitas músicas e poesias que falam desse tema, ô e quantas!

Muitas poesias e músicas enfocam apenas o lado triste da saudade. Eu prefiro a boa lembrança, a "coisa boa". Afinal só sentimos saudade do que foi bom...

Clarice Lispector dizia: Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Quando penso em pessoas, lugares e outras coisas que me fazem ter saudade, logo lembro do tempo. O tempo deve ser parente bem próximo da saudade. Ele às vezes parece correr mais rápido do que desejamos.
Mas a vida é assim, tempo, saudade, ausências, sentimentos, etc.
Uma coisa que aprendi nesses meus 28 anos é preencher a ausência da presença com a lembrança dos momentos compartilhados nas horas alegres. Isso me ocorre sempre quando me vejo triste com saudade de alguém. Tem funcionado comigo!

Mesmo que o tempo encha meu coração de saudade eu me esforço para nessa situação lembrar das coisas boas. Outra coisa que tenho clareza é que não sinto saudade de coisas que não fiz, ah isso não! Sinto saudade de coisas que vivi. Isso faz uma enorme diferença, senão estaria sentindo outra coisa, o tal do arrependimento... Xiii esse aí é dose. Faz a gente ficar amargurado, com sabor de chocolate meio amargo... Conheço muitas pessoas assim. Não é fácil conviver com elas.

Bom, já fui longe demais com a minha saudade!!!
Uma ótima quarta, que esta deixe saudade...

29 de janeiro de 2008

Esperança

Às vezes tenho a impressão que estou chegando ao fim do caminho.
Olho para frente e custo a perceber alguma saída. Alternativas a determinadas situações...
Principalmente nesta fase do ano, os projetos ficam meio distantes, um tanto perdidos.
Parece mesmo que o outono da existência fez com que secassem as nossas esperanças e o vento forte do inverno varresse das nossas mãos todos os sonhos acalentados.
Assim, quando a chama da esperança reacende em nosso íntimo, nossos sonhos desfeitos são substituídos por outros anseios. Nossos objetivos se modificam e o entusiasmo nos invade a alma.
E ela é insistente, sim ela, a esperança. Quando tento fechar a porta ela não deixa, às vezes eu a agradeço por isso! Outras fico sem saber o que fazer...
Desde quando comecei a pensar e tentar definir a esperança, sempre me veio a mente a imagem da borboleta... Não sei por que. A borboleta é linda (em todas as suas fases), é colorida, ou não, assim como a esperança. É "arteira", voa dali pra cá, de lá pra cá, difícil acompanhá-la, está sempre a procura, de belas flores, de belas plantas. A esperança é um pouco assim, sempre busca resgatar o que temos de melhor. Sempre nos impulsiona a crer em melhores momentos, opções, sonhos...

Que este ano seja o ano da esperanças... Sempre arteira, nos fazendo crer no melhor!

28 de janeiro de 2008

Tentativa

Vou tentar escrever mais do que reproduzir os textos de outros. Alguns amigos já cobram isso algum tempo!

Confesso que frustrei-me em escrever, acho que durante os estudos do ensino médio eu escrevi tanto, sonhei tanto com meus escritos que, de certa forma, cansei!

Vou re-criar a beleza de escrever... Pode deixar!

Preciso, mesmo, urgentemente pescar novos sonhos!

Ando precisando ver beleza nas coisas mais simples. Fui assim um dia, mas a vida tem vindo tão cheia de desafios e momentos não tão bons que a gente vai endurecendo.

Me lembro às vezes, de momentos que eu acreditava serem únicos, que pareciam um paraíso, hoje já não me emocionam mais.

Mas tenho bons pressentimentos para este ano, embora os anos parecem começar repetidos! Este ano quero retomar algumas coisas, nada tão mirabolante, mas importante pra mim.

O ano de 2007 foi bem conturbado, pessoalmente, muitas coisas resolvidas na família, no trabalho nem tanto (nem tudo depende de mim, graças a Deus). Mas foi O ano para descobrir como são as pessoas que convivo... Bom, capítulo para outra postagem!
Abraços. Boa S.E.M.A.N.A!

24 de janeiro de 2008

O sentido do humor e da festa

Leonardo Boff*

Os tempos não são bons. A humanidade é conduzida por líderes na maioria negativos e medíocres. As religiões, quase todas, estão doentes de fundamentalismo, arrogância e dogmatismo, não excluídos setores da Igreja Católica Romana, contaminados pelo pessimismo cultural do atual Papa.
Mesmo assim há ainda lugar para o humor e o sentido da festa? Creio que sim. Apesar dos absurdos existenciais, a maioria das pessoas não deixa de confiar na bondade fundamental da vida. Levanta-se pela manhã, vai ao trabalho, luta pela família, procura viver com um mínimo de decência (tão traída pelos políticos) e aceita enfrentar sacrifícios por valores que realmente contam. O que se esconde por detrás de tais gestos cotidianos? Ai se afirma de forma pré-reflexa e inconsciente: a vida tem sentido; aceitamos morrer, mas a vida é tão boa, como disse, antes de morrer, François Mitterand.
Sociólogos como Peter Berger e Eric Vögelin têm insistido em suas reflexões que o ser humano possui uma tendência inarredável para ordem. Onde quer que ele apareça, cria logo um arranjo existencial com ordens e valores que lhe garantem uma vida minimamente humana e pacífica.
É esta bondade intrínseca da vida que permite a festa e sentido de humor. Através da festa, no sacro e no profano, todas as coisas se reconciliam. Como afirmava Nietzsche, "festejar é poder dizer: sejam bem-vindas todas as coisas". Pela festa o ser humano rompe o ritmo monótono do cotidiano, faz uma parada para respirar e viver a alegria de estar-juntos, na amizade e na satisfação de comer e de beber. Na festa, o beber e o comer não têm uma finalidade prática de matar a fome ou a sede, mas de gozar do encontro e de celebrar a amizade. Na festa o tempo do relógio não conta e é dado ao ser humano, por um momento, vivenciar o tempo mítico de um mundo reconciliado consigo mesmo. Por isso, inimigos e desconhecidos são estranhos no ninho da festa, pois esta supõe a ordem e a alegria na bondade das pessoas e das coisas. A música, a dança, a gentileza e a roupa festiva pertencem ao mundo da festa. Por tais elementos o ser humano traduz seu sim ao mundo que o cerca e a confiança em sua harmonia essencial.
Esta última confiança dá origem ao senso de humor. Ter humor é possuir a capacidade de perceber a discrepância entre duas realidades: entre os fatos brutos e o sonho, entre as limitações do sistema e o poder da fantasia criadora. No humor ocorre um sentimento de alívio face às limitações da existência e até das próprias tragédias. O humor é sinal da transcendência do ser humano que sempre pode estar para além de qualquer situação. No seu ser mais profundo é um livre. Por isso pode sorrir e ter humor sobre as maneiras que o querem enquadrar, sobre a violência com a qual se pretende submetê-lo. Somente aquele que é capaz de relativizar as coisas mais sérias, embora as assuma num efetivo engajamento, pode ter bom humor.
O maior inimigo do humor é o fundamentalista e o dogmático. Ninguém viu um terrorista sorrir ou um severo conservador cristão esboçar um sorriso. Geralmente são tão tristes como se fossem ao próprio enterro. Basta ver seus rostos crispados. Não raro são reacionários e até violentos.
Em última instância, a essência secreta do humor reside numa atitude religiosa, mesmo esquecida no mundo profano, pois o humor vê as realidades todas em sua insuficiência diante da Última Realidade. O humor e a festa revelam que há sempre uma reserva de sentido que nos permite ainda viver e sorrir.


* Teólogo e professor emérito de ética da UERJ

20 de janeiro de 2008

"Do Senhor é a terra com tudo o que ela contém". Sl. 24,1

Pelas flores que se abrem a nossos pés,
Pai, damos graças a ti.
Pela relva suave, tão verde e tão tenra, Pai, damos graças a ti.
Pelo canto das aves e o mel das abelhas,
Por tudo o que vemos e ouvimos de belo, Pai, celeste, damos graças a ti.
Pelo azul do céu e pelo azul do mar, Pai, damos graças a ti.
Pela sombra amena dos altos ramos, Pai, damos graças a ti.
Pelo ar perfumado e o frescor da brisa,
Pela beleza das árvores floridas, Pai celeste, damos graças a ti.
Pela manhã que nasce com a sua luz, Pai, damos graças a ti.
Pelo abrigo e o repouso da noite, Pai, damos graças a ti.
Pela saúde e alimento, pelo amor e amizade, por tudo o que nos envia a tua bondade,
Pai celeste, damos graças a ti.


Ralph Waldo Emerson

18 de janeiro de 2008

A xenofobia anda solta: pobre dos Romenos

Alacir Ramos Silva*

Os jornais do mundo inteiro trouxeram no início deste mês, em suas páginas policiais, alguns da Europa, em primeira página, que duas romenas foram degoladas em quartos de um hotel, próximo à estação Termini, em Roma. Esta é a estação ferroviária mais importante de Roma e uma das maiores da Europa. Projetada por Salvatore Bianchi, foi construída em 1867. Dela pode-se caminhar até a Roma antiga e o Coliseu. E, por entre as ladeiras estão localizados vários hotéis de categorias diversas.
Crimes envolvendo romenos é uma das situações mais complicadas que a Europa, especialmente a Itália e França, está colocando embaixo do tapete, além claro da lei criada quando então ministro, o famoso Sarcozy, que chamou a imprensa para uma entrevista coletiva e anunciou o seu divórcio no dia do início da primeira greve geral de seu mandato como presidente. E, agora, está causando sérios problemas diplomáticos a Índia porque avisou que sua nova namorada irá com ele a uma visita oficial. Para quem gosta de fofocas de celebridades: parece que o casamento já está marcado e a mãe da noiva faz muito gosto.
A referida lei obriga filhos a pagar uma pensão do tipo "benefício da prestação continuada - BPC" brasileiro aos pais em situação de carência econômica e retira a responsabilidade do Estado Francês na manutenção destes cidadãos idosos, contribuintes ou não no passado. Um parênteses para comentar este fato: tente assistir algum documentário, claro que não passará na Globo, sobre a revolta de cidadãos franceses que nunca foram assistidos, nem em afeto e nem economicamente, pelos pais, e que hoje, estão sendo obrigados a retirar parte do sustento de seus filhos para pagar "o BPC", a moda do Sarcozy, aos seus pais. Este tema dá margem para mais uns dez artigos!
Voltando à situação dos romenos, eles são tão latinos quanto os italianos, até mesmo porque o nome Romênia vem de Roma e o país era uma das províncias do Império Romano. Talvez, seja daí a origem do sentimento/comportamento, que vai muito além da xenofobia clássica que os italianos e, pasmem, os outros imigrantes residentes no mesmo território tem deste povo.
A discriminação é mostrada a todo vapor com comentários vulgares, xingamentos desnecessários e manifestação pública de agressão. Os outros imigrantes esqueceram-se bem depressa que vivem em guetos (não aqueles de cinqüenta anos atrás, mas os da atualidade marcados por violência e ausência total rede de solidariedade entre vizinhos e de infraestrutura física, que são chamados de extra comunitários e que o seu supermercado era (continua sendo) na periferia e que não vende produtos locais, só os globalizados, próprios ao consumo dos cidadãos que vem com a sociedade global.
Como todo o povo latino, os romenos falam e riem alto. Também parecem discutir quando falam. São machistas. Aceitam qualquer emprego, não discutem salário. Qualquer um é melhor que o nada que tinham. Guardam consigo toda uma herança da violência estrutural a que foram e continuam sendo submetidos, mesmo sendo desde 2007 pertencentes à Comunidade Européia. Vale lembrar que os problemas estruturais que a Romênia passou eram tão grandes que o estado de Israel chegou a pagar ao antigo governo pela saída de famílias judias com crianças para que não fossem afetadas pela violência imposta e exposta naquela sociedade, em nome de um futuro melhor para estas crianças.
Por esta herança eles (homens e mulheres romenos) estão pagando muito caro, o preço é um dos mais altos que se tem notícia entre os povos pobres que vieram para a comunidade. Até os Senegaleses já encontraram, com seu charme de raça negra "pura", seus defensores e defensoras por sua agilidade para "correr do rapa" e por seus dotes sexuais, que encantam a um segmento de homens e mulheres europeus. Todos imigrantes podem fazer qualquer coisa, os romenos que nem mais imigrantes são, não!
Homens e mulheres romenas, especialmente os jovens, são lindos fisicamente. Algumas autoridades do mundo Fashion falam que as mulheres só não são mais belas que as brasileiras porque seus seios são, geneticamente, pequenos e que, ainda, não descobriram a indústria dos silicones. Em breve estarão nas passarelas, falta só um empurrão de um "olheiro".
Esta beleza está abalando as estruturas das tradicionais famílias européias e provocando uma mudança de sujeitos de desejo no mercado do sexo. Casamentos de nativos europeus e de imigrantes estão sendo "destruídos" pela ousadia dos jovens romenos que como profissionais do sexo, independente do gênero e da orientação sexual, já são em número muito alto. Sustentam com os Euros que ganham e levam à Romênia muitos velhinhos e criancinhas, que são pais, filhos e maridos e esposas que por lá ficaram.
Sua maneira de enfrentar o mundo, seus padrões de vida, sua sujeição à violência do seu país, fez, também, deste povo, usuários da violência verbal, física e psicológica como estratégia de enfrentamento de sua dura realidade. Óbvio é que ao vir para os outros países não deixaram em suas fronteiras estes traços e nem tiveram Glorinha Kalil no Fantástico para lhes mostrar como falar, como andar e como usar dos três mais importantes S (surgir, sorrir e sumir) para tornar-se celebridades na atualidade. Viram celebridades, quase sempre, pelas páginas policiais.
No início, levaram a responsabilidade. Em Milão, uma romena matou, com a ponta de um guarda chuva, uma italiana, numa briga dentro de um metrô. Foi execrada publicamente. Esqueceram-se, porém de contar que as duas eram prostitutas e que a briga foi disputa de ponto ou de cliente, sei lá! Um romeno estrupou e matou uma garotinha. Sem ironias e até mesmo sem qualquer defesa, porque para a violência não há justificativa, olhem as estatísticas, sejam isentos e questionem: só ele neste mundo? Quantos fizeram e fazem isto incluindo políticos, artistas e religiosos e nem foram notícia nacional quanto mais internacional?
O problema dos romenos é que eles são pobres, muito pobres e vieram para uma Comunidade Européia competir com uma classe média empobrecida que nunca aceitou a conversão que houve nos preços diferentes de seus salários quando da unificação da moeda e o volume de impostos que paga para manter-se como classe média. Hoje, na Europa é inviável ser sozinho. Cada vez menos os filhos saem das casas de seus pais e a constituição de uma família está sendo quase obrigatória para reduzir as taxas de quem fez a opção de morar sozinho. Amor? Secundário meu amigo, a questão está mesmo na redução das taxas.
Os jovens europeus com qualificados vão trabalhar uma vida e, provavelmente, não comprarão nenhum imóvel. Há a quase piada, se não fosse realidade, que um jovem, recém graduado, com um salário mínimo profissional, foi a um banco pegar um empréstimo para comprar um apartamento de um quarto, sala e garagem e só conseguiu comprar a garagem de um prédio e ali passou a residir. Por que? Quase não há mais contrato de trabalho com garantias previdenciárias, a grande maioria trabalha como autônomo e descontados as taxas, estes jovens, após trabalharem mais que 10 horas diárias, ficam com um salário mínimo mensal. Sendo que quem trabalha no mercado informal e tem "tino" comercial e/ou para negócios ganha muito mais que isto na chamada economia marginal.
Um aperitivo de final da tarde custa em torno de sete euros, um jantar num restaurante de padrão médio fica por volta de cinqüenta euros por pessoa. Salário mínimo é mínimo em qualquer lugar do mundo, muda pouco ou quase nada o poder de consumo da classe economicamente baixa imagine os jovens da classe média européia que estão sendo obrigados a sujeitarem-se a este salário! Já não chegava os outros imigrantes, agora, ainda, vêm os romenos para ameaçar?
Os romenos não têm as mesmas expectativas dos jovens de classe média em nem dinheiro para ir ao aperitivo, mas estão lá servindo, sem reclamar de nada. Como o emprego não é exclusivo ao romeno, outros imigrantes também estão trabalhando em bares, restaurantes e confeitarias, mas se grosseiros são com os clientes, imediatamente, são classificados como "só podiam ser romenos".
Também, os romenos não têm dinheiro para viajar de trem nem de avião. Poupam tudo para levar para casa. Viajam de ônibus, coisa muito rara na Europa, a não ser em época de greve geral, este meio passa a ser o mais viável por ser privado. Como o capital não investe no vazio, já ocupou este espaço: linhas de ônibus estão sendo criadas de vários países até a Romênia.
Os europeus costumam questionar a quem, não romeno, que viaja nestes ônibus: você está vigiando a carteira?
Tem um ônibus que sai de Montpellier/França. Leva-se três dias e três noites para chegar ao final da viagem que corta toda a Costa Azul francesa e italiana, passa por Torino e Milão e segue adiante até a Romênia. A Costa Azul é uma das mais belas e ricas regiões européias tem Nice, Cannes, Mônaco e Modane, em sua linha de frente, entre outras cidades encravadas entre mar e montanha. Nesta época do ano está toda em obras esperando o turismo do próximo verão. Of course, my Dear, se existe esta linha é porque lá estão eles, os romenos, trabalhando na rota do capital!
Para voltar para casa a passeio ou por uma longa temporada, os romenos têm "coragem" de entrar no ônibus com sacolas enormes contendo comida para os três dias. Alimentos que compraram nos supermercados dos extra comunitários. Sentem pouco frio, saltam em todas as paradas, tiram fotos, como qualquer turista. Riem muito, conversam com todos. Tentam, principalmente, as mulheres buscar, através do olhar pessoas confiáveis para conversar porque levam com eles todo o dinheiro que ganharam. Algumas mulheres, já compram duas poltronas para viajar com mais conforto, sinal de status que os europeus vão demorar muito para aceitar!
Para uma cidadã brasileira, estudiosa do fenômeno da violência urbana, impressionada com esta xenofobia européia aos romenos, em vigor nos dias atuais, resta perguntar: quem matou as romenas? E, a você se perguntar: com tantas coisas mais importantes acontecendo no Brasil e no mundo, inclusive o BBB 8, porque da pergunta e deste artigo?
Daí eu respondo: como o mundo vive a era do espetáculo, comprem seus ingressos senhores, o circo está sempre armado em algum lugar. E, alguém já escreveu, há muito tempo, que a história se repete, no início como farsa e a seguir como tragédia, portanto a tragédia não ficou no Império Romano, continua entre nós, os escalados para ser robôs!
Nota: Este texto foi originalmente escrito em três línguas (francês, inglês e Italiano) e agora em Português para sua divulgação, a pedido, nos paises de língua portuguesa.


*Professora universitária, pesquisadora e analista de Políticas e Programas Sociais

11 de janeiro de 2008

Princípio-Terra

Leonardo Boff*

Nunca se falou tanto da Terra como nos últimos tempos. Parece até que a Terra acaba de ser descoberta. Os seres humanos fizeram um sem número de descobertas, de povos indígenas embrenhados nas florestas remotas, de seres novos da natureza, de terras distantes e de continentes inteiros. Mas, a Terra nunca foi objeto de descoberta. Foi preciso que saíssemos dela e a víssemos a partir de fora, para então descobri-la como Terra e Casa Comum.
Isso ocorreu a partir dos anos 60 com as viagens espaciais. Os astronautas nos revelaram imagens nunca dantes vistas. Usaram expressões patéticas, como "a Terra parece uma árvore de Natal, dependurada no fundo escuro do universo", "ela é belíssima, resplandecente, azul-branca", "ela cabe na palma de minha mão e pode ser encoberta com meu polegar". Outros tiveram sentimentos de veneração e de gratidão e rezaram. Todos voltaram com renovado amor pela boa e velha Terra, nossa Mãe.
Esta imagem do globo terrestre visto do espaço exterior, divulgado diariamente pelas televisões do mundo inteiro, suscita em nós sentimento de sacralidade e está criando novo estado de consciência. Na perspectiva dos astronautas, a partir do cosmos, Terra e Humanidade formam uma única entidade. Nós não vivemos apenas sobre a Terra. Somos a própria Terra que sente, pensa, ama, sonha, venera e cuida.
Mas nos últimos tempos se anunciaram graves ameaças que pesam sobre a totalidade de nossa Terra. Os dados publicados a partir de 2 de fevereiro de 2007 culminando em 17 de novembro pelo organismo da ONU Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas, com os impasses recentes em Bali nos dão conta de que já entramos na fase do aquecimento global com mudanças abruptas e irreversíveis. Ele pode variar de 1,4 até 6 graus Celsius, dependendo das regiões terrestres. As mudanças climáticas possuem origem andrópica, quer dizer, tem no ser humano que inaugurou o processo industrialista selvagem, seu principal causador.
Se nada for feito, iremos ao encontro do pior e milhões de seres humanos poderão deixar de viver sobre o planeta.
Como destruímos irresponsavelmente, devemos agora regenerar urgentemente. A salvação da Terra não cai do céu. Será fruto da nova corresponsabilidade e do renovado cuidado de toda a família humana.
Dada esta situação nova, a Terra se tornou, de fato, o obscuro e grande objeto do cuidado e do amor humano. Ela não é o centro físico do universo como pensavam os antigos, mas ela se tornou, nos últimos tempos, o centro afetivo da humanidade. Só temos este planeta para nós. É daqui que contemplamos o inteiro universo. É aqui que trabalhamos, amamos, choramos, esperamos, sonhamos e veneramos. É a partir da Terra que fazemos a grande travessia rumo ao além.
Lentamente estamos descobrindo que o valor supremo é assegurar a persistência do planeta Terra e garantir as condições ecológicas e espirituais para que a espécie humana se realize e toda a comunidade de vida se perpetue.
Em razão desta nova consciência. falamos do princípio Terra. Ele funda uma nova radicalidade. Cada saber, cada instituição, cada religião e cada pessoa deve colocar-se esta pergunta: que faço eu para preservar a mátria comum e garantir que tenha futuro, já que ela há 4,3 bilhões de anos está sendo construida e merece continuar a exitir? Porque somos Terra não haverá para nós céu sem Terra.


*Teólogo e professor emérito de ética da UERJ

7 de janeiro de 2008

2008: O ano do Planeta!

Por Thiago Cássio d´Ávila AraújoPalestrante em temas de Direito Ambiental, escritor, mestrando em Direito e Políticas Públicas no Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), procurador Federal da Advocacia-Geral da União lotado na Consultoria Jurídica da EMBRATUR em Brasília/DF. thiago-davila@uol.com.br

"Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo", e que o Meio Ambiente possa literalmente gozar de vida nova "no ano que vai nascer".
The International Year of Planet Earth (2007-2009): Earth Sciences for Society, como se vê, na verdade é um projeto que comporta um triênio. Porém, pela Sessão Plenária de 22 de dezembro de 2005, a Organização das Nações Unidas (ONU) elegeu 2008 como "O Ano do Planeta", o que representa, mundialmente, um marco histórico importantíssimo para um direcionamento enérgico das ações humanas em favor da preservação ambiental, da conservação dos recursos naturais e da qualidade de vida.
Os cientistas fundadores do "International Year of Planet Earth" declararam ter procurado apoio da ONU, para estimular políticos e governantes dos 191 países congregados à ONU a usarem as "Ciências da Terra" como meio de desenvolvimento sustentável em seus países, além de induzi-los a reportarem à própria ONU os progressos realizados, e também para conferir credibilidade à iniciativa, facilitando a participação de doadores e patrocinadores para os objetivos a serem alcançados.
Aliás, para receber tais doações e patrocínios, foi criada uma pessoa jurídica sem fins lucrativos, conforme legislação do Delaware State, nos Estados Unidos da América. Espera-se por colaboração financeira vinda de indústrias privadas multinacionais, instituições intergovernamentais multinacionais, bancos de desenvolvimento, organizações científicas, governos locais, regionais e nacionais, organizações não-governamentais, fundos de caridade, solicitação direta de pequenas contribuições de indivíduos pela internet e demais doadores.
O "Ano Internacional do Planeta Terra" é um projeto científico grandioso e ambicioso. Congrega doze importantíssimas organizações fundadoras, que são: 1. "International Union of Geodesy and Geophysics" (IUGG); 2. "International Geographical Union" (IGU); 3. "International Union of Soil Sciences" (IUSS); 4. "International Lithosphere Programme" (ILP); 5. "Geological Survey of the Netherlands TNO" (TNO); 6. "The Geological Society of London" (GSL); 7. "International Soil Reference and Information Centre" (ISRIC); 8. A consortium of the "International Association of Engineering Geologists and the Environment" (IAEG), the "International Society of Rock Mechanics" (ISRM) and the "International Society of Soil Mechanics and Geotechnical Engineering" (ISSMGE); 9. "International Union for Quaternary Research" (INQUA); 10. "American Geological Institute" (AGI); 11. "American Association of Petroleum Geologists" (AAPG); 12. "American Institute of Professional Geologists" (AIPG).
Além desses sócios-fundadores, conta-se ainda com a presença de mais 25 instituições científicas associadas, sem falar que mais de 44 países, através de suas comunidades geocientíficas, manifestaram apoio ao projeto, por declarações escritas.
Dentre uma variada gama de objetivos, o "Ano Internacional do Planeta Terra" busca: reduzir riscos para a sociedade, através do conhecimento atual e de novas pesquisas; reduzir problemas de saúde da Humanidade, melhorando-se os aspectos médicos das ciências; descobrir novos recursos naturais e torná-los exploráveis em um modo sustentável; construir estruturas mais seguras; determinar o grau de participação humana nos fatores de mudança climática; melhorar a compreensão das condições do fundo do mar, relevantes para a evolução da vida; estimular nas sociedades os interesses pelas ciências; expandir o número de estudantes de ciências; aumentar os orçamentos para pesquisas; e promover exposição e aplicação das geociências.
O "Ano Internacional do Planeta Terra" objetiva ainda demonstrar as grandes realizações no campo das geociências e apressar a aplicação de tais conhecimentos, por políticos e formadores de opinião, em benefício da Humanidade. Evidentemente, as ações ambientais se dirigirão também aos eleitores, para que cada vez mais a questão ambiental passe a ser decisiva na escolha de governantes e parlamentares.
O sucesso do "Ano do Planeta" depende, evidentemente, dos países que compõem a Ordem Internacional. Cada país do globo terrestre deve participar. "National implementation of the Year of Planet Earth is essential for its success", como bem escreveu Eduardo F.J. de Mulder, Chair of the Management Team of the International Year of Planet Earth e ex-presidente da IUGS (International Union of Geological Sciences).
Evidentemente, Mulder se referiu aos Comitês Nacionais do próprio projeto "Year of Planet Earth". Penso que será fundamental que tais Comitês Nacionais recebam apoio, inclusive financeiro, no âmbito interno dos países, numa necessária união de propósitos e atuações, congregando Governo, iniciativa privada, terceiro setor e sociedade em geral. "Every country is encouraged to create such a committee", reza o "Prospectus and Business Plan - International Year of Planet Earth: Earth Sciences for Society", publicado em dezembro de 2006.
Vale lembrar que a ONU apontou a "United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization" (UNESCO) para estar à frente do projeto, juntamente com a IUGS, por óbvio.
No Brasil, o "Ano do Planeta" gerou uma importante iniciativa. Em campanha publicitária da NEOGAMA/BBH foi divulgada recentemente a criação do "Banco do Planeta" no âmbito do "Banco Bradesco S.A" para programas de responsabilidade sócio-ambiental. Outras instituições financeiras, públicas e privadas, certamente irão apresentar variadas iniciativas, igualmente relevantes, durante o ano de 2008, de maneira que, acredito, a injeção de capital privado em medidas ambientais cada vez mais crescerá. Aliás, o que me chama a atenção é o engajamento cada vez maior de empresas públicas, sociedades de economia mista, empresas privadas e pessoas jurídicas sem fins lucrativos, na questão ambiental. Por exemplo, no Brasil, as promoções do "Ano Internacional do Planeta Terra" (AIPT) recebem apoio da Petrobras e da Academia Brasileira de Ciências.
O Poder Público também não ficará de fora, por óbvio. O Congresso Nacional realizará uma sessão solene no mês de abril para tratar do assunto.
Está também previsto um seminário técnico-científico com representantes dos países da América Latina, a ocorrer entre os dias 21 e 25 de abril.
Além disso, vários eventos de natureza ambiental deverão ocorrer no Brasil e no mundo para promover o "Ano Internacional do Planeta Terra", assim como as "Ciências da Terra".
Enfim, o "Ano do Planeta" é na verdade uma forma criativa de arrecadar fundos para pesquisa científica, propagar idéias sustentáveis com embasamento científico e fazer despertar a consciência ambiental global.
Ao Meio Ambiente, Feliz 2008!
Referências
MULDER, Eduardo F. J.. Year of Planet Earth Wins UN Declaration. A letter from Eduardo F.J. de Mulder. Disponível em:
http://www.iugs.org/Year_of_Planet_Earth_Wins_UN_D/body_year_of_planet_earth_wins_un_d.html, Acesso em 27 dez 2007.
NOTÍCIA. Neogama/BBH cria para Bradesco divulgar o Banco do Planeta. Disponível em:
http://www.revistapublicidad.com. Acesso em 27 dez 2007.
PLANET EARTH. Earth Sciences for Society. Prospectus and Business Plan - International Year of Planet Earth. Publicado em dezembro de 2006. Disponível em:
http://www.yearofplanetearth.org/content/downloads/PlanetEarthBP.pdf. Acesso em 27 dez 2007.
RADIOBRÁS. CANUTO, Lourenço. Repórter da Agência Brasil. Petrobrás e Academia Brasileira de Ciências apóiam promoções do ano do planeta. Disponível em:
http://www.agenciabrasil.gov.br, Acesso em 27 dez 2007.

*Ambiente Brasil

2008: O ano do Planeta!

Por Thiago Cássio d´Ávila AraújoPalestrante em temas de Direito Ambiental, escritor, mestrando em Direito e Políticas Públicas no Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), procurador Federal da Advocacia-Geral da União lotado na Consultoria Jurídica da EMBRATUR em Brasília/DF. thiago-davila@uol.com.br

"Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo", e que o Meio Ambiente possa literalmente gozar de vida nova "no ano que vai nascer".
The International Year of Planet Earth (2007-2009): Earth Sciences for Society, como se vê, na verdade é um projeto que comporta um triênio. Porém, pela Sessão Plenária de 22 de dezembro de 2005, a Organização das Nações Unidas (ONU) elegeu 2008 como "O Ano do Planeta", o que representa, mundialmente, um marco histórico importantíssimo para um direcionamento enérgico das ações humanas em favor da preservação ambiental, da conservação dos recursos naturais e da qualidade de vida.
Os cientistas fundadores do "International Year of Planet Earth" declararam ter procurado apoio da ONU, para estimular políticos e governantes dos 191 países congregados à ONU a usarem as "Ciências da Terra" como meio de desenvolvimento sustentável em seus países, além de induzi-los a reportarem à própria ONU os progressos realizados, e também para conferir credibilidade à iniciativa, facilitando a participação de doadores e patrocinadores para os objetivos a serem alcançados.
Aliás, para receber tais doações e patrocínios, foi criada uma pessoa jurídica sem fins lucrativos, conforme legislação do Delaware State, nos Estados Unidos da América. Espera-se por colaboração financeira vinda de indústrias privadas multinacionais, instituições intergovernamentais multinacionais, bancos de desenvolvimento, organizações científicas, governos locais, regionais e nacionais, organizações não-governamentais, fundos de caridade, solicitação direta de pequenas contribuições de indivíduos pela internet e demais doadores.
O "Ano Internacional do Planeta Terra" é um projeto científico grandioso e ambicioso. Congrega doze importantíssimas organizações fundadoras, que são: 1. "International Union of Geodesy and Geophysics" (IUGG); 2. "International Geographical Union" (IGU); 3. "International Union of Soil Sciences" (IUSS); 4. "International Lithosphere Programme" (ILP); 5. "Geological Survey of the Netherlands TNO" (TNO); 6. "The Geological Society of London" (GSL); 7. "International Soil Reference and Information Centre" (ISRIC); 8. A consortium of the "International Association of Engineering Geologists and the Environment" (IAEG), the "International Society of Rock Mechanics" (ISRM) and the "International Society of Soil Mechanics and Geotechnical Engineering" (ISSMGE); 9. "International Union for Quaternary Research" (INQUA); 10. "American Geological Institute" (AGI); 11. "American Association of Petroleum Geologists" (AAPG); 12. "American Institute of Professional Geologists" (AIPG).
Além desses sócios-fundadores, conta-se ainda com a presença de mais 25 instituições científicas associadas, sem falar que mais de 44 países, através de suas comunidades geocientíficas, manifestaram apoio ao projeto, por declarações escritas.
Dentre uma variada gama de objetivos, o "Ano Internacional do Planeta Terra" busca: reduzir riscos para a sociedade, através do conhecimento atual e de novas pesquisas; reduzir problemas de saúde da Humanidade, melhorando-se os aspectos médicos das ciências; descobrir novos recursos naturais e torná-los exploráveis em um modo sustentável; construir estruturas mais seguras; determinar o grau de participação humana nos fatores de mudança climática; melhorar a compreensão das condições do fundo do mar, relevantes para a evolução da vida; estimular nas sociedades os interesses pelas ciências; expandir o número de estudantes de ciências; aumentar os orçamentos para pesquisas; e promover exposição e aplicação das geociências.
O "Ano Internacional do Planeta Terra" objetiva ainda demonstrar as grandes realizações no campo das geociências e apressar a aplicação de tais conhecimentos, por políticos e formadores de opinião, em benefício da Humanidade. Evidentemente, as ações ambientais se dirigirão também aos eleitores, para que cada vez mais a questão ambiental passe a ser decisiva na escolha de governantes e parlamentares.
O sucesso do "Ano do Planeta" depende, evidentemente, dos países que compõem a Ordem Internacional. Cada país do globo terrestre deve participar. "National implementation of the Year of Planet Earth is essential for its success", como bem escreveu Eduardo F.J. de Mulder, Chair of the Management Team of the International Year of Planet Earth e ex-presidente da IUGS (International Union of Geological Sciences).
Evidentemente, Mulder se referiu aos Comitês Nacionais do próprio projeto "Year of Planet Earth". Penso que será fundamental que tais Comitês Nacionais recebam apoio, inclusive financeiro, no âmbito interno dos países, numa necessária união de propósitos e atuações, congregando Governo, iniciativa privada, terceiro setor e sociedade em geral. "Every country is encouraged to create such a committee", reza o "Prospectus and Business Plan - International Year of Planet Earth: Earth Sciences for Society", publicado em dezembro de 2006.
Vale lembrar que a ONU apontou a "United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization" (UNESCO) para estar à frente do projeto, juntamente com a IUGS, por óbvio.
No Brasil, o "Ano do Planeta" gerou uma importante iniciativa. Em campanha publicitária da NEOGAMA/BBH foi divulgada recentemente a criação do "Banco do Planeta" no âmbito do "Banco Bradesco S.A" para programas de responsabilidade sócio-ambiental. Outras instituições financeiras, públicas e privadas, certamente irão apresentar variadas iniciativas, igualmente relevantes, durante o ano de 2008, de maneira que, acredito, a injeção de capital privado em medidas ambientais cada vez mais crescerá. Aliás, o que me chama a atenção é o engajamento cada vez maior de empresas públicas, sociedades de economia mista, empresas privadas e pessoas jurídicas sem fins lucrativos, na questão ambiental. Por exemplo, no Brasil, as promoções do "Ano Internacional do Planeta Terra" (AIPT) recebem apoio da Petrobras e da Academia Brasileira de Ciências.
O Poder Público também não ficará de fora, por óbvio. O Congresso Nacional realizará uma sessão solene no mês de abril para tratar do assunto.
Está também previsto um seminário técnico-científico com representantes dos países da América Latina, a ocorrer entre os dias 21 e 25 de abril.
Além disso, vários eventos de natureza ambiental deverão ocorrer no Brasil e no mundo para promover o "Ano Internacional do Planeta Terra", assim como as "Ciências da Terra".
Enfim, o "Ano do Planeta" é na verdade uma forma criativa de arrecadar fundos para pesquisa científica, propagar idéias sustentáveis com embasamento científico e fazer despertar a consciência ambiental global.
Ao Meio Ambiente, Feliz 2008!
Referências
MULDER, Eduardo F. J.. Year of Planet Earth Wins UN Declaration. A letter from Eduardo F.J. de Mulder. Disponível em:
http://www.iugs.org/Year_of_Planet_Earth_Wins_UN_D/body_year_of_planet_earth_wins_un_d.html, Acesso em 27 dez 2007.
NOTÍCIA. Neogama/BBH cria para Bradesco divulgar o Banco do Planeta. Disponível em:
http://www.revistapublicidad.com. Acesso em 27 dez 2007.
PLANET EARTH. Earth Sciences for Society. Prospectus and Business Plan - International Year of Planet Earth. Publicado em dezembro de 2006. Disponível em:
http://www.yearofplanetearth.org/content/downloads/PlanetEarthBP.pdf. Acesso em 27 dez 2007.
RADIOBRÁS. CANUTO, Lourenço. Repórter da Agência Brasil. Petrobrás e Academia Brasileira de Ciências apóiam promoções do ano do planeta. Disponível em:
http://www.agenciabrasil.gov.br, Acesso em 27 dez 2007.

*Ambiente Brasil

3 de janeiro de 2008

Neurociências a serviço do mercado

A investigação da atividade cerebral mostrou as áreas que devem ser estimuladas para tornar um produto altamente desejável. E, lançando mão do neuromarketing, uma centena de empresas já utilizam esses conhecimentos para vender sempre mais
Marie Bénilde

Reza a lenda que, em outubro de 1919, Lenin teria visitado o fisiologista Ivan Pavlov para ver como os trabalhos desse sobre os reflexos condicionados do cérebro podiam contribuir para a concepção do “novo homem” que os bolcheviques tentavam moldar na época. O cientista talvez servisse à propaganda do regime, associando, por meio de estímulos externos, pulsões instintivas a automatismos de transformação coletiva. Na verdade, Pavlov não foi de nenhuma valia para os bolcheviques, mas esse caso, verdadeiro ou falso, ilustra um fantasma que rondou o século 20: o da possessão de espíritos pela manipulação do inconsciente. Tal coisa permitiria vencer todas as resistências que podem acompanhar o uso da razão crítica. Desde então, uma propaganda é considerada eficaz quando percebe que sua assimilação será melhor se o receptor for psicologicamente condicionado a engoli-la — e a torná-la como sua.
As sociedades democráticas baniram de sua língua comum a palavra “propaganda”, que ficou associada apenas aos governos totalitários. No entanto, a exploração do cérebro com fins mercantis e a conseqüente manipulação das massas mostram que a sociedade de consumo não está longe disso. Ainda nos lembramos da famosa frase de Patrick Le Lay, presidente do canal francês TF1, que admitiu, em 2004, que sua rede tentava vender à Coca-Cola o “tempo de cérebro humano disponível”. O exemplo dessa marca — parceira privilegiada do TF1 — não se deve absolutamente ao acaso. No verão de 2003, Read Montague, neurologista do Baylor College of Medicine de Houston, mostrou que, se num blind test gustativo a concorrente Pepsi era a preferida, o inverso ocorria assim que se identificava claramente a bebida como sendo Coca-Cola. Os participantes da experiência declaravam então preferir o refrigerante das cores vermelha e branca.
Desse modo ficou demonstrada a superioridade da marca considerada como ás do branding, essa técnica que visa expor um logotipo no máximo de suportes, levando-o, até mesmo, a se imiscuir nos conteúdos (filmes, séries). Para estabelecer a conexão entre a imagem da marca e a estimulação do cérebro, a ciência recorreu a técnicas até então utilizadas com finalidades médicas para a detecção de tumores ou de acidentes cerebrais, como, por exemplo, imagens por ressonância magnética (IRM). Monitorando a atividade cerebral de seus pacientes, Montague observou que a região precisa do cérebro requisitada quando a pessoa via uma marca, o córtex pré-frontal médio, apelava para a memória e tinha um papel importante nos processos cognitivos. Por outro lado, o blind test gustativo envolvia a área cerebral denominada “putâmen ventral”, ligada à idéia de recompensa. A partir de abril de 2004, a Faculdade de Medicina de Baylor organizou em Houston o primeiro simpósio internacional consagrado às aplicações das imagens cerebrais ao marketing.
Três anos antes, em Atlanta, cidade onde fica a sede da Coca-Cola Company, o instituto Brighthouse, fundado pelo publicitário Joe Reyman, criava um grupo de especialistas encarregado de comercializar os ensinamentos de marketing extraídos das neurociências. O diretor científico do instituto, Clint Kilts, chegou às mesmas conclusões de seu colega de Houston, localizando no córtex pré-frontal médio a zona cerebral que reage às imagens publicitárias. Mas ele observou que essa reação é ainda mais significativa pelo fato de o sujeito se identificar com a imagem do produto, sendo tentado a dizer “isso é exatamente eu” [
1]. A famosa região-chave do neuromarketing é efetivamente associada à auto-imagem da pessoa e ao seu conhecimento íntimo de si mesma (assim, por exemplo, os pacientes que têm o córtex pré-frontal médio lesado depois de um acidente sofrem freqüentemente perturbações da personalidade). Como explica Annette Schäfer na revista Cerveau et Psycho, “eis aqui o motor do comércio. O córtex pré-frontal médio nos faz gostar do que os outros gostam. Assim, conseguir estimulá-lo poderia ser um objetivo importante de uma campanha publicitária perfeita” [2]. Por isso, o córtex pré-frontal médio é para os neuromarqueteiros a pedra filosofal de uma alquimia perfeita: a operação que consiste em transformar todo o amor por si mesmo enquanto si mesmo (o narcisismo) em amor por si mesmo enquanto outro (o objeto publicitário).
Segundo Olivier Oullier, pesquisador de neurociências da Florida Atlantic University, existe atualmente uma centena de empresas no mundo que utilizam as técnicas do neuromarketing [
3]. Contudo, elas são muito discretas com relação às experiências realizadas, temendo levantar uma onda de reprovação na opinião pública. Em 2003, por exemplo, uma dessas empresas, a Daimler Chrysler, confiou ao Centro Hospitalar de Ulm, na Alemanha, a tarefa de escanear cérebros submetendo imagens de carros sofisticados a uma dezena de homens.
Constatou-se então a importância do “núcleo accumbens”, região ligada à sensação de recompensa. A experiência mostrou que o objeto de consumo pode se assemelhar a um objeto de desejo por meio de um verdadeiro processo de personificação. “Quando olhavam os carros, estes lhes lembravam rostos; os faróis pareciam um pouco com os olhos”, expõe Henrik Walter, psiquiatra da Universidade de Ulm, a propósito dos indivíduos investigados [
4]. Os publicitários viram nisso a confirmação de um procedimento amplamente utilizado: é preciso reforçar nas peças publicitárias a correlação instintiva entre desejo sexual e pulsão de compra. “O consumidor deve poder sentir a marca, agarrar-se a ela como um amante”, afirma, sem sorrir, Kevin Roberts, diretor executivo da Saatchi & Saatchi [5].
Esses empreendimentos de validação científica da publicidade devem ser levados a sério? O fato é que, aos olhos dos profissionais, eles têm o mérito de aumentar a garantia da difusão de mensagens publicitárias na mídia, num momento em que a internet permite, clique após clique, seguir as pegadas do comportamento do consumidor. Assim, o neuromarketing nasce do encontro entre executivos de empresas preocupados em legitimar internamente suas despesas de comunicação, agências de publicidade desejosas de valorizar sua contribuição (a agência BBDO, de Dusseldorf, trabalha com o conceito de brainbranding, que tenta determinar como certas marcas entram na memória episódica do cérebro) e grandes mídias inquietas com o aumento do poder dos novos vetores de comunicação.
O sindicato francês da publicidade televisada, presidido por Claude Cohen, também presidente da TF1 Publicité, há algum tempo se interessa pelo que chama de “mecanismos de memória não conscientes”. Por meio do instituto privado Impact Mémoire, que se esforça por tirar partido das “técnicas de imagens funcionais cerebrais”, realizou um estudo com 120 pessoas sob o pretexto de testar a sua acuidade visual. Enquanto as cobaias tentavam detectar quadradinhos verdes em telas de computadores, difundiam-se intermitentemente publicidades num lugar bem visível. Paralelamente, a mesma experiência era realizada com spots de rádio e cartazes.
Como sugere a lógica, a mídia que associa som e imagem é a que obtém a melhor pontuação de memorização inconsciente das mensagens publicitárias. Um dos fundadores do Impact Mémoire, Bruno Poyet, resumiu o propósito do teste. Segundo ele, “a atenção é necessária a uma boa retenção mnésica. Uma conotação emocional forte acentua a atenção. Uma grande carga emocional gera a secreção de certas substâncias pela amígdala e essas substâncias favorecem a memorização” [
6].
É esse contexto “emocional”, propício à publicidade destinada a donas de casa de menos de cinqüenta anos, que a TF1 procura criar em seus programas. Em novembro de 2003, o canal publicou na imprensa especializada um anúncio com uma frase eloqüente: “Uma publicidade inserida no meio de um programa do TF1 obtém 23% de memorização suplementar”. O neurologista Bernard Croisile, outro fundador da Impact Mémoire, lembra que se “nenhum estudo existente permite provar que o conteúdo de uma emissão condiciona a resposta às publicidades que virão a seguir […] o que se pode dizer é que, quando estamos numa situação emocionalmente positiva, retemos melhor os elementos positivos, do mesmo modo como os depressivos assimilam melhor as informações negativas [
7]. Trata-se, portanto, de oferecer ao telespectador a sua dose de emoção prazerosa.
Assim, a implicação das neurociências — ou de seus avatares — nas indústrias da publicidade tem um futuro auspicioso diante de si. Em março de 2007, a Omnicom, líder mundial da publicidade, lançou na França a agência de consultoria em mídia PHD. Essa rede, surgida na Grã-Bretanha, apóia-se num aplicativo de neuroplanning criado a partir de estudos realizados por meio de ressonância magnética. A PHD pretende mostrar às empresas as zonas do cérebro que devem ser estimuladas de acordo com os objetivos de suas campanhas e das mídias utilizadas.
O conhecimento íntimo do cérebro do consumidor não pode ter outro resultado senão incitar as empresas, e os responsáveis por sua publicidade, a transcender os limites que normalmente lhes são reservados para comunicar. Na verdade, a excelência das condições de receptividade de uma marca é julgada tanto maior quanto menos o “alvo” tem consciência de ser visado. É isso que explica o avanço do advertising”, esse cruzamento híbrido da publicidade com o entretenimento, do qual se tem um exemplo recente no jogo da França com a Argentina, realizado no Stade de France durante a Copa do Mundo de Rugby. Jovens modelos vestidas com roupas íntimas dançaram nos degraus, seguidas atentamente pelas câmeras do TF1, numa “criação” da agência de publicidade Fred-Farid Lambert para a marca Dim.
O merchandising, a inserção de produtos nos conteúdos de filmes, séries de tevê etc., também ganha terreno, como testemunha o surgimento de contratos globais ligando produtores, difusores e anunciantes. Em 2001, o conglomerado da Procter & Gamble fechou um contrato de 500 milhões de dólares com o grupo Viacom e a cadeia CBS para introduzir seus produtos nos cenários. Quatro anos depois, foi a vez de a Volkswagen investir 200 milhões de dólares para pôr seus veículos nos filmes dos Estúdios Universal e de sua cadeia, a NBC. Em 2005, a filial francesa da central de compras de espaço Aegis criou também a Carat Sponsorship Entertainment para introduzir a publicidade no conteúdo dos programas e torná-la mais bem aceita pelo consumidor. Ela foi imitada em 2007 pela filial Havas Entertainment.
Se ainda se supõe que o Conselho Superior do Audiovisual da França cuida de proibir qualquer publicidade clandestina na televisão, a transposição para a lei francesa da diretriz européia Televisões sem Fronteira, anunciada para 2008, promete autorizar definitivamente a inserção de produtos nos programas, como escancaradamente acontece nos Estados Unidos. O limite diário de doze minutos de publicidade para cada hora deverá assim ser abrandado de modo a permitir a difusão de mais publicidade durante o horário nobre. Paralelamente, prosperam emissões como Question Maison (França 5) ou Du Côté de Chez Vou (TF1), que devem sua existência exclusivamente à entrada da marca Leroy Merlin na produção de conteúdos. É claro que o inconsciente do telespectador não foi reivindicado abertamente. Mas, por trás do telespectador, ainda e sempre, é o consumidor que se busca.


[1] Ver “There is a sucker born in every medial prefrontal cortex”, The New York Times Magazine, 26 de outubro de 2003.
[
2] “Vous avez dit neuromarketing?”, Cerveau et Psycho n.º 7, setembro-novembro de 2004.
[
3] Ver “Neuromarketing: les bases d’une discipline nouvelle”, em 20 de fevereiro de 2007.
[
4] Ver “There is a sucker born in every medial prefrontal cortex”, The New York Times Magazine, 26 de outubro de 2003.
[
5] Stratégies, Issy-les-Moulineaux, 11 de novembro de 2004.
[
6] Ver o site da associação das agências de consultoria de comunicação.

2 de janeiro de 2008

Aforismos

Leonardo Boff*

Não parece descabido, no início do ano, oferecer alguns aforismos, fruto de reflexão e da sabedoria cotidiana presente no ambiente cultural. Elencaremos uns quantos, compreensíveis por si mesmos.
Mais importante que saber é nunca perder a capacidade de aprender.
Se tudo no universo está em gênese, então o paraíso ansiado não está no começo mas no fim.
Somos inteiros, mas não prontos. Começamos a nascer e vamos nascendo lentamente até acabar de nascer. É quando então morremos.
Só pode morrer o que é. O possível que ainda não é, permanece para se realizar no além morte.
Não vivemos para morrer. Morremos para ressuscitar.
Se você se sente gente comum, console-se. Deus deve ter amado muito a gente comum para criar um número tão grande, entre eles, eu e você.
Não vá por caminhos já andados. Caso contrário nunca deixará marcas suas no chão.
Se quiser ir longe, vá devagar. Nunca pare nem ande para trás.
Agradeça a Deus por ter tropeçado. Assim evitou uma queda.
Onde não há nenhum medo, não haverá também nenhuma coragem, necessária para viver.
Se quiser esquecer as muitas pedras que impedem o seu caminho, pense nos fundamentos da casa que pode construir com elas.
Na luta entre a pedra e a gota, ganhará sempre a gota não por sua força, mas por sua persistência.
Se mantiver firme a perspectiva do fim, não haverá obstáculo que lhe seja insuperável.
O novo somente surge à condição de que algo tenha sido deixado para trás.
Para quem busca, haverá sempre uma Estrela como a de Belém para iluminar o seu caminho.
Um navio está seguro no porto, mas não é para isso que foi construído.
De uma única vela podem se acender milhares de outras sem que sua luz diminua.
Se quiser subir uma longa escada não olhe para ela, apenas para cada degrau.
Para aqueles que querem cantar, haverá sempre uma melodia à disposição no ar.
Só entenderá bem o outro quem se colocar no lugar dele.
Até o relógio parado, duas vezes ao dia está certo.
Seja como a cigarra que para se renovar tem que perder toda sua aparência exterior.
Só se alegrarão com o nascer do sol aqueles que souberam esperar dentro da noite escura.
Ninguém entrará no céu se primeiro não começou a construí-lo aqui na terra.
Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser Deus. Só Deus quis ser menino.
Porque os cristãos anunciaram um Deus sem o mundo, surgiu em conseqüência um mundo sem Deus.
Humano assim como Jesus, só Deus mesmo.
No começo de tudo não está a solidão do Uno, mas a comunhão dos Três: da Origem sem origem, da suprema Palavra e da sagrada União de tudo com tudo. Eles estão tão entrelaçados no amor que se uni-ficam, quer dizer, fica Um.


*Teólogo e professor emérito de ética da UERJ

31 de janeiro de 2008

As opções que fazemos

A vida é feita de opções.
Já me arrependi de algumas que fiz, mas depois de algum tempo dei sentido à elas.
Hoje consigo ter mais clareza das consequências das opções que faço. Algum tempo atrás isso era mais difícil, eu era mais impulsiva. Sofri muito...
Nossa!! Às vezes paro pra pensar em coisas que fiz, burrices que cometi... Não as repetiria! Algumas geram até hoje muitas risadas, outras me envergonham...
Mas como a vida é feita de opções, nunca podemos fugir delas.Sempre teremos que escolher. As escolhas nos comprometem, são como assinatura. Não tem como escapar.
Quando trabalhei em uma determinada empresa, alguns anos atrás, tive uma colega que me fez perder a paciência muitas vezes... Toda vez que vinha uma proposta, onde todas as funcionárias daquele setor precisassem tomar uma decisão ela travava todo mundo. Nunca queria "dar a cara pra bater". Nossa! Isso me irritava muito. Muitas vezes perdíamos horas decidindo que caminho tomar, e lá vinha ela freiando todo mundo e não querendo optar por alguma das propostas. Sempre temi ficar assim, sem assumir uma posição, sem optar por alguma coisa com medo ou receio de julgamentos ou pré-conceitos.
Mas aprendi uma coisa com essa situação, mesmo que você escolha não optar, você já optou...
















Minha mãe não deixa eu brincar com fogo!

30 de janeiro de 2008

Saudade...

Hoje os calendários dizem que é o dia da saudade...
A saudade descreve a mistura dos sentimentos de perda, distância e amor.
Existem muitas músicas e poesias que falam desse tema, ô e quantas!

Muitas poesias e músicas enfocam apenas o lado triste da saudade. Eu prefiro a boa lembrança, a "coisa boa". Afinal só sentimos saudade do que foi bom...

Clarice Lispector dizia: Saudade é um pouco como fome. Só passa quando se come a presença. Mas às vezes a saudade é tão profunda que a presença é pouco: quer-se absorver a outra pessoa toda. Essa vontade de um ser o outro para uma unificação inteira é um dos sentimentos mais urgentes que se tem na vida.

Quando penso em pessoas, lugares e outras coisas que me fazem ter saudade, logo lembro do tempo. O tempo deve ser parente bem próximo da saudade. Ele às vezes parece correr mais rápido do que desejamos.
Mas a vida é assim, tempo, saudade, ausências, sentimentos, etc.
Uma coisa que aprendi nesses meus 28 anos é preencher a ausência da presença com a lembrança dos momentos compartilhados nas horas alegres. Isso me ocorre sempre quando me vejo triste com saudade de alguém. Tem funcionado comigo!

Mesmo que o tempo encha meu coração de saudade eu me esforço para nessa situação lembrar das coisas boas. Outra coisa que tenho clareza é que não sinto saudade de coisas que não fiz, ah isso não! Sinto saudade de coisas que vivi. Isso faz uma enorme diferença, senão estaria sentindo outra coisa, o tal do arrependimento... Xiii esse aí é dose. Faz a gente ficar amargurado, com sabor de chocolate meio amargo... Conheço muitas pessoas assim. Não é fácil conviver com elas.

Bom, já fui longe demais com a minha saudade!!!
Uma ótima quarta, que esta deixe saudade...

29 de janeiro de 2008

Esperança

Às vezes tenho a impressão que estou chegando ao fim do caminho.
Olho para frente e custo a perceber alguma saída. Alternativas a determinadas situações...
Principalmente nesta fase do ano, os projetos ficam meio distantes, um tanto perdidos.
Parece mesmo que o outono da existência fez com que secassem as nossas esperanças e o vento forte do inverno varresse das nossas mãos todos os sonhos acalentados.
Assim, quando a chama da esperança reacende em nosso íntimo, nossos sonhos desfeitos são substituídos por outros anseios. Nossos objetivos se modificam e o entusiasmo nos invade a alma.
E ela é insistente, sim ela, a esperança. Quando tento fechar a porta ela não deixa, às vezes eu a agradeço por isso! Outras fico sem saber o que fazer...
Desde quando comecei a pensar e tentar definir a esperança, sempre me veio a mente a imagem da borboleta... Não sei por que. A borboleta é linda (em todas as suas fases), é colorida, ou não, assim como a esperança. É "arteira", voa dali pra cá, de lá pra cá, difícil acompanhá-la, está sempre a procura, de belas flores, de belas plantas. A esperança é um pouco assim, sempre busca resgatar o que temos de melhor. Sempre nos impulsiona a crer em melhores momentos, opções, sonhos...

Que este ano seja o ano da esperanças... Sempre arteira, nos fazendo crer no melhor!

28 de janeiro de 2008

Tentativa

Vou tentar escrever mais do que reproduzir os textos de outros. Alguns amigos já cobram isso algum tempo!

Confesso que frustrei-me em escrever, acho que durante os estudos do ensino médio eu escrevi tanto, sonhei tanto com meus escritos que, de certa forma, cansei!

Vou re-criar a beleza de escrever... Pode deixar!

Preciso, mesmo, urgentemente pescar novos sonhos!

Ando precisando ver beleza nas coisas mais simples. Fui assim um dia, mas a vida tem vindo tão cheia de desafios e momentos não tão bons que a gente vai endurecendo.

Me lembro às vezes, de momentos que eu acreditava serem únicos, que pareciam um paraíso, hoje já não me emocionam mais.

Mas tenho bons pressentimentos para este ano, embora os anos parecem começar repetidos! Este ano quero retomar algumas coisas, nada tão mirabolante, mas importante pra mim.

O ano de 2007 foi bem conturbado, pessoalmente, muitas coisas resolvidas na família, no trabalho nem tanto (nem tudo depende de mim, graças a Deus). Mas foi O ano para descobrir como são as pessoas que convivo... Bom, capítulo para outra postagem!
Abraços. Boa S.E.M.A.N.A!

24 de janeiro de 2008

O sentido do humor e da festa

Leonardo Boff*

Os tempos não são bons. A humanidade é conduzida por líderes na maioria negativos e medíocres. As religiões, quase todas, estão doentes de fundamentalismo, arrogância e dogmatismo, não excluídos setores da Igreja Católica Romana, contaminados pelo pessimismo cultural do atual Papa.
Mesmo assim há ainda lugar para o humor e o sentido da festa? Creio que sim. Apesar dos absurdos existenciais, a maioria das pessoas não deixa de confiar na bondade fundamental da vida. Levanta-se pela manhã, vai ao trabalho, luta pela família, procura viver com um mínimo de decência (tão traída pelos políticos) e aceita enfrentar sacrifícios por valores que realmente contam. O que se esconde por detrás de tais gestos cotidianos? Ai se afirma de forma pré-reflexa e inconsciente: a vida tem sentido; aceitamos morrer, mas a vida é tão boa, como disse, antes de morrer, François Mitterand.
Sociólogos como Peter Berger e Eric Vögelin têm insistido em suas reflexões que o ser humano possui uma tendência inarredável para ordem. Onde quer que ele apareça, cria logo um arranjo existencial com ordens e valores que lhe garantem uma vida minimamente humana e pacífica.
É esta bondade intrínseca da vida que permite a festa e sentido de humor. Através da festa, no sacro e no profano, todas as coisas se reconciliam. Como afirmava Nietzsche, "festejar é poder dizer: sejam bem-vindas todas as coisas". Pela festa o ser humano rompe o ritmo monótono do cotidiano, faz uma parada para respirar e viver a alegria de estar-juntos, na amizade e na satisfação de comer e de beber. Na festa, o beber e o comer não têm uma finalidade prática de matar a fome ou a sede, mas de gozar do encontro e de celebrar a amizade. Na festa o tempo do relógio não conta e é dado ao ser humano, por um momento, vivenciar o tempo mítico de um mundo reconciliado consigo mesmo. Por isso, inimigos e desconhecidos são estranhos no ninho da festa, pois esta supõe a ordem e a alegria na bondade das pessoas e das coisas. A música, a dança, a gentileza e a roupa festiva pertencem ao mundo da festa. Por tais elementos o ser humano traduz seu sim ao mundo que o cerca e a confiança em sua harmonia essencial.
Esta última confiança dá origem ao senso de humor. Ter humor é possuir a capacidade de perceber a discrepância entre duas realidades: entre os fatos brutos e o sonho, entre as limitações do sistema e o poder da fantasia criadora. No humor ocorre um sentimento de alívio face às limitações da existência e até das próprias tragédias. O humor é sinal da transcendência do ser humano que sempre pode estar para além de qualquer situação. No seu ser mais profundo é um livre. Por isso pode sorrir e ter humor sobre as maneiras que o querem enquadrar, sobre a violência com a qual se pretende submetê-lo. Somente aquele que é capaz de relativizar as coisas mais sérias, embora as assuma num efetivo engajamento, pode ter bom humor.
O maior inimigo do humor é o fundamentalista e o dogmático. Ninguém viu um terrorista sorrir ou um severo conservador cristão esboçar um sorriso. Geralmente são tão tristes como se fossem ao próprio enterro. Basta ver seus rostos crispados. Não raro são reacionários e até violentos.
Em última instância, a essência secreta do humor reside numa atitude religiosa, mesmo esquecida no mundo profano, pois o humor vê as realidades todas em sua insuficiência diante da Última Realidade. O humor e a festa revelam que há sempre uma reserva de sentido que nos permite ainda viver e sorrir.


* Teólogo e professor emérito de ética da UERJ

20 de janeiro de 2008

"Do Senhor é a terra com tudo o que ela contém". Sl. 24,1

Pelas flores que se abrem a nossos pés,
Pai, damos graças a ti.
Pela relva suave, tão verde e tão tenra, Pai, damos graças a ti.
Pelo canto das aves e o mel das abelhas,
Por tudo o que vemos e ouvimos de belo, Pai, celeste, damos graças a ti.
Pelo azul do céu e pelo azul do mar, Pai, damos graças a ti.
Pela sombra amena dos altos ramos, Pai, damos graças a ti.
Pelo ar perfumado e o frescor da brisa,
Pela beleza das árvores floridas, Pai celeste, damos graças a ti.
Pela manhã que nasce com a sua luz, Pai, damos graças a ti.
Pelo abrigo e o repouso da noite, Pai, damos graças a ti.
Pela saúde e alimento, pelo amor e amizade, por tudo o que nos envia a tua bondade,
Pai celeste, damos graças a ti.


Ralph Waldo Emerson

18 de janeiro de 2008

A xenofobia anda solta: pobre dos Romenos

Alacir Ramos Silva*

Os jornais do mundo inteiro trouxeram no início deste mês, em suas páginas policiais, alguns da Europa, em primeira página, que duas romenas foram degoladas em quartos de um hotel, próximo à estação Termini, em Roma. Esta é a estação ferroviária mais importante de Roma e uma das maiores da Europa. Projetada por Salvatore Bianchi, foi construída em 1867. Dela pode-se caminhar até a Roma antiga e o Coliseu. E, por entre as ladeiras estão localizados vários hotéis de categorias diversas.
Crimes envolvendo romenos é uma das situações mais complicadas que a Europa, especialmente a Itália e França, está colocando embaixo do tapete, além claro da lei criada quando então ministro, o famoso Sarcozy, que chamou a imprensa para uma entrevista coletiva e anunciou o seu divórcio no dia do início da primeira greve geral de seu mandato como presidente. E, agora, está causando sérios problemas diplomáticos a Índia porque avisou que sua nova namorada irá com ele a uma visita oficial. Para quem gosta de fofocas de celebridades: parece que o casamento já está marcado e a mãe da noiva faz muito gosto.
A referida lei obriga filhos a pagar uma pensão do tipo "benefício da prestação continuada - BPC" brasileiro aos pais em situação de carência econômica e retira a responsabilidade do Estado Francês na manutenção destes cidadãos idosos, contribuintes ou não no passado. Um parênteses para comentar este fato: tente assistir algum documentário, claro que não passará na Globo, sobre a revolta de cidadãos franceses que nunca foram assistidos, nem em afeto e nem economicamente, pelos pais, e que hoje, estão sendo obrigados a retirar parte do sustento de seus filhos para pagar "o BPC", a moda do Sarcozy, aos seus pais. Este tema dá margem para mais uns dez artigos!
Voltando à situação dos romenos, eles são tão latinos quanto os italianos, até mesmo porque o nome Romênia vem de Roma e o país era uma das províncias do Império Romano. Talvez, seja daí a origem do sentimento/comportamento, que vai muito além da xenofobia clássica que os italianos e, pasmem, os outros imigrantes residentes no mesmo território tem deste povo.
A discriminação é mostrada a todo vapor com comentários vulgares, xingamentos desnecessários e manifestação pública de agressão. Os outros imigrantes esqueceram-se bem depressa que vivem em guetos (não aqueles de cinqüenta anos atrás, mas os da atualidade marcados por violência e ausência total rede de solidariedade entre vizinhos e de infraestrutura física, que são chamados de extra comunitários e que o seu supermercado era (continua sendo) na periferia e que não vende produtos locais, só os globalizados, próprios ao consumo dos cidadãos que vem com a sociedade global.
Como todo o povo latino, os romenos falam e riem alto. Também parecem discutir quando falam. São machistas. Aceitam qualquer emprego, não discutem salário. Qualquer um é melhor que o nada que tinham. Guardam consigo toda uma herança da violência estrutural a que foram e continuam sendo submetidos, mesmo sendo desde 2007 pertencentes à Comunidade Européia. Vale lembrar que os problemas estruturais que a Romênia passou eram tão grandes que o estado de Israel chegou a pagar ao antigo governo pela saída de famílias judias com crianças para que não fossem afetadas pela violência imposta e exposta naquela sociedade, em nome de um futuro melhor para estas crianças.
Por esta herança eles (homens e mulheres romenos) estão pagando muito caro, o preço é um dos mais altos que se tem notícia entre os povos pobres que vieram para a comunidade. Até os Senegaleses já encontraram, com seu charme de raça negra "pura", seus defensores e defensoras por sua agilidade para "correr do rapa" e por seus dotes sexuais, que encantam a um segmento de homens e mulheres europeus. Todos imigrantes podem fazer qualquer coisa, os romenos que nem mais imigrantes são, não!
Homens e mulheres romenas, especialmente os jovens, são lindos fisicamente. Algumas autoridades do mundo Fashion falam que as mulheres só não são mais belas que as brasileiras porque seus seios são, geneticamente, pequenos e que, ainda, não descobriram a indústria dos silicones. Em breve estarão nas passarelas, falta só um empurrão de um "olheiro".
Esta beleza está abalando as estruturas das tradicionais famílias européias e provocando uma mudança de sujeitos de desejo no mercado do sexo. Casamentos de nativos europeus e de imigrantes estão sendo "destruídos" pela ousadia dos jovens romenos que como profissionais do sexo, independente do gênero e da orientação sexual, já são em número muito alto. Sustentam com os Euros que ganham e levam à Romênia muitos velhinhos e criancinhas, que são pais, filhos e maridos e esposas que por lá ficaram.
Sua maneira de enfrentar o mundo, seus padrões de vida, sua sujeição à violência do seu país, fez, também, deste povo, usuários da violência verbal, física e psicológica como estratégia de enfrentamento de sua dura realidade. Óbvio é que ao vir para os outros países não deixaram em suas fronteiras estes traços e nem tiveram Glorinha Kalil no Fantástico para lhes mostrar como falar, como andar e como usar dos três mais importantes S (surgir, sorrir e sumir) para tornar-se celebridades na atualidade. Viram celebridades, quase sempre, pelas páginas policiais.
No início, levaram a responsabilidade. Em Milão, uma romena matou, com a ponta de um guarda chuva, uma italiana, numa briga dentro de um metrô. Foi execrada publicamente. Esqueceram-se, porém de contar que as duas eram prostitutas e que a briga foi disputa de ponto ou de cliente, sei lá! Um romeno estrupou e matou uma garotinha. Sem ironias e até mesmo sem qualquer defesa, porque para a violência não há justificativa, olhem as estatísticas, sejam isentos e questionem: só ele neste mundo? Quantos fizeram e fazem isto incluindo políticos, artistas e religiosos e nem foram notícia nacional quanto mais internacional?
O problema dos romenos é que eles são pobres, muito pobres e vieram para uma Comunidade Européia competir com uma classe média empobrecida que nunca aceitou a conversão que houve nos preços diferentes de seus salários quando da unificação da moeda e o volume de impostos que paga para manter-se como classe média. Hoje, na Europa é inviável ser sozinho. Cada vez menos os filhos saem das casas de seus pais e a constituição de uma família está sendo quase obrigatória para reduzir as taxas de quem fez a opção de morar sozinho. Amor? Secundário meu amigo, a questão está mesmo na redução das taxas.
Os jovens europeus com qualificados vão trabalhar uma vida e, provavelmente, não comprarão nenhum imóvel. Há a quase piada, se não fosse realidade, que um jovem, recém graduado, com um salário mínimo profissional, foi a um banco pegar um empréstimo para comprar um apartamento de um quarto, sala e garagem e só conseguiu comprar a garagem de um prédio e ali passou a residir. Por que? Quase não há mais contrato de trabalho com garantias previdenciárias, a grande maioria trabalha como autônomo e descontados as taxas, estes jovens, após trabalharem mais que 10 horas diárias, ficam com um salário mínimo mensal. Sendo que quem trabalha no mercado informal e tem "tino" comercial e/ou para negócios ganha muito mais que isto na chamada economia marginal.
Um aperitivo de final da tarde custa em torno de sete euros, um jantar num restaurante de padrão médio fica por volta de cinqüenta euros por pessoa. Salário mínimo é mínimo em qualquer lugar do mundo, muda pouco ou quase nada o poder de consumo da classe economicamente baixa imagine os jovens da classe média européia que estão sendo obrigados a sujeitarem-se a este salário! Já não chegava os outros imigrantes, agora, ainda, vêm os romenos para ameaçar?
Os romenos não têm as mesmas expectativas dos jovens de classe média em nem dinheiro para ir ao aperitivo, mas estão lá servindo, sem reclamar de nada. Como o emprego não é exclusivo ao romeno, outros imigrantes também estão trabalhando em bares, restaurantes e confeitarias, mas se grosseiros são com os clientes, imediatamente, são classificados como "só podiam ser romenos".
Também, os romenos não têm dinheiro para viajar de trem nem de avião. Poupam tudo para levar para casa. Viajam de ônibus, coisa muito rara na Europa, a não ser em época de greve geral, este meio passa a ser o mais viável por ser privado. Como o capital não investe no vazio, já ocupou este espaço: linhas de ônibus estão sendo criadas de vários países até a Romênia.
Os europeus costumam questionar a quem, não romeno, que viaja nestes ônibus: você está vigiando a carteira?
Tem um ônibus que sai de Montpellier/França. Leva-se três dias e três noites para chegar ao final da viagem que corta toda a Costa Azul francesa e italiana, passa por Torino e Milão e segue adiante até a Romênia. A Costa Azul é uma das mais belas e ricas regiões européias tem Nice, Cannes, Mônaco e Modane, em sua linha de frente, entre outras cidades encravadas entre mar e montanha. Nesta época do ano está toda em obras esperando o turismo do próximo verão. Of course, my Dear, se existe esta linha é porque lá estão eles, os romenos, trabalhando na rota do capital!
Para voltar para casa a passeio ou por uma longa temporada, os romenos têm "coragem" de entrar no ônibus com sacolas enormes contendo comida para os três dias. Alimentos que compraram nos supermercados dos extra comunitários. Sentem pouco frio, saltam em todas as paradas, tiram fotos, como qualquer turista. Riem muito, conversam com todos. Tentam, principalmente, as mulheres buscar, através do olhar pessoas confiáveis para conversar porque levam com eles todo o dinheiro que ganharam. Algumas mulheres, já compram duas poltronas para viajar com mais conforto, sinal de status que os europeus vão demorar muito para aceitar!
Para uma cidadã brasileira, estudiosa do fenômeno da violência urbana, impressionada com esta xenofobia européia aos romenos, em vigor nos dias atuais, resta perguntar: quem matou as romenas? E, a você se perguntar: com tantas coisas mais importantes acontecendo no Brasil e no mundo, inclusive o BBB 8, porque da pergunta e deste artigo?
Daí eu respondo: como o mundo vive a era do espetáculo, comprem seus ingressos senhores, o circo está sempre armado em algum lugar. E, alguém já escreveu, há muito tempo, que a história se repete, no início como farsa e a seguir como tragédia, portanto a tragédia não ficou no Império Romano, continua entre nós, os escalados para ser robôs!
Nota: Este texto foi originalmente escrito em três línguas (francês, inglês e Italiano) e agora em Português para sua divulgação, a pedido, nos paises de língua portuguesa.


*Professora universitária, pesquisadora e analista de Políticas e Programas Sociais

11 de janeiro de 2008

Princípio-Terra

Leonardo Boff*

Nunca se falou tanto da Terra como nos últimos tempos. Parece até que a Terra acaba de ser descoberta. Os seres humanos fizeram um sem número de descobertas, de povos indígenas embrenhados nas florestas remotas, de seres novos da natureza, de terras distantes e de continentes inteiros. Mas, a Terra nunca foi objeto de descoberta. Foi preciso que saíssemos dela e a víssemos a partir de fora, para então descobri-la como Terra e Casa Comum.
Isso ocorreu a partir dos anos 60 com as viagens espaciais. Os astronautas nos revelaram imagens nunca dantes vistas. Usaram expressões patéticas, como "a Terra parece uma árvore de Natal, dependurada no fundo escuro do universo", "ela é belíssima, resplandecente, azul-branca", "ela cabe na palma de minha mão e pode ser encoberta com meu polegar". Outros tiveram sentimentos de veneração e de gratidão e rezaram. Todos voltaram com renovado amor pela boa e velha Terra, nossa Mãe.
Esta imagem do globo terrestre visto do espaço exterior, divulgado diariamente pelas televisões do mundo inteiro, suscita em nós sentimento de sacralidade e está criando novo estado de consciência. Na perspectiva dos astronautas, a partir do cosmos, Terra e Humanidade formam uma única entidade. Nós não vivemos apenas sobre a Terra. Somos a própria Terra que sente, pensa, ama, sonha, venera e cuida.
Mas nos últimos tempos se anunciaram graves ameaças que pesam sobre a totalidade de nossa Terra. Os dados publicados a partir de 2 de fevereiro de 2007 culminando em 17 de novembro pelo organismo da ONU Painel Intergovernamental das Mudanças Climáticas, com os impasses recentes em Bali nos dão conta de que já entramos na fase do aquecimento global com mudanças abruptas e irreversíveis. Ele pode variar de 1,4 até 6 graus Celsius, dependendo das regiões terrestres. As mudanças climáticas possuem origem andrópica, quer dizer, tem no ser humano que inaugurou o processo industrialista selvagem, seu principal causador.
Se nada for feito, iremos ao encontro do pior e milhões de seres humanos poderão deixar de viver sobre o planeta.
Como destruímos irresponsavelmente, devemos agora regenerar urgentemente. A salvação da Terra não cai do céu. Será fruto da nova corresponsabilidade e do renovado cuidado de toda a família humana.
Dada esta situação nova, a Terra se tornou, de fato, o obscuro e grande objeto do cuidado e do amor humano. Ela não é o centro físico do universo como pensavam os antigos, mas ela se tornou, nos últimos tempos, o centro afetivo da humanidade. Só temos este planeta para nós. É daqui que contemplamos o inteiro universo. É aqui que trabalhamos, amamos, choramos, esperamos, sonhamos e veneramos. É a partir da Terra que fazemos a grande travessia rumo ao além.
Lentamente estamos descobrindo que o valor supremo é assegurar a persistência do planeta Terra e garantir as condições ecológicas e espirituais para que a espécie humana se realize e toda a comunidade de vida se perpetue.
Em razão desta nova consciência. falamos do princípio Terra. Ele funda uma nova radicalidade. Cada saber, cada instituição, cada religião e cada pessoa deve colocar-se esta pergunta: que faço eu para preservar a mátria comum e garantir que tenha futuro, já que ela há 4,3 bilhões de anos está sendo construida e merece continuar a exitir? Porque somos Terra não haverá para nós céu sem Terra.


*Teólogo e professor emérito de ética da UERJ

7 de janeiro de 2008

2008: O ano do Planeta!

Por Thiago Cássio d´Ávila AraújoPalestrante em temas de Direito Ambiental, escritor, mestrando em Direito e Políticas Públicas no Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), procurador Federal da Advocacia-Geral da União lotado na Consultoria Jurídica da EMBRATUR em Brasília/DF. thiago-davila@uol.com.br

"Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo", e que o Meio Ambiente possa literalmente gozar de vida nova "no ano que vai nascer".
The International Year of Planet Earth (2007-2009): Earth Sciences for Society, como se vê, na verdade é um projeto que comporta um triênio. Porém, pela Sessão Plenária de 22 de dezembro de 2005, a Organização das Nações Unidas (ONU) elegeu 2008 como "O Ano do Planeta", o que representa, mundialmente, um marco histórico importantíssimo para um direcionamento enérgico das ações humanas em favor da preservação ambiental, da conservação dos recursos naturais e da qualidade de vida.
Os cientistas fundadores do "International Year of Planet Earth" declararam ter procurado apoio da ONU, para estimular políticos e governantes dos 191 países congregados à ONU a usarem as "Ciências da Terra" como meio de desenvolvimento sustentável em seus países, além de induzi-los a reportarem à própria ONU os progressos realizados, e também para conferir credibilidade à iniciativa, facilitando a participação de doadores e patrocinadores para os objetivos a serem alcançados.
Aliás, para receber tais doações e patrocínios, foi criada uma pessoa jurídica sem fins lucrativos, conforme legislação do Delaware State, nos Estados Unidos da América. Espera-se por colaboração financeira vinda de indústrias privadas multinacionais, instituições intergovernamentais multinacionais, bancos de desenvolvimento, organizações científicas, governos locais, regionais e nacionais, organizações não-governamentais, fundos de caridade, solicitação direta de pequenas contribuições de indivíduos pela internet e demais doadores.
O "Ano Internacional do Planeta Terra" é um projeto científico grandioso e ambicioso. Congrega doze importantíssimas organizações fundadoras, que são: 1. "International Union of Geodesy and Geophysics" (IUGG); 2. "International Geographical Union" (IGU); 3. "International Union of Soil Sciences" (IUSS); 4. "International Lithosphere Programme" (ILP); 5. "Geological Survey of the Netherlands TNO" (TNO); 6. "The Geological Society of London" (GSL); 7. "International Soil Reference and Information Centre" (ISRIC); 8. A consortium of the "International Association of Engineering Geologists and the Environment" (IAEG), the "International Society of Rock Mechanics" (ISRM) and the "International Society of Soil Mechanics and Geotechnical Engineering" (ISSMGE); 9. "International Union for Quaternary Research" (INQUA); 10. "American Geological Institute" (AGI); 11. "American Association of Petroleum Geologists" (AAPG); 12. "American Institute of Professional Geologists" (AIPG).
Além desses sócios-fundadores, conta-se ainda com a presença de mais 25 instituições científicas associadas, sem falar que mais de 44 países, através de suas comunidades geocientíficas, manifestaram apoio ao projeto, por declarações escritas.
Dentre uma variada gama de objetivos, o "Ano Internacional do Planeta Terra" busca: reduzir riscos para a sociedade, através do conhecimento atual e de novas pesquisas; reduzir problemas de saúde da Humanidade, melhorando-se os aspectos médicos das ciências; descobrir novos recursos naturais e torná-los exploráveis em um modo sustentável; construir estruturas mais seguras; determinar o grau de participação humana nos fatores de mudança climática; melhorar a compreensão das condições do fundo do mar, relevantes para a evolução da vida; estimular nas sociedades os interesses pelas ciências; expandir o número de estudantes de ciências; aumentar os orçamentos para pesquisas; e promover exposição e aplicação das geociências.
O "Ano Internacional do Planeta Terra" objetiva ainda demonstrar as grandes realizações no campo das geociências e apressar a aplicação de tais conhecimentos, por políticos e formadores de opinião, em benefício da Humanidade. Evidentemente, as ações ambientais se dirigirão também aos eleitores, para que cada vez mais a questão ambiental passe a ser decisiva na escolha de governantes e parlamentares.
O sucesso do "Ano do Planeta" depende, evidentemente, dos países que compõem a Ordem Internacional. Cada país do globo terrestre deve participar. "National implementation of the Year of Planet Earth is essential for its success", como bem escreveu Eduardo F.J. de Mulder, Chair of the Management Team of the International Year of Planet Earth e ex-presidente da IUGS (International Union of Geological Sciences).
Evidentemente, Mulder se referiu aos Comitês Nacionais do próprio projeto "Year of Planet Earth". Penso que será fundamental que tais Comitês Nacionais recebam apoio, inclusive financeiro, no âmbito interno dos países, numa necessária união de propósitos e atuações, congregando Governo, iniciativa privada, terceiro setor e sociedade em geral. "Every country is encouraged to create such a committee", reza o "Prospectus and Business Plan - International Year of Planet Earth: Earth Sciences for Society", publicado em dezembro de 2006.
Vale lembrar que a ONU apontou a "United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization" (UNESCO) para estar à frente do projeto, juntamente com a IUGS, por óbvio.
No Brasil, o "Ano do Planeta" gerou uma importante iniciativa. Em campanha publicitária da NEOGAMA/BBH foi divulgada recentemente a criação do "Banco do Planeta" no âmbito do "Banco Bradesco S.A" para programas de responsabilidade sócio-ambiental. Outras instituições financeiras, públicas e privadas, certamente irão apresentar variadas iniciativas, igualmente relevantes, durante o ano de 2008, de maneira que, acredito, a injeção de capital privado em medidas ambientais cada vez mais crescerá. Aliás, o que me chama a atenção é o engajamento cada vez maior de empresas públicas, sociedades de economia mista, empresas privadas e pessoas jurídicas sem fins lucrativos, na questão ambiental. Por exemplo, no Brasil, as promoções do "Ano Internacional do Planeta Terra" (AIPT) recebem apoio da Petrobras e da Academia Brasileira de Ciências.
O Poder Público também não ficará de fora, por óbvio. O Congresso Nacional realizará uma sessão solene no mês de abril para tratar do assunto.
Está também previsto um seminário técnico-científico com representantes dos países da América Latina, a ocorrer entre os dias 21 e 25 de abril.
Além disso, vários eventos de natureza ambiental deverão ocorrer no Brasil e no mundo para promover o "Ano Internacional do Planeta Terra", assim como as "Ciências da Terra".
Enfim, o "Ano do Planeta" é na verdade uma forma criativa de arrecadar fundos para pesquisa científica, propagar idéias sustentáveis com embasamento científico e fazer despertar a consciência ambiental global.
Ao Meio Ambiente, Feliz 2008!
Referências
MULDER, Eduardo F. J.. Year of Planet Earth Wins UN Declaration. A letter from Eduardo F.J. de Mulder. Disponível em:
http://www.iugs.org/Year_of_Planet_Earth_Wins_UN_D/body_year_of_planet_earth_wins_un_d.html, Acesso em 27 dez 2007.
NOTÍCIA. Neogama/BBH cria para Bradesco divulgar o Banco do Planeta. Disponível em:
http://www.revistapublicidad.com. Acesso em 27 dez 2007.
PLANET EARTH. Earth Sciences for Society. Prospectus and Business Plan - International Year of Planet Earth. Publicado em dezembro de 2006. Disponível em:
http://www.yearofplanetearth.org/content/downloads/PlanetEarthBP.pdf. Acesso em 27 dez 2007.
RADIOBRÁS. CANUTO, Lourenço. Repórter da Agência Brasil. Petrobrás e Academia Brasileira de Ciências apóiam promoções do ano do planeta. Disponível em:
http://www.agenciabrasil.gov.br, Acesso em 27 dez 2007.

*Ambiente Brasil

2008: O ano do Planeta!

Por Thiago Cássio d´Ávila AraújoPalestrante em temas de Direito Ambiental, escritor, mestrando em Direito e Políticas Públicas no Centro Universitário de Brasília (UniCEUB), procurador Federal da Advocacia-Geral da União lotado na Consultoria Jurídica da EMBRATUR em Brasília/DF. thiago-davila@uol.com.br

"Adeus Ano Velho, Feliz Ano Novo", e que o Meio Ambiente possa literalmente gozar de vida nova "no ano que vai nascer".
The International Year of Planet Earth (2007-2009): Earth Sciences for Society, como se vê, na verdade é um projeto que comporta um triênio. Porém, pela Sessão Plenária de 22 de dezembro de 2005, a Organização das Nações Unidas (ONU) elegeu 2008 como "O Ano do Planeta", o que representa, mundialmente, um marco histórico importantíssimo para um direcionamento enérgico das ações humanas em favor da preservação ambiental, da conservação dos recursos naturais e da qualidade de vida.
Os cientistas fundadores do "International Year of Planet Earth" declararam ter procurado apoio da ONU, para estimular políticos e governantes dos 191 países congregados à ONU a usarem as "Ciências da Terra" como meio de desenvolvimento sustentável em seus países, além de induzi-los a reportarem à própria ONU os progressos realizados, e também para conferir credibilidade à iniciativa, facilitando a participação de doadores e patrocinadores para os objetivos a serem alcançados.
Aliás, para receber tais doações e patrocínios, foi criada uma pessoa jurídica sem fins lucrativos, conforme legislação do Delaware State, nos Estados Unidos da América. Espera-se por colaboração financeira vinda de indústrias privadas multinacionais, instituições intergovernamentais multinacionais, bancos de desenvolvimento, organizações científicas, governos locais, regionais e nacionais, organizações não-governamentais, fundos de caridade, solicitação direta de pequenas contribuições de indivíduos pela internet e demais doadores.
O "Ano Internacional do Planeta Terra" é um projeto científico grandioso e ambicioso. Congrega doze importantíssimas organizações fundadoras, que são: 1. "International Union of Geodesy and Geophysics" (IUGG); 2. "International Geographical Union" (IGU); 3. "International Union of Soil Sciences" (IUSS); 4. "International Lithosphere Programme" (ILP); 5. "Geological Survey of the Netherlands TNO" (TNO); 6. "The Geological Society of London" (GSL); 7. "International Soil Reference and Information Centre" (ISRIC); 8. A consortium of the "International Association of Engineering Geologists and the Environment" (IAEG), the "International Society of Rock Mechanics" (ISRM) and the "International Society of Soil Mechanics and Geotechnical Engineering" (ISSMGE); 9. "International Union for Quaternary Research" (INQUA); 10. "American Geological Institute" (AGI); 11. "American Association of Petroleum Geologists" (AAPG); 12. "American Institute of Professional Geologists" (AIPG).
Além desses sócios-fundadores, conta-se ainda com a presença de mais 25 instituições científicas associadas, sem falar que mais de 44 países, através de suas comunidades geocientíficas, manifestaram apoio ao projeto, por declarações escritas.
Dentre uma variada gama de objetivos, o "Ano Internacional do Planeta Terra" busca: reduzir riscos para a sociedade, através do conhecimento atual e de novas pesquisas; reduzir problemas de saúde da Humanidade, melhorando-se os aspectos médicos das ciências; descobrir novos recursos naturais e torná-los exploráveis em um modo sustentável; construir estruturas mais seguras; determinar o grau de participação humana nos fatores de mudança climática; melhorar a compreensão das condições do fundo do mar, relevantes para a evolução da vida; estimular nas sociedades os interesses pelas ciências; expandir o número de estudantes de ciências; aumentar os orçamentos para pesquisas; e promover exposição e aplicação das geociências.
O "Ano Internacional do Planeta Terra" objetiva ainda demonstrar as grandes realizações no campo das geociências e apressar a aplicação de tais conhecimentos, por políticos e formadores de opinião, em benefício da Humanidade. Evidentemente, as ações ambientais se dirigirão também aos eleitores, para que cada vez mais a questão ambiental passe a ser decisiva na escolha de governantes e parlamentares.
O sucesso do "Ano do Planeta" depende, evidentemente, dos países que compõem a Ordem Internacional. Cada país do globo terrestre deve participar. "National implementation of the Year of Planet Earth is essential for its success", como bem escreveu Eduardo F.J. de Mulder, Chair of the Management Team of the International Year of Planet Earth e ex-presidente da IUGS (International Union of Geological Sciences).
Evidentemente, Mulder se referiu aos Comitês Nacionais do próprio projeto "Year of Planet Earth". Penso que será fundamental que tais Comitês Nacionais recebam apoio, inclusive financeiro, no âmbito interno dos países, numa necessária união de propósitos e atuações, congregando Governo, iniciativa privada, terceiro setor e sociedade em geral. "Every country is encouraged to create such a committee", reza o "Prospectus and Business Plan - International Year of Planet Earth: Earth Sciences for Society", publicado em dezembro de 2006.
Vale lembrar que a ONU apontou a "United Nations Educational, Scientific and Cultural Organization" (UNESCO) para estar à frente do projeto, juntamente com a IUGS, por óbvio.
No Brasil, o "Ano do Planeta" gerou uma importante iniciativa. Em campanha publicitária da NEOGAMA/BBH foi divulgada recentemente a criação do "Banco do Planeta" no âmbito do "Banco Bradesco S.A" para programas de responsabilidade sócio-ambiental. Outras instituições financeiras, públicas e privadas, certamente irão apresentar variadas iniciativas, igualmente relevantes, durante o ano de 2008, de maneira que, acredito, a injeção de capital privado em medidas ambientais cada vez mais crescerá. Aliás, o que me chama a atenção é o engajamento cada vez maior de empresas públicas, sociedades de economia mista, empresas privadas e pessoas jurídicas sem fins lucrativos, na questão ambiental. Por exemplo, no Brasil, as promoções do "Ano Internacional do Planeta Terra" (AIPT) recebem apoio da Petrobras e da Academia Brasileira de Ciências.
O Poder Público também não ficará de fora, por óbvio. O Congresso Nacional realizará uma sessão solene no mês de abril para tratar do assunto.
Está também previsto um seminário técnico-científico com representantes dos países da América Latina, a ocorrer entre os dias 21 e 25 de abril.
Além disso, vários eventos de natureza ambiental deverão ocorrer no Brasil e no mundo para promover o "Ano Internacional do Planeta Terra", assim como as "Ciências da Terra".
Enfim, o "Ano do Planeta" é na verdade uma forma criativa de arrecadar fundos para pesquisa científica, propagar idéias sustentáveis com embasamento científico e fazer despertar a consciência ambiental global.
Ao Meio Ambiente, Feliz 2008!
Referências
MULDER, Eduardo F. J.. Year of Planet Earth Wins UN Declaration. A letter from Eduardo F.J. de Mulder. Disponível em:
http://www.iugs.org/Year_of_Planet_Earth_Wins_UN_D/body_year_of_planet_earth_wins_un_d.html, Acesso em 27 dez 2007.
NOTÍCIA. Neogama/BBH cria para Bradesco divulgar o Banco do Planeta. Disponível em:
http://www.revistapublicidad.com. Acesso em 27 dez 2007.
PLANET EARTH. Earth Sciences for Society. Prospectus and Business Plan - International Year of Planet Earth. Publicado em dezembro de 2006. Disponível em:
http://www.yearofplanetearth.org/content/downloads/PlanetEarthBP.pdf. Acesso em 27 dez 2007.
RADIOBRÁS. CANUTO, Lourenço. Repórter da Agência Brasil. Petrobrás e Academia Brasileira de Ciências apóiam promoções do ano do planeta. Disponível em:
http://www.agenciabrasil.gov.br, Acesso em 27 dez 2007.

*Ambiente Brasil

3 de janeiro de 2008

Neurociências a serviço do mercado

A investigação da atividade cerebral mostrou as áreas que devem ser estimuladas para tornar um produto altamente desejável. E, lançando mão do neuromarketing, uma centena de empresas já utilizam esses conhecimentos para vender sempre mais
Marie Bénilde

Reza a lenda que, em outubro de 1919, Lenin teria visitado o fisiologista Ivan Pavlov para ver como os trabalhos desse sobre os reflexos condicionados do cérebro podiam contribuir para a concepção do “novo homem” que os bolcheviques tentavam moldar na época. O cientista talvez servisse à propaganda do regime, associando, por meio de estímulos externos, pulsões instintivas a automatismos de transformação coletiva. Na verdade, Pavlov não foi de nenhuma valia para os bolcheviques, mas esse caso, verdadeiro ou falso, ilustra um fantasma que rondou o século 20: o da possessão de espíritos pela manipulação do inconsciente. Tal coisa permitiria vencer todas as resistências que podem acompanhar o uso da razão crítica. Desde então, uma propaganda é considerada eficaz quando percebe que sua assimilação será melhor se o receptor for psicologicamente condicionado a engoli-la — e a torná-la como sua.
As sociedades democráticas baniram de sua língua comum a palavra “propaganda”, que ficou associada apenas aos governos totalitários. No entanto, a exploração do cérebro com fins mercantis e a conseqüente manipulação das massas mostram que a sociedade de consumo não está longe disso. Ainda nos lembramos da famosa frase de Patrick Le Lay, presidente do canal francês TF1, que admitiu, em 2004, que sua rede tentava vender à Coca-Cola o “tempo de cérebro humano disponível”. O exemplo dessa marca — parceira privilegiada do TF1 — não se deve absolutamente ao acaso. No verão de 2003, Read Montague, neurologista do Baylor College of Medicine de Houston, mostrou que, se num blind test gustativo a concorrente Pepsi era a preferida, o inverso ocorria assim que se identificava claramente a bebida como sendo Coca-Cola. Os participantes da experiência declaravam então preferir o refrigerante das cores vermelha e branca.
Desse modo ficou demonstrada a superioridade da marca considerada como ás do branding, essa técnica que visa expor um logotipo no máximo de suportes, levando-o, até mesmo, a se imiscuir nos conteúdos (filmes, séries). Para estabelecer a conexão entre a imagem da marca e a estimulação do cérebro, a ciência recorreu a técnicas até então utilizadas com finalidades médicas para a detecção de tumores ou de acidentes cerebrais, como, por exemplo, imagens por ressonância magnética (IRM). Monitorando a atividade cerebral de seus pacientes, Montague observou que a região precisa do cérebro requisitada quando a pessoa via uma marca, o córtex pré-frontal médio, apelava para a memória e tinha um papel importante nos processos cognitivos. Por outro lado, o blind test gustativo envolvia a área cerebral denominada “putâmen ventral”, ligada à idéia de recompensa. A partir de abril de 2004, a Faculdade de Medicina de Baylor organizou em Houston o primeiro simpósio internacional consagrado às aplicações das imagens cerebrais ao marketing.
Três anos antes, em Atlanta, cidade onde fica a sede da Coca-Cola Company, o instituto Brighthouse, fundado pelo publicitário Joe Reyman, criava um grupo de especialistas encarregado de comercializar os ensinamentos de marketing extraídos das neurociências. O diretor científico do instituto, Clint Kilts, chegou às mesmas conclusões de seu colega de Houston, localizando no córtex pré-frontal médio a zona cerebral que reage às imagens publicitárias. Mas ele observou que essa reação é ainda mais significativa pelo fato de o sujeito se identificar com a imagem do produto, sendo tentado a dizer “isso é exatamente eu” [
1]. A famosa região-chave do neuromarketing é efetivamente associada à auto-imagem da pessoa e ao seu conhecimento íntimo de si mesma (assim, por exemplo, os pacientes que têm o córtex pré-frontal médio lesado depois de um acidente sofrem freqüentemente perturbações da personalidade). Como explica Annette Schäfer na revista Cerveau et Psycho, “eis aqui o motor do comércio. O córtex pré-frontal médio nos faz gostar do que os outros gostam. Assim, conseguir estimulá-lo poderia ser um objetivo importante de uma campanha publicitária perfeita” [2]. Por isso, o córtex pré-frontal médio é para os neuromarqueteiros a pedra filosofal de uma alquimia perfeita: a operação que consiste em transformar todo o amor por si mesmo enquanto si mesmo (o narcisismo) em amor por si mesmo enquanto outro (o objeto publicitário).
Segundo Olivier Oullier, pesquisador de neurociências da Florida Atlantic University, existe atualmente uma centena de empresas no mundo que utilizam as técnicas do neuromarketing [
3]. Contudo, elas são muito discretas com relação às experiências realizadas, temendo levantar uma onda de reprovação na opinião pública. Em 2003, por exemplo, uma dessas empresas, a Daimler Chrysler, confiou ao Centro Hospitalar de Ulm, na Alemanha, a tarefa de escanear cérebros submetendo imagens de carros sofisticados a uma dezena de homens.
Constatou-se então a importância do “núcleo accumbens”, região ligada à sensação de recompensa. A experiência mostrou que o objeto de consumo pode se assemelhar a um objeto de desejo por meio de um verdadeiro processo de personificação. “Quando olhavam os carros, estes lhes lembravam rostos; os faróis pareciam um pouco com os olhos”, expõe Henrik Walter, psiquiatra da Universidade de Ulm, a propósito dos indivíduos investigados [
4]. Os publicitários viram nisso a confirmação de um procedimento amplamente utilizado: é preciso reforçar nas peças publicitárias a correlação instintiva entre desejo sexual e pulsão de compra. “O consumidor deve poder sentir a marca, agarrar-se a ela como um amante”, afirma, sem sorrir, Kevin Roberts, diretor executivo da Saatchi & Saatchi [5].
Esses empreendimentos de validação científica da publicidade devem ser levados a sério? O fato é que, aos olhos dos profissionais, eles têm o mérito de aumentar a garantia da difusão de mensagens publicitárias na mídia, num momento em que a internet permite, clique após clique, seguir as pegadas do comportamento do consumidor. Assim, o neuromarketing nasce do encontro entre executivos de empresas preocupados em legitimar internamente suas despesas de comunicação, agências de publicidade desejosas de valorizar sua contribuição (a agência BBDO, de Dusseldorf, trabalha com o conceito de brainbranding, que tenta determinar como certas marcas entram na memória episódica do cérebro) e grandes mídias inquietas com o aumento do poder dos novos vetores de comunicação.
O sindicato francês da publicidade televisada, presidido por Claude Cohen, também presidente da TF1 Publicité, há algum tempo se interessa pelo que chama de “mecanismos de memória não conscientes”. Por meio do instituto privado Impact Mémoire, que se esforça por tirar partido das “técnicas de imagens funcionais cerebrais”, realizou um estudo com 120 pessoas sob o pretexto de testar a sua acuidade visual. Enquanto as cobaias tentavam detectar quadradinhos verdes em telas de computadores, difundiam-se intermitentemente publicidades num lugar bem visível. Paralelamente, a mesma experiência era realizada com spots de rádio e cartazes.
Como sugere a lógica, a mídia que associa som e imagem é a que obtém a melhor pontuação de memorização inconsciente das mensagens publicitárias. Um dos fundadores do Impact Mémoire, Bruno Poyet, resumiu o propósito do teste. Segundo ele, “a atenção é necessária a uma boa retenção mnésica. Uma conotação emocional forte acentua a atenção. Uma grande carga emocional gera a secreção de certas substâncias pela amígdala e essas substâncias favorecem a memorização” [
6].
É esse contexto “emocional”, propício à publicidade destinada a donas de casa de menos de cinqüenta anos, que a TF1 procura criar em seus programas. Em novembro de 2003, o canal publicou na imprensa especializada um anúncio com uma frase eloqüente: “Uma publicidade inserida no meio de um programa do TF1 obtém 23% de memorização suplementar”. O neurologista Bernard Croisile, outro fundador da Impact Mémoire, lembra que se “nenhum estudo existente permite provar que o conteúdo de uma emissão condiciona a resposta às publicidades que virão a seguir […] o que se pode dizer é que, quando estamos numa situação emocionalmente positiva, retemos melhor os elementos positivos, do mesmo modo como os depressivos assimilam melhor as informações negativas [
7]. Trata-se, portanto, de oferecer ao telespectador a sua dose de emoção prazerosa.
Assim, a implicação das neurociências — ou de seus avatares — nas indústrias da publicidade tem um futuro auspicioso diante de si. Em março de 2007, a Omnicom, líder mundial da publicidade, lançou na França a agência de consultoria em mídia PHD. Essa rede, surgida na Grã-Bretanha, apóia-se num aplicativo de neuroplanning criado a partir de estudos realizados por meio de ressonância magnética. A PHD pretende mostrar às empresas as zonas do cérebro que devem ser estimuladas de acordo com os objetivos de suas campanhas e das mídias utilizadas.
O conhecimento íntimo do cérebro do consumidor não pode ter outro resultado senão incitar as empresas, e os responsáveis por sua publicidade, a transcender os limites que normalmente lhes são reservados para comunicar. Na verdade, a excelência das condições de receptividade de uma marca é julgada tanto maior quanto menos o “alvo” tem consciência de ser visado. É isso que explica o avanço do advertising”, esse cruzamento híbrido da publicidade com o entretenimento, do qual se tem um exemplo recente no jogo da França com a Argentina, realizado no Stade de France durante a Copa do Mundo de Rugby. Jovens modelos vestidas com roupas íntimas dançaram nos degraus, seguidas atentamente pelas câmeras do TF1, numa “criação” da agência de publicidade Fred-Farid Lambert para a marca Dim.
O merchandising, a inserção de produtos nos conteúdos de filmes, séries de tevê etc., também ganha terreno, como testemunha o surgimento de contratos globais ligando produtores, difusores e anunciantes. Em 2001, o conglomerado da Procter & Gamble fechou um contrato de 500 milhões de dólares com o grupo Viacom e a cadeia CBS para introduzir seus produtos nos cenários. Quatro anos depois, foi a vez de a Volkswagen investir 200 milhões de dólares para pôr seus veículos nos filmes dos Estúdios Universal e de sua cadeia, a NBC. Em 2005, a filial francesa da central de compras de espaço Aegis criou também a Carat Sponsorship Entertainment para introduzir a publicidade no conteúdo dos programas e torná-la mais bem aceita pelo consumidor. Ela foi imitada em 2007 pela filial Havas Entertainment.
Se ainda se supõe que o Conselho Superior do Audiovisual da França cuida de proibir qualquer publicidade clandestina na televisão, a transposição para a lei francesa da diretriz européia Televisões sem Fronteira, anunciada para 2008, promete autorizar definitivamente a inserção de produtos nos programas, como escancaradamente acontece nos Estados Unidos. O limite diário de doze minutos de publicidade para cada hora deverá assim ser abrandado de modo a permitir a difusão de mais publicidade durante o horário nobre. Paralelamente, prosperam emissões como Question Maison (França 5) ou Du Côté de Chez Vou (TF1), que devem sua existência exclusivamente à entrada da marca Leroy Merlin na produção de conteúdos. É claro que o inconsciente do telespectador não foi reivindicado abertamente. Mas, por trás do telespectador, ainda e sempre, é o consumidor que se busca.


[1] Ver “There is a sucker born in every medial prefrontal cortex”, The New York Times Magazine, 26 de outubro de 2003.
[
2] “Vous avez dit neuromarketing?”, Cerveau et Psycho n.º 7, setembro-novembro de 2004.
[
3] Ver “Neuromarketing: les bases d’une discipline nouvelle”, em 20 de fevereiro de 2007.
[
4] Ver “There is a sucker born in every medial prefrontal cortex”, The New York Times Magazine, 26 de outubro de 2003.
[
5] Stratégies, Issy-les-Moulineaux, 11 de novembro de 2004.
[
6] Ver o site da associação das agências de consultoria de comunicação.

2 de janeiro de 2008

Aforismos

Leonardo Boff*

Não parece descabido, no início do ano, oferecer alguns aforismos, fruto de reflexão e da sabedoria cotidiana presente no ambiente cultural. Elencaremos uns quantos, compreensíveis por si mesmos.
Mais importante que saber é nunca perder a capacidade de aprender.
Se tudo no universo está em gênese, então o paraíso ansiado não está no começo mas no fim.
Somos inteiros, mas não prontos. Começamos a nascer e vamos nascendo lentamente até acabar de nascer. É quando então morremos.
Só pode morrer o que é. O possível que ainda não é, permanece para se realizar no além morte.
Não vivemos para morrer. Morremos para ressuscitar.
Se você se sente gente comum, console-se. Deus deve ter amado muito a gente comum para criar um número tão grande, entre eles, eu e você.
Não vá por caminhos já andados. Caso contrário nunca deixará marcas suas no chão.
Se quiser ir longe, vá devagar. Nunca pare nem ande para trás.
Agradeça a Deus por ter tropeçado. Assim evitou uma queda.
Onde não há nenhum medo, não haverá também nenhuma coragem, necessária para viver.
Se quiser esquecer as muitas pedras que impedem o seu caminho, pense nos fundamentos da casa que pode construir com elas.
Na luta entre a pedra e a gota, ganhará sempre a gota não por sua força, mas por sua persistência.
Se mantiver firme a perspectiva do fim, não haverá obstáculo que lhe seja insuperável.
O novo somente surge à condição de que algo tenha sido deixado para trás.
Para quem busca, haverá sempre uma Estrela como a de Belém para iluminar o seu caminho.
Um navio está seguro no porto, mas não é para isso que foi construído.
De uma única vela podem se acender milhares de outras sem que sua luz diminua.
Se quiser subir uma longa escada não olhe para ela, apenas para cada degrau.
Para aqueles que querem cantar, haverá sempre uma melodia à disposição no ar.
Só entenderá bem o outro quem se colocar no lugar dele.
Até o relógio parado, duas vezes ao dia está certo.
Seja como a cigarra que para se renovar tem que perder toda sua aparência exterior.
Só se alegrarão com o nascer do sol aqueles que souberam esperar dentro da noite escura.
Ninguém entrará no céu se primeiro não começou a construí-lo aqui na terra.
Todo menino quer ser homem. Todo homem quer ser rei. Todo rei quer ser Deus. Só Deus quis ser menino.
Porque os cristãos anunciaram um Deus sem o mundo, surgiu em conseqüência um mundo sem Deus.
Humano assim como Jesus, só Deus mesmo.
No começo de tudo não está a solidão do Uno, mas a comunhão dos Três: da Origem sem origem, da suprema Palavra e da sagrada União de tudo com tudo. Eles estão tão entrelaçados no amor que se uni-ficam, quer dizer, fica Um.


*Teólogo e professor emérito de ética da UERJ