28 de dezembro de 2007

Jesus Nasceu!

Jesus nasceu!
Nosso coração se enche de alegria!
Chegou o Menino Deus!
Chegou a salvação!Jesus nasceu!Nos foi dado um filho, um menino!
Para acolher os fracos, para acolher os pequeninos.Jesus Nasceu!Nasceu frágil e inseguro!
Para nos dar forças e segurança no caminho.
Jesus nasceu!
Nasceu pobre e faminto!
Para enriquecer a muitos e saciar de pão os excluídos.
Jesus nasceu!Nasceu numa gruta fria,entre animais que lhe deram aconchego e calor.
Jesus nasceu!Nasceu entre Maria e José!
Veio colocar em prova nossa fé e encher nosso ser de esperanças.
Jesus nasceu!

Nasceu proclamando a Boa Novada paz e da solidariedade para todos de boa vontade.
Jesus nasceu!
Veio trazer a verdadeira vida!
Para que renascidos com Ele, possamos desejar a todos: Feliz Natal!

23 de dezembro de 2007

Quatro histórias de Natal

Frei Betto*

I
Em Belém, Caleb atende à porta. Ao ver quem bate, fecha-a de imediato, enquanto o visitante insiste aos murros, como se quisesse derrubar a parede.
A mulher, Cozbi, indaga quem é. "Meu irmão". "O José?", pergunta ela. "Sim, teve o descaramento de engravidar uma jovem de Nazaré sem nem terem se casado, como manda a nossa lei. Agora vem com a buxuda pedir abrigo em nossa casa. Como hei de acolher quem viola os preceitos ditados por Javé a Moisés? Eles que procurem outra freguesia".


II
Eleazar realizou, enfim, seu velho sonho: um pequeno sítio nas proximidades de Belém. No pasto, misturou vacas, cabras e cordeiros. Montou um cocho de madeira e armou, em torno, um toldo de bambu coberto com folhas de palmeira.
De madrugada, Efraim, pastor contratado pelo dono da terra, bate forte pelo lado de fora da janela. O patrão, sonolento, parece receber como pesadelo a notícia: "Invadiram suas terras, meu senhor. Tem um casal acampado lá na estrebaria. Escutei um choro miúdo. Parece que a mulher deu à luz um menino."
"Avise a guarda. Ao despontar do sol cuidaremos de tirá-los de lá", resmunga Eleazar interessado em retomar o sono.
Dia seguinte, o Diário de Belém dá em manchete: "Família sem-teto e sem-terra invade propriedade rural na periferia da cidade". No corpo da notícia: "Moça de Nazaré, engravidada por carpinteiro, teve parto em pleno pasto. A criança é do sexo masculino".


III
Guiadas pela estrela de Davi, as três rainhas magas, Ada, Míriam e Sela, chegam à manjedoura. Após louvarem a Javé, aquecem um caldo de galinha para Maria, alimentam José com pães ázimos recheados com grão-de-bico, lavam as fraldas do bebê, varrem o estábulo. Ao buscar água na fonte, comentam entre si: "O menino em nada se parece com o pai..."


IV
A notícia do nascimento do menino não tarda a chegar ao palácio de Herodes, em Jerusalém. Ele fica alarmado; afinal, é o rei dos judeus, malgrado o sangue árabe que corre em suas veias. Sabe, porém, que tem os dias contados, carcomido pelo cancro. A proximidade da morte o aterroriza tanto quanto os agouros que lhe ameaçam o trono.
Pede a Corinto, comandante da guarda, convocar reunião em palácio dos chefes dos sacerdotes e dos doutores da lei, os escribas.
O convite trazido por Corinto deixa Anás excitado. No íntimo, considera-se o verdadeiro rei da Palestina. Comparece em companhia de duas dezenas de membros do sinédrio - o conselho supremo do poder judaico, integrado por 71 notáveis, e do qual ele, na condição de sumo sacerdote, é o presidente.
Herodes é introduzido no salão a bordo de uma liteira de marfim sustentada por quatro escravos. Anás mal consegue controlar sua curiosidade por conhecer o motivo de tão inesperada convocação. O rei quer saber dos sinedritas onde e quando deve nascer o Messias que tanto aguardam. Gamaliel cofia sua barba em leque e diz: "Nascerá em Belém, na Judéia, pois está dito pelo profeta Miquéias - E tu, Belém, de modo algum és a menor entre as cidades de Judá, pois de ti sairá para mim aquele que deve guiar Israel. Quando isso ocorrerá - escusa-se o doutor da lei -, não está ao alcance do nosso saber."
Herodes não admite que a sua soberania seja desafiada por rumores em torno de um menino-messias. Ordena que a guarda de operações especiais, comandada pelo espadaúdo Tirano, dirija-se a Belém e passe ao fio da espada todas as crianças do sexo masculino com menos de dois anos de idade.
Ao amanhecer, as tropas herodianas ocupam Belém. Os batedores vão de casa em casa. Ordenam que todos os meninos de colo, e aqueles que ainda não caminham com firmeza, sejam trazidos à rua por suas mães. As outras mulheres devem permanecer trancadas em casa, com portas e janelas fechadas, em companhia de homens e crianças.
Toda a gente de Belém pressente que, desta vez, Azrael, o anjo exterminador, voltou-se contra ela. As mães ficam separadas dos filhos que, nus, são deitados lado a lado ao longo das ruas. Os bebês choram um choro de abandono, insistente, como se um presságio os movesse a sugar com avidez o ar que, em breve, já não poderão respirar. De rostos virados para as paredes das casas e dos muros, e vigiadas por soldados, as mães riscam as pedras com as unhas e lavam o musgo com as lágrimas.
Após observar cada criança à procura de algum traço messiânico, Tirano dá o sinal para a degola. O carrasco agacha-se, puxa a cabeça da vítima para esticar o pescoço, ergue o cutelo e, num golpe, separa o crânio do corpo. Algumas mães, desesperadas, ousam voltar-se na direção dos filhos; são silenciadas pela lâmina do punhal que lhes traspassa o coração. Tirano passa ao fio de sua própria espada as mulheres que furam o cerco das sentinelas e se abraçam aos filhos como se quisessem fazê-los retornar ao útero.
Desde essa trágica manhã em Belém, os poderosos cruéis tornaram-se conhecidos como tiranos.


*[Autor da biografia de Jesus "Entre todos os homens" (Ática), entre outros livros].


21 de dezembro de 2007

Para que este Natal seja novo e feliz

Marcelo Barros*

É bom se entender sobre o que desejamos uns aos outros, quando expressamos nossos votos de Feliz Natal. As comunidades cristãs fazem memória do nascimento de Jesus para celebrar como acontecimento atual a presença divina no mundo. Neste contexto, o Natal é uma celebração que não apenas repete um aniversário e sim atualiza um mistério: na pessoa de Jesus de Nazaré, Deus assume, hoje, a humanidade e a diviniza. Para tantas outras pessoas que se dizem Feliz Natal sem referência explícita ao nascimento de Jesus e sem celebração religiosa, o desejo é que a alegria e a paz proclamada pelos céus se atualizem gratuitamente para todo universo.
Neste mundo em que convivem pessoas de tantas culturas diferentes e no qual o elemento religioso ainda é motivo de conflito e provoca guerras, a graça do Natal é valorizar o caminho que tantos grupos e organizações civis fazem para tornar este mundo um grande presépio, no qual a fragilidade do ser humano seja revestida pela força do amor divino. Esta revelação de que todos os seres humanos, cada qual em seu caminho próprio e do seu modo, têm esta vocação de conceber no intimo do seu ser a divindade dá um caráter sagrado a todas as culturas, chamadas a dialogar, às religiões que, em sua diversidade, podem se complementar e mesmo à vida cotidiana que pode perder a cor da monotonia pelo anúncio de que algo de novo está nascendo. A própria troca de presentes e de votos de feliz Natal revela uma sociedade, na qual os gestos de delicadeza e relação humana ainda encontram sentido.
Em países como Costa de Marfim, muçulmanos celebram o Natal com os cristãos, assim como, no final do Ramadam, os cristãos vão à mesquita para participar da festa com os irmãos do Islã. A sociedade multi-cultural não se constrói pela abolição das particularidades próprias de cada cultura e sim pela possibilidade destas valorizarem umas às outras e conviverem em paz.
Em cada Natal, cristãos e não cristãos podem ver em Maria grávida de Jesus, a figura de toda mulher que, em nossos dias, se abre com confiança ao mistério da vida e, mesmo em situações difíceis e contraditórias, percebe no silêncio e na escuta da história o sopro do Espírito. A parábola de José que recebe em sonhos o aviso de Deus sobre sua vocação de guardião do filho de Deus nos confirma: todos nós podemos interpretar o futuro a partir dos pequenos sinais de que a história pode mudar e dar espaço a uma vida nova.
Neste Natal, seja você quem for, o melhor presente que pode se dar a si mesmo e aos outros é colocar-se na pele dos pobres pastores de Belém que receberam a visita dos anjos anunciadores da paz e da salvação. Em meio às violências cotidianas do mundo, podemos pastorear a vida e construir a paz. Para isso, às vezes, precisamos estar dispostos a caminhar, mesmo quando a viagem é longa e cansativa até o presépio onde nos espera o mistério.
O conto simbólico dos astrólogos que a devoção popular chama de reis magos nos revela a missão dos intelectuais que assumem a condição humilde de quem procura, aprendem a interpretar o que, hoje, a natureza nos diz e se deixam guiar, enamorados, pela estrela guia.
Alguns grupos espiritualistas valorizam muito a figura dos anjos, novamente, em moda. O termo grego anjo significa mensageiro. Até Jesus Cristo, como enviado do Pai, recebe este nome. Nós todos somos anjos uns para os outros, quando cuidamos das feridas uns dos outros, como fez o anjo Rafael com Tobias e acolher em nossos joelhos tantos Cristos pregados nas cruzes que, a cada dia, o mundo inventa e recria. Natal é boa ocasião para agradecer a cada pessoa ao nosso lado que, durante todo este ano, foi um verdadeiro anjo da guarda e nos defendeu das mesquinharias do dia a dia.
Finalmente, na história que o evangelho conta do Natal, o que sempre me surpreende não é apenas o esplendor e a beleza do que foi anunciado. Crer que, no meio da noite escura, o céu pode se encher de luz e a tristeza dos pastores cansados pode dar lugar à alegria de participar do cântico dos anjos é sempre um desafio. Mas, o mais difícil mesmo é reconhecer na figura marginal da criança que jaz no presépio a luz do amor divino. Tudo o que os pastores encontram é uma família paupérrima de migrantes sem teto que acalentam seu filho recém-nascido em uma estrebaria.
No Mosteiro de Goiás, em cada celebração da noite do Natal, quando os jovens fazem um presépio vivo, eu me comovo ao ver a criança recém-nascida que eles trazem para fazer o papel do menino Jesus no presépio. Aquela criança pobre não é apenas um ator. É o sinal vivo da presença permanente de Deus nos mais frágeis e pequeninos. Mas, afinal, aquela criança que, no meio da noite, dorme tranqüila no presépio e nem sabe que é o centro de uma celebração de Natal, não é um pouco a imagem de todos nós, no presépio do mundo?
Neste Natal, o Espírito de amor salva a criança que dorme no mais íntimo de cada um/uma de nós e nos chama a peregrinar até este presépio secreto de nossa vida, no qual podemos, novamente, refazer as brincadeiras de criança, recitar poesias e nos maravilhar com as histórias de amor das quais nós mesmos somos protagonistas.
Os desafios do cotidiano continuam duros. É preciso crer nos que cantam a paz e não nos que querem destruir o que de novidade índios, lavradores e seus aliados estão realizando na Bolívia, Venezuela, Equador e em todo o nosso continente. Quem escuta mais profundamente a palavra do Natal adere ao apelo profético de Dom Luiz Cáppio para salvar o rio São Francisco e espera que, em meio às políticas neo-liberais que transformam o Brasil em um imenso canavial, para produzir Etanol, os pobres de hoje continuem escutando o cântico do céu e o grito da terra e se mobilizem para que, em meio à noite, uma vida nova possa surgir.
A vocês todos, feliz Natal.


*Monge beneditino, teólogo e escritor. Tem 30 livros publicados.

18 de dezembro de 2007

Sim a Dom Luiz Cappio, Não à Transposição do Rio S. Francisco

Marcos Arruda*

Pres. Lula da SilvaPor favor, Presidente. Dom Cappio não está só. O gesto amoroso que ele faz com a greve de fome - amor ao povo brasileiro e amor à Natureza e ao Velho Chico - não é um gesto isolado, mas sim povoado de presenças de milhões pelo Brasil afora e também pelo mundo! Uma pequena mostra será o Jejum Solidária que muitxs estaremos fazendo no Brasil e no exterior, em apoio à causa e como clamor pela vida do Velho Chico e de Dom Cappio! O gesto de Dom Cappio, e o nosso, é um gesto moral, pois simboliza com eloqüência a FOME a que está sendo levado o Rio S. Francisco e sua imensa Bacia. Mas é igualmente um gesto político, pois questiona uma opção que não tem NADA de técnica. Técnica, e solidamente científica, seria a opção pela revitalização, pois através dela estariam sendo beneficiados 34 milhões de pessoas da Bacia do Velho Chico. Sendo eficiente e ecologicamente sustentável, é tecnicamente e cientificamente a mais sábia e correta. É também um gesto de repúdio contra a militarização das obras de transposição, que atentam contra o direito sagrado do povo de indignar-se e protestar, e de expressar por diversas formas, pacíficas, seu repúdio ao projeto e sua determinação de defender seu meio de vida e a integridade do seu ecossistema. A opção pela transposição é tecnicamente equivocada. Ela NÃO vai resolver o problema da seca, nem as carências de água e de alimentos da população do Semi-Árido. Ela toma o Semi-Árido como o inimigo, quando os inimigos são outros: latifúndio, agronegócio, busca de lucro fácil e imediato através da exportação, ausência de qualquer real preocupação com uma solução estrutural e sustentável para a fome, a pobreza, a miséria, a falta de acesso à terra, aos meios de torná-la fértil, a uma assistência técnica eficaz, ao fim das violações dos direitos dos povos indígenas, à educação, à saúde, enfim, aos direitos de cidadania que garantam uma vida humana e digna. Presidente, enquanto o Brasil 'economiza' R$ 106 bilhões até outubro para pagar juros aos banqueiros, já excessivamente ricos, o Nordeste de onde você veio continua sofrendo de doenças e mortes evitáveis. Seu gesto corajoso de retirar os 41 blocos do campo de Tupi do 9o. leilão precisa ser repetido, cancelando o projeto faraônico, elitista e irresponsável de transposição. E optando pela revitalização, pelo milhão de cisternas, pelas 140 técnicas alternativas e ecologicamente sustentáveis, pelas 530 obras previstas no projeto da Agência Nacional das Águas. Pela REVITALIZAÇÃO DE TODA A BACIA DO RIO SÃO FRANCISCOPor um Projeto de Convivência com o Semi-áridoPelo ARQUIVAMENTO DO INSANO E FARAÔNICO PROJETO DE TRANSPOSIÇÃO DO VELHO CHICO!Pelo respeito à sua própria palavra, Presidente, dada há dois anos ao Bispo Dom Cappio, de que a transposição não seria levada adiante sem uma ampla discussão democrática com a população! Prof. Marcos ArrudaPACS - Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul


*Socioeconomista e educador do PACS - Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul, Rio de Janeiro, e sócio do Instituto Transnacional

Natal de Dom Cappio

Frei Betto*

Lá está o bispo, dom Luiz Flávio Cappio, no sertão da Bahia, decidido em sua greve de fome contra a transposição do Rio São Francisco.
O rio, que corta o coração do Brasil, leva o nome do santo padroeiro da ecologia, devido ao seu amor à natureza, com a qual mantinha relação de alteridade e empatia: Irmão Sol, Irmã Lua.
O que poucos notam é que o mentor de dom Cappio era, no século XIII, um crítico radical dos primórdios do capitalismo. O feudalismo ruía por sua inércia e os burgos, as futuras cidades, despontavam sob as luzes da redescoberta de Aristóteles e os novos empreendimentos mercantis.
Bernardone, pai de Francisco, rico proprietário de manufatura de tecidos, importava da França as tinturas para colorir seu produto. Sua admiração pela metrópole levou-o a batizar o filho em homenagem à França - Francesco.
A miséria, até então, campeava na Europa em decorrência de guerras e da peste. O mercantilismo gerou, pela primeira vez, relações de trabalho promotoras de exclusão social. Francisco solidarizou-se com as vítimas da nascente manufatura. Ao despir-se na praça de Assis, todos entenderam o gesto para além de simples ato de despojamento. As roupas produzidas pelo pai estavam conspurcadas pela tecnologia que condenava artesãos à perda de seu ofício e, portanto, à miséria.
Hoje, o franciscano dom Cappio se posiciona ao lado das vítimas da transposição das águas do São Francisco. O PT, historicamente, era contrário ao projeto. E também contra a CPMF. Uma vez governo, mudou, como, aliás, mudou em tantas outras coisas. Mudou para não efetivar as mudanças prometidas, como a agrária. Mudou para se desfigurar como partido dos pobres e da ética. Mudou para ficar mais parecido com seus adversários políticos.
Em Sobradinho (BA), na capela consagrada ao santo que dá nome ao rio, o bispo faz seu gesto solitário, embora alvo, no Brasil e no exterior, de muitos apoios solidários. Sua primeira greve de fome, por 11 dias, foi em 2005. Dom Cappio recusou alimentos até que o governo prometesse rediscutir o projeto e promover a revitalização do rio. Segundo o bispo, o Planalto não honrou o compromisso.
A obra de transposição está orçada em R$ 5 bilhões. Cornucópia na qual estão de olho as grandes empreiteiras e o agronegócio. Dom Cappio desconfia de que a transposição beneficiará, não os pobres da região, que vivem da pesca e do cultivo familiar, e sim o grande capital.
Quem já viu governo fazer obra de vulto para beneficiar pobre? Nem sequer o governo Lula investiu suficientemente no programa de construção de 1 milhão de cisternas de captação de água da chuva, que poria fim às agruras da seca no semi-árido. Apenas 25% das cisternas foram construídas, assim mesmo graças ao apoio da iniciativa privada. Cidades sem suficiente saneamento são beneficiadas por viadutos para o conforto de quem transita em carros...
Quem terá acesso à água transposta? A seca ou a cerca? Não faz sentido esse projeto numa região em que ainda predomina o latifúndio e cuja população, cerca de 12 milhões pessoas, não tem acesso à propriedade da terra. No projeto não são incluídas as 34 comunidades indígenas e os 153 quilombolas encontrados em sua área de alcance.
O próprio organismo que responde pelas bacias hidrográficas, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, está contra o projeto, que ignora as estruturas sociais arcaicas da região - o que significa, na prática, fortalecê-las.
O que dom Cappio reivindica é simples e democrático: que o governo debata o projeto com a sociedade, sobretudo com os ribeirinhos do São Francisco. A obra terá profundo impacto em toda a extensão territorial do país e, sobretudo, reflexos ambientais e sociais.
Dom Cappio tem fome de justiça, uma bem-aventurança, segundo Jesus no Sermão da Montanha. Seu Natal é o da manjedoura, lá onde a família de Maria e José, sem-teto e sem-terra, faz nascer a esperança de que a população da bacia do São Francisco não venha, em futuro próximo, ser conhecida também como sem-rio.

[Autor de "A arte de semear estrelas" (Rocco), entre outros livros].

*Frei dominicano.

14 de dezembro de 2007

Transcendência-Imanência-Transparência

Leonardo Boff*

Não há tradição cultural que não se refira a um Princípio criador ou a uma Energia originária ou simplesmente a Deus. A grande questão é como expressar essa Realidade. Aqui, mais que os teólogos que falam sobre Deus, contam os que falam com Deus, como os místicos e os profetas, cujo testemunho não pode ser negado. Na história do pensamento se delineiam três maneiras de falar com referência a Deus.
A primeira fala de transcendência. Deus é tão outro que tudo o que dizemos dele é mais mentira que verdade. O melhor é calar ou apenas sorrir amavelmente como Buda.
A segunda fala de imanência. Deus é experimentado de forma tão intensa que ele se anuncia em cada coisa. Assim vem enraizado dentro do mundo. E é chamado por mil nomes.
A terceira fala de transparência. Busca um caminho intermédio. Deus não pode ser tão transcendente, pois se assim fosse, como saberíamos dele? Ele deve ter alguma relação com o mundo. Anunciar um Deus sem o mundo faz, fatalmente, nascer um mundo sem Deus. Também não pode ser tão misturado com as coisas que acaba sendo uma parte deste mundo. Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe. Ele é o suporte do mundo não porção dele.
É aqui que tem sentido a transparência. Ela afirma que a transcendência se dá dentro da imanência sem perder-se nela, caso contrário não seria realmente transcendência. E a imanência carrega dentro de si a transcendência porque comparece sempre como uma realidade aberta a intermináveis referências. Quando isso ocorre a realidade deixa de ser transcendente ou imanente. Ela se faz transparente. Encerra dentro de si a imanência e a transcendência. Tomemos o exemplo da água. A água é água, jorrando da fonte (imanente). Mas é mais que água. Simboliza também a vida e o frescor (transcendente). Ao transformar-se em símbolo de vida e frescor, a água se torna transparente para estas realidades. E o faz por ela mesma e nela mesma.
Essa talvez seja a forma mais sensata de falar sobre Deus e a partir de Deus. Na forma do paradoxo. Por um lado devemos afirmar que todas as nossas palavras são inócuas. De Deus não podemos fazer nenhuma imagem. Por outro lado, não podemos dizer que Deus é o totalmente indeterminado, qualquer coisa vaga, um fundo sem fundo. A realidade de Deus (não sua imagem) é um concreto concretíssimo, o ser em plenitude, portanto uma realidade concreta, mas sempre para além de qualquer concreção. É representado pela água mas ele não é água. Identificar água e Deus é cair na idolatria.
Nesse paradoxo a transparência ganha relevância. Ela faz que o inatingível (transcendência) se torne atingível através e dentro de algo concreto (imanência), mas transfigurado-o em símbolo (transparência). É o que o cristianismo afirma de Jesus. Ele é um camponês/artesão mediterrâneo (imanente), mas que viveu de tal modo (transparente) que nos permitiu entrever Deus (transcendente). "Quem vê a mim, vê o Pai". Como? Na forma como se dirigia a Deus, chamando-o de Paizinho querido (Abba), o que supõe que se sentia seu filho. Depois, agindo de um jeito que sua existência era uma pró-existência, vida para os outros, especialmente, os últimos e desprezados. O que disse e fez, foi para nos induzir a ter a mesma atitude que ele teve. Assim descobriremos que somos também filhos e filhas, em comunhão com ele.
Ele se fez transparente para Deus, não rebaixando os que vieram antes dele, mas radicalizando seu dinamismo, tornando-se um ponto referencial. Deus, então, está no mundo, mas para além dele.

*Teólogo e professor emérito de ética da UERJ

13 de dezembro de 2007

Atualizar as razões de esperar

Marcelo Barros*

Nos Estados Unidos e nos países que têm a mesma referência cultural, o dia nacional de ação de graças, celebrado, a cada ano, na última quinta-feira de novembro, tem o sabor de final de ano e revisão de uma etapa percorrida. É uma festa, fruto do capitalismo, que considera a acumulação de bens como graça divina. As Igrejas cristãs, embora sejam sempre tentadas pela mesma heresia, sabem que a organização atual do mundo não vem de Deus e a desigualdade social e econômica vigentes o ofendem. O Evangelho é a boa notícia de que este mundo pode mudar e o projeto de paz e justiça, inspirado por Deus, pode se realizar, como elemento transformador da vida e de toda esperança humana.
Sem dúvida, é ingenuidade pensar que, por si mesmo, com o tempo, as coisas melhoram e, seja como for, o amanhã será melhor do que hoje. A esperança verdadeira não pode ser mera projeção no futuro. Já nos duros anos da ditadura, cantávamos com Vandré: "Esperar não é saber. Quem sabe faz a hora. Não espera acontecer...". Quem se demite de agir agora não tem direito de esperar nada do futuro. Esperar não é apenas aguardar. É engravidar o amanhã pela atuação responsável no aqui e agora. Também não se pode confundir a esperança com a projeção de nossos desejos utópicos. A esperança mais profunda pode incluir o desejo, mas tem uma raiz mais objetiva. Em um livro de meditação sobre a esperança cristã, escrito nos anos 60, o padre Comblin escrevia: "Esperar não é desejar. É obedecer (no sentido do antecipar profético) ao caminho que Deus nos aponta" (A maior esperança, Ed. Paulinas).
Há tradições, como a antiga religião greco-romana, que desenvolveram uma visão do tempo mais cíclica e menos histórica. Alguns grupos espiritualistas atuais têm uma visão determinista da vida, baseada nas leis de causa e efeito e na inexorabilidade do Carma. No Candomblé de tradição iorubá, Orumilá é o Orixá que abre às pessoas o Odu, ou caminho do destino. No sistema Ifá, são 16 odus que são consultados para saber qual o destino (odu) de cada pessoa. Entretanto, há certa liberdade de escolha. Uma vez, ao tratar deste assunto, uma mãe de santo afirmou: "Você pode fazer o que quiser, mas é bom saber com que material conta. Se me dá laranjas, posso fazer suco, doce, salada de fruta, mas não posso, por exemplo, com laranja salgar uma carne. E não adianta protestar porque laranja não serve como sal para uma carne. Não se trata de fatalismo ou sina e sim de descobrir como na vida de cada pessoa se desenvolve o projeto de amor divino dado a todos".
De um modo ou de outro, muitas religiões e caminhos espirituais, tanto antigas tradições orientais, como as culturas indígenas e negras, embora com termos diversos e através de seus mitos próprios, apostam em uma visão de esperança como a confiança lúcida e operante na realização progressiva dos desígnios divinos para o mundo. Há quem prefira chamar esta esperança de fé.
A própria Bíblia diz: "Pela fé, Abraão partiu, sem saber para onde ia" (Hb 11, 8 ss). Assim, para a fé judaica e cristã, a esperança significa viver, no aqui e agora, uma confiança na promessa divina que se concretiza em uma atitude de construir o futuro. A promessa divina é raiz de esperança porque ela se compromete com a mudança da história. A promessa só tem sentido quando muda o rumo dos acontecimentos e nos faz apostar no contrário de todos os prognósticos racionais. Na Bíblia, a promessa divina é assim: abre o útero das estéreis e reinverte a ordem vigente. Derruba os poderosos e eleva os pequenos. Assim, ela dá à esperança uma raiz própria: a confiança amorosa no futuro que se abre para nós. Podem acontecer coisas terríveis. Pode ser que não tenhamos respostas para as grandes questões da existência. Apesar disso, optamos por confiar que a vida tem sentido e é possível construir para a humanidade e para o planeta Terra um futuro mais feliz.
Fora do ambiente das tradições espirituais, a esperança ainda precisa de mais fortes razões para se justificar e se alimentar. Apenas uma análise lúcida da realidade social do mundo e do estado frágil e ameaçado do planeta Terra podem dar pouco lugar à esperança. A esperança não pode dispensar os dados objetivos da realidade, mas se alimenta de razões que vão além da conjuntura social e política. A convicção de que o próprio progresso da história e o desenvolvimento natural do Capitalismo acabarão conduzindo a sociedade ao Socialismo científico não tem sido verificada. Ao menos desta forma direta e quase positivista. Existem também escolas humanistas que apostam na bondade fundamental do ser humano e de sua capacidade de conduzir a história para o bem. A fronteira entre uma opção lúcida de esperança e uma confiança ingênua ou até alienada é muito tênue. De qualquer forma, Dom Hélder Câmara tem razão, sempre podemos descobrir razões para esperar e agir em função da esperança, criança brincalhona que acorda a casa e mostra o sol que nasce.
Guimarães Rosa dizia que "esperar é reconhecer-se incompletos". Filósofos como Robert Solomon, com sua proposta de "Espiritualidade para Céticos" (1), propõem uma espécie de ética que, sem precisar de nenhuma religião, se constrói como caminho espiritual, grávido de esperança. Trata-se de uma reflexão apaixonada pela vida que se concretiza na relação com a natureza, no gosto da música e no diálogo consigo mesmo e com os outros, além da intensificação da solidariedade com todos os seres humanos e com o universo.
Em uma sociedade pluralista, mesmo quem recebe de sua fé religiosa raízes de esperar é chamado a justificar sua esperança, não mais em linguagem mítica e acessível apenas à comunidade dos iniciados, mas de forma que possa ser acolhida por qualquer pessoa humana. Já no final do primeiro século de nossa era, um documento cristão dizia às comunidades uma palavra que pode ser traduzida como: "Estejam sempre prontos/as a dar, a quem lhes pedir, as razões da esperança que vivem" (1 Pd 3, 15). Este compromisso supõe que se dêem as razões da esperança na linguagem e cultura de quem pede este testemunho. Na primeira metade do século XX, Theillard de Chardin procurou traduzir sua fé de que o futuro do universo é a divinização do ser humano e de todos os seres vivos em termos científicos. Hoje, a organização dos movimentos populares e indígenas em todo o continente podem ser mediações desta esperança maior. O fortalecimento da sociedade civil internacional em fóruns por um novo mundo possível testemunha esta esperança exigente. Quem melhor precisou o coração desta esperança parece ter sido Dom Pedro Casaldáliga ao escrever um poema, cujos termos, se olhamos bem, quase parece contraditórios, mas são indicadores desta sábia razão de esperar: "Saber esperar, sabendo, ao mesmo tempo, forçar as horas daquela urgência que não permite esperar".
Nota:
(1) ROBERT SOLOMON, Espiritualidade para Céticos, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2006.


*Monge beneditino, teólogo e escritor.

10 de dezembro de 2007

Casas Mortas, Casas Vivas

Sua casa é viva ou morta? A pergunta soa estranha, com certeza.
E você logo responderá que casa é algo inanimado.
A casa é feita de pedras, tijolos, madeira, portanto, não tem vida.
Entretanto, casas existem que são mortas.
Você as adentra e sente em todos os cômodos a inexistência de vida.
Sim, dentro delas habitam pessoas, famílias inteiras.
Mas são aquelas casas em que quase tudo é proibido.
Tudo tem que estar tão arrumado, ajeitado, sempre, que não se pode sentar no sofá porque se está arriscando sujar o revestimento novo e caro.
Casas em que o quarto das crianças é impecável.
Todos os bichinhos de pelúcia, por ordem de cor e tamanho, repousam nas prateleiras.
Essas casas são frias. Pequenas ou imensas, carecem do calor da descontração, da luz da liberdade e da iluminada possibilidade de dentro delas se respirar, cantar, viver. Por isso mesmo parecem mortas.
As casas vivas já demonstram, desde o jardim, que nelas existe vibração e alegria.
No gramado, a bola quieta fala da existência de muitos folguedos. A bicicleta, meio deitada, perto da garagem, diz que pernas infantis até há pouco a movimentaram com vigor.
Em todos os cômodos se reflete a vida. No sofá, um ursinho de pelúcia denuncia a presença de um pequenino irrequieto que carrega a sua preciosidade por todos os cantos.
Na saleta, livros, cadernos e lápis dizem dos estudos que se repetem durante horas.
O dicionário aberto, um marcador de páginas assinalando uma mensagem preciosa falam de pesquisa e leitura atenciosa.
A cozinha exala a mensagem de que ali, a qualquer momento, pode chegar alguém e se servir de um copo d’água, um café, um pedaço de pão.
Os quartos traduzem a presença dos moradores.
Cores alegres nas cortinas, janelas abertas para que o sol entre em abundância.
Os travesseiros um pouco desajeitados deixam notar que as crianças os jogam, vez ou outra, umas contra as outras, em alegres brincadeiras. Enfim, as casas vivas são aquelas em que as pessoas podem viver com liberdade. O que não quer dizer com desordem.
As casas vivas são aquelas nas quais os seus moradores já descobriram que elas foram feitas para morar, mas sobretudo para se viver.
Se estabelecemos, em nosso lar, rígidas regras de comportamento para que tudo esteja sempre impecável, como se pessoas ali não vivessem, estamos demonstrando que o mais importante são as coisas, não as pessoas.
Manter o asseio, a ordem é correto. Escravizar-se a detalhes, temer por estragos significa exagerado apego a coisas que, em última análise, somente existem em função das pessoas.
Transforme sua casa, pequena, de madeira, uma mansão, num lugar agradável de se retornar, de se viver, de se conviver com a família, os amigos, os amores. Coloque sinais de vida em todos os aposentos.
Disponha flores nas janelas para que quem passe, possa dizer:
Esta é uma casa viva. É um lar.

BOA SEMANA!

9 de dezembro de 2007

A moda Deus

Leonardo Boff*

Hoje o tema de Deus está em alta. Alguns em nome da ciência pretendem negar sua existência como o biólogo Richard Dawkins com seu livro Deus, um delirio (São Paulo 2007). Outros como o Diretor do Projeto Genoma, Francis Collins com o sugestivo título A linguagem de Deus (São Paulo 2007) apresentam as boas razões da fé em sua existência. E há outros no mercado como os de C.Hitchens e S.Harris.
No meu modo de ver, todas estes questionamentos laboram num equívoco epistemológico de base que é o de quererem plantar Deus e a religião no âmbito da razão.
O lugar natural da religião não está na razão, mas na emoção profunda, no sentimento oceânico, naquela esfera onde emergem os valores e as utopias. Bem dizia Blaise Pascal, no começo da modernidade:"é o coração que sente Deus, não a razão"(Pensées frag. 277). Crer em Deus não é pensar Deus mas sentir Deus a partir da totalidade do ser.
Rubem Alves em seu Enigma da Religião (1975) diz com acerto:"A intenção da religião não é explicar o mundo. Ela nasce, justamente, do protesto contra este mundo descrito e explicado pela ciência. A religião, ao contrário, é a voz de um consciência que não pode encontrar descanso no mundo tal qual ele é, e que tem como seu projeto transcendê-lo".
O que transcende este mundo em direção a um maior e melhor é a utopia, a fantasia e o desejo. Estas realidades que foram postas de lado pelo saber científico voltaram a ganhar crédito e foram resgatadas pelo pensamento mais radical inclusive de cunho marxista como em Ernst Bloch e Lucien Goldman. O que subjaz a este processo é a consciência de que pertence também ao real o potencial, o virtual, aquilo que ainda não é mas pode ser. Por isso, a utopia não se opõem à realidade. É expressão de sua dimensão potencial latente. A religião e a fé em Deus vivem desse ideal e desta utopia. Por isso, onde há religião há sempre esperança, projeção de futuro, promessa de salvação e de vida eterna. Elas são inalcançáveis pela simples razão técnico-científica que é uma razão encurtada porque se limita aos dados sempre limitados. Quando se restringe apenas a essa modalidade, se transforma numa razão míope como se nota em Dawkins. Se o real inclui o potencial, então com mais razão o ser humano, cheio de ilimitadas potencialidades. Ele, na verdade, é um ser utópico. Nunca está pronto, mas sempre em gênese, construindo sua existência a partir de seus ideais, utopias e sonhos. Em nome deles mostrou o melhor de si mesmo.
É deste transfundo que podemos recolocar o problema de Deus de forma sensata. A palavra-chave é abertura. O ser humano mostra três aberturas fundamentais: ao mundo transformando-o, ao outro se comunicando, ao Todo, captando seu caráter infinito, quer dizer, sem limites.
Sua condition humaine o faz sentir-se portador de um desejo infinito e de utopias últimas. Seu drama reside no fato de que não encontra no mundo real nenhum objeto que lhe seja adequado. Quer o infinito e só encontra finitos. Surge então uma angústia que nenhum psicanalista pode curar. É daqui que emerge o tema Deus. Deus é o nome, entre tantos, que damos para o obscuro objeto de nosso desejo, aquele sempre maior que está para além de qualquer horizonte.
Este caminho pode, quem sabe, nos levar à experiência do cor inquietum de Santo Agostinho:"meu coração inquieto não descansará enquanto não repousar em ti"
A razão que acolhe Deus se faz inteligência que intui para além dos dados e se transforma em sabedoria que impregna a vida de sentido e de sabor.


* Teólogo e professor emérito de ética da UERJ

7 de dezembro de 2007

Os dois sentidos da menoridade

Maria Clara Lucchetti Bingemer*

Nunca pensaria em sair desta maneira do anonimato que sempre foi sua morada. Jamais sequer sonhou que pudesse ser notícia de jornal. Exilada do mundo da lei, da ordem, dos direitos, ela seguia vida afora, empurrada pela desgraça e pelo anonimato. A pobreza, o abandono, a dificuldade eram seu pão de cada dia. A boca faminta não conseguia alimentar o corpo de menina começando a virar moça de forma abrupta e tremenda.
A fome, a pobreza, a errância a fizeram ir parar no mundo dos furtos. Estendeu a mão e pegou. Depois saiu correndo. Magrinha e ágil ia mais rápido. Até que um dia foi pega, autuada e presa. Além de ser surpreendida em furto, estava sem carteira de identidade. Era apenas uma menina sem nome, sem sobrenome, sem direitos. Ela, que pensava não haver mais sofrimento do que aquele que já enfrentava diariamente, descobriu que tudo ainda podia ser e ficar muito pior.
Em Abaetetuba, lugar perdido no mapa do Pará, foi trancafiada em uma cela com mais de 20 homens. Ali ficou por mais de um mês, segundo depoimento dos próprios detentos. Uma denúncia ao Conselho Tutelar trouxe seu caso à luz. O Conselho acionou o Ministério Público e o Juizado da Infância e da Adolescência. Sua triste história saiu do anonimato e da escuridão dos porões da carceragem masculina para ganhar a mídia e horrorizar o país.
Em Abaetetuba, como em muitas outras cidades brasileiras, não há carceragem feminina. Não havia, portanto, lugar onde colocar aquela menina presa em flagrante e que ainda por cima andava sem documentos. A solução foi jogá-la no presídio masculino. Isto, segundo a polícia civil, é o procedimento "normal". Assim como ela, outras passaram e ainda passarão por esta situação. Durante mais de um mês, serviu de pasto à libido desenfreada dos presos, que só não se serviam de seu corpo às quintas feiras, quando recebiam a visita das esposas.
Ao contrário do que acontece com outras crianças, para ela a sexta feira não anunciava o fim de semana de lazer e repouso. Mas sim o início de mais uma semana de dor, humilhação, violência e agressão. Contrariando a ética das prisões, segundo a qual estuprador não sobrevive nos cárceres, todos se uniram contra ela. Examinada, apresentou escoriações em várias partes do corpo e evidências de abuso sexual.
Em ridícula tentativa de mascarar a gravidade do ocorrido, o delegado geral da Polícia Civil do Pará, Raimundo Benassully, declarou ser a menor débil mental, por não ter declarado imediatamente sua menoridade. Felizmente, a governadora do estado retrucou que não há justificativa para o que aconteceu. E o presidente da OAB chamou o caso de "hediondo e intolerável".
Embora pobre, sem documentos e culpada de furto, ela é uma cidadã. Maior ou menor de idade, tem direitos e a lei existe para protegê-la. Sendo menor, ainda mais. O Estado tem obrigação de zelar pela integridade física e mental de suas crianças e jovens. Submeter uma menina que tem entre 15 e 17 anos a tamanho constrangimento é repugnante sob todos os pontos de vista.
Segundo o dicionário, "menor" é a pessoa que ainda não atingiu a maioridade, ou seja, a idade de 21 anos, quando pode ser plenamente responsável por seus atos. Mas há outra definição de "menor": hierarquicamente inferior, subordinado, subalterno. Ela se enquadra em todas as categorias: pela pouca idade, pela inferioridade e a subordinação que merecem sua condição e seu sexo: é pobre e, além de tudo, é mulher.
O sistema penitenciário inadequado e iníquo completou o quadro. Jogou-a na mesma cela que 20 presos homens. Vivendo em condições subumanas, estes violaram repetida e cruelmente sua fragilidade. Para sempre ela levará as marcas dessa dupla menoridade cronológica e antropológica. Que pelo menos seu sacrifício sirva para que o Brasil preste mais atenção ao que está fazendo com seu futuro ao tratar assim suas crianças e seus jovens


* teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio

Os dois sentidos da menoridade

Maria Clara Lucchetti Bingemer*

Nunca pensaria em sair desta maneira do anonimato que sempre foi sua morada. Jamais sequer sonhou que pudesse ser notícia de jornal. Exilada do mundo da lei, da ordem, dos direitos, ela seguia vida afora, empurrada pela desgraça e pelo anonimato. A pobreza, o abandono, a dificuldade eram seu pão de cada dia. A boca faminta não conseguia alimentar o corpo de menina começando a virar moça de forma abrupta e tremenda.
A fome, a pobreza, a errância a fizeram ir parar no mundo dos furtos. Estendeu a mão e pegou. Depois saiu correndo. Magrinha e ágil ia mais rápido. Até que um dia foi pega, autuada e presa. Além de ser surpreendida em furto, estava sem carteira de identidade. Era apenas uma menina sem nome, sem sobrenome, sem direitos. Ela, que pensava não haver mais sofrimento do que aquele que já enfrentava diariamente, descobriu que tudo ainda podia ser e ficar muito pior.
Em Abaetetuba, lugar perdido no mapa do Pará, foi trancafiada em uma cela com mais de 20 homens. Ali ficou por mais de um mês, segundo depoimento dos próprios detentos. Uma denúncia ao Conselho Tutelar trouxe seu caso à luz. O Conselho acionou o Ministério Público e o Juizado da Infância e da Adolescência. Sua triste história saiu do anonimato e da escuridão dos porões da carceragem masculina para ganhar a mídia e horrorizar o país.
Em Abaetetuba, como em muitas outras cidades brasileiras, não há carceragem feminina. Não havia, portanto, lugar onde colocar aquela menina presa em flagrante e que ainda por cima andava sem documentos. A solução foi jogá-la no presídio masculino. Isto, segundo a polícia civil, é o procedimento "normal". Assim como ela, outras passaram e ainda passarão por esta situação. Durante mais de um mês, serviu de pasto à libido desenfreada dos presos, que só não se serviam de seu corpo às quintas feiras, quando recebiam a visita das esposas.
Ao contrário do que acontece com outras crianças, para ela a sexta feira não anunciava o fim de semana de lazer e repouso. Mas sim o início de mais uma semana de dor, humilhação, violência e agressão. Contrariando a ética das prisões, segundo a qual estuprador não sobrevive nos cárceres, todos se uniram contra ela. Examinada, apresentou escoriações em várias partes do corpo e evidências de abuso sexual.
Em ridícula tentativa de mascarar a gravidade do ocorrido, o delegado geral da Polícia Civil do Pará, Raimundo Benassully, declarou ser a menor débil mental, por não ter declarado imediatamente sua menoridade. Felizmente, a governadora do estado retrucou que não há justificativa para o que aconteceu. E o presidente da OAB chamou o caso de "hediondo e intolerável".
Embora pobre, sem documentos e culpada de furto, ela é uma cidadã. Maior ou menor de idade, tem direitos e a lei existe para protegê-la. Sendo menor, ainda mais. O Estado tem obrigação de zelar pela integridade física e mental de suas crianças e jovens. Submeter uma menina que tem entre 15 e 17 anos a tamanho constrangimento é repugnante sob todos os pontos de vista.
Segundo o dicionário, "menor" é a pessoa que ainda não atingiu a maioridade, ou seja, a idade de 21 anos, quando pode ser plenamente responsável por seus atos. Mas há outra definição de "menor": hierarquicamente inferior, subordinado, subalterno. Ela se enquadra em todas as categorias: pela pouca idade, pela inferioridade e a subordinação que merecem sua condição e seu sexo: é pobre e, além de tudo, é mulher.
O sistema penitenciário inadequado e iníquo completou o quadro. Jogou-a na mesma cela que 20 presos homens. Vivendo em condições subumanas, estes violaram repetida e cruelmente sua fragilidade. Para sempre ela levará as marcas dessa dupla menoridade cronológica e antropológica. Que pelo menos seu sacrifício sirva para que o Brasil preste mais atenção ao que está fazendo com seu futuro ao tratar assim suas crianças e seus jovens


* teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio

4 de dezembro de 2007

pequena poesia

Como dizia o poeta

Quem já passou por essa vida e não viveu

Pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Porque a vida só se dá pra quem se deu

Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu

Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não

Não há mal pior do que a descrença

Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão

Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair

Pra que somar se a gente pode dividir

Eu francamente já não quero nem saber

De quem não vai porque tem medo de sofrer

Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão

Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não

Vinícius de Moraes

1 de dezembro de 2007

A compaixão e a felicidade humana

Jung Mo Sung*

Na nossa vida sempre encontramos ou cruzamos com pessoas que estão sofrendo por algum motivo. Nestes momentos todos nós somos, de um modo ou outro, tocados pelo sofrimento alheio. Isto se chama compaixão.
Para entendermos isto melhor, quero narrar uma conversa que eu tive com uma pessoa alguns anos atrás. Estávamos saindo de um banco, bem no centro velho de São Paulo, quando vimos na rua pessoas pobres pedindo esmola. Ela me disse: "eu não gosto de vir aqui para centro por causa destas cenas que me deprimem. O centro está carregado de energias negativas e toda vez que eu venho aqui saio carregado desta negatividade e mesmo quando volto para minha casa eu sinto um certo peso, um certo mal estar".

Eu não quero discutir aqui se a expressão "energias negativas" é a melhor para expressar o ambiente como aquele, mas o que eu posso dizer com certeza é que esta pessoa foi tocada pelo sofrimento daquelas pessoas pobres, algumas com crianças pequenas. O fato de ela sentir esta "energia negativa" até mesmo quando estava no conforto e segurança da sua casa (que devia ser muito boa) mostra que ela costumava ser tocada com certa profundidade e não sabia bem como lidar com isto. Mesmo as pessoas mais insensíveis são tocadas pelos sofrimentos de outras pessoas. Uma comprovação disso é que elas reagem de alguma forma a este tipo de contato, mesmo que seja apenas para virar a cabeça. Este virar a cabeça para não ver o rosto de uma pessoa que sofre mostra que foi tocada. Ninguém é completamente insensível ao sofrimento de outras pessoas.

Hoje diversos experimentos científicos estão mostrando que esta é uma característica da espécie humana. Nós somos de uma espécie que é capaz de se colocar no lugar do outro para compreender a intenção da outra pessoa e compreender o que quer dizer ou comunicar; assim como também somos capazes de nos colocar no lugar da pessoa que está nos sorrindo para entendermos - algumas vezes de forma meio equivocada - o sentido daquele sorriso para nós. Isto funciona também diante de uma pessoa que sofre. Eu me coloco no lugar desta pessoa para poder compreender o sentimento de dor que se expressa no rosto dela ou em algum outro gesto. Ao me colocar no lugar do outro, para compreendê-lo, eu sinto o sofrimento com a pessoa que sofre.

A diferença entre as pessoas se dá na reação a esta experiência de compaixão. A dor e o sofrimento da outra pessoa me lembra os meus medos, inseguranças e sofrimentos que eu não quero me lembrar. Com isso, eu posso me fechar para a dor do outro para reprimir a minha dor e esquecer dos meus medos e inseguranças; ou então me permitir sentir a compaixão e assim tomar contato com as minhas dores, os meus sofrimentos e medos. É preciso muita força espiritual e também coragem para enfrentar as minhas dores mais fundas. Permanecer na compaixão não revela fraqueza ou de "pieguice" de uma pessoa, pelo contrário, é sinal da sua força emocional e espiritual.

Reprimir o sentimento inevitável da compaixão é reprimir uma parte do "eu" que está nas profundezas do meu ser. Em outras palavras, quem nega o sentimento de compaixão não pode se conhecer e, por isso, nem consegue encontrar uma "solução" para os seus problemas que foram escondidos, empurrados e trancados no mais fundo de si. Quem não é capaz de permanecer no sentimento de compaixão, não consegue viver uma vida feliz porque tenta negar a sua própria "natureza humana".

É por isso que pessoas como Dalai Lama dizem que a felicidade depende da compaixão, e que para desenvolver o sentimento de compaixão precisamos cultivar qualidades como "amor, paciência, tolerância, capacidade de perdoar, humildade e outras" e também "o hábito de uma disciplina interior".

Quando sentimos a compaixão, desejamos que os sofrimentos das outras pessoas cessem, não só porque as amamos ou acreditamos que elas têm direito a uma vida mais digna e humana, mas também para que os nossos sofrimentos resultantes da compaixão sejam aliviados. Neste processo sentimo-nos compelidos a fazer algo para mudar a situação, assim como também incluímos no nosso horizonte de futuro desejado a superação das situações que causam estes sofrimentos. Abertura ao sofrimento alheio que nos permite tomar contato com os nossos sofrimentos e medos, a esperança de um futuro onde estes problemas foram solucionados e ações concretas que nos dão convicção firme de que estamos, dentro das possibilidades, fazendo a coisa certa para caminharmos em direção a este futuro desejado são elementos fundamentais de uma vida feliz.

Compaixão e amor encarnado em ações concretas - que buscam superar situações de opressão, dominação, marginalização, exploração ou exclusão que geram sofrimentos de tanta gente - são elementos fundamentais tanto para uma vida pessoal quanto para uma sociedade mais humana. Não se pode ser feliz sendo insensível a tanto sofrimento e dor.

É claro que não devemos cair na tentação e pressão de sermos perfeitamente compassivos e capazes de ações perfeitas e plenas para "salvar" o mundo. Só na medida em que aceitamos a nossa dificuldade é que poderemos viver e fazer o que podemos de fato.

Compaixão, responsabilidade e solidariedade são valores fundamentais para salvarmos o mundo e as nossas vidas do cinismo, da indiferença e da desumanização.

Mesmo que a nossa vida e o mundo não se transformem na intensidade e na velocidade dos nossos desejos, sabemos que nossas ações transformam ou modificam para melhor, não somente a vida de outras pessoas, mas também a nós mesmos.

Elie Wiesel nos oferece uma pérola do pensamento talmúdico sobre isto: "A caridade salva da morte. [...] O que é a caridade? Os vivos devem se preocupar com a tristeza ou doença do próximo. Quem não se preocupa não é realmente sensível; quem não é sensível não está realmente vivo. E este é o significado do apelo do shammash: a caridade nos livra de morrer em vida".

[Autor de, entre outros, "Um caminho espiritual para felicidade"].


* Professor de pós-grad. em Ciências da Religião da Univ. Metodista de S. Paulo e autor de Sementes de esperança: a fé em um mundo em crise

28 de dezembro de 2007

Jesus Nasceu!

Jesus nasceu!
Nosso coração se enche de alegria!
Chegou o Menino Deus!
Chegou a salvação!Jesus nasceu!Nos foi dado um filho, um menino!
Para acolher os fracos, para acolher os pequeninos.Jesus Nasceu!Nasceu frágil e inseguro!
Para nos dar forças e segurança no caminho.
Jesus nasceu!
Nasceu pobre e faminto!
Para enriquecer a muitos e saciar de pão os excluídos.
Jesus nasceu!Nasceu numa gruta fria,entre animais que lhe deram aconchego e calor.
Jesus nasceu!Nasceu entre Maria e José!
Veio colocar em prova nossa fé e encher nosso ser de esperanças.
Jesus nasceu!

Nasceu proclamando a Boa Novada paz e da solidariedade para todos de boa vontade.
Jesus nasceu!
Veio trazer a verdadeira vida!
Para que renascidos com Ele, possamos desejar a todos: Feliz Natal!

24 de dezembro de 2007

23 de dezembro de 2007

Quatro histórias de Natal

Frei Betto*

I
Em Belém, Caleb atende à porta. Ao ver quem bate, fecha-a de imediato, enquanto o visitante insiste aos murros, como se quisesse derrubar a parede.
A mulher, Cozbi, indaga quem é. "Meu irmão". "O José?", pergunta ela. "Sim, teve o descaramento de engravidar uma jovem de Nazaré sem nem terem se casado, como manda a nossa lei. Agora vem com a buxuda pedir abrigo em nossa casa. Como hei de acolher quem viola os preceitos ditados por Javé a Moisés? Eles que procurem outra freguesia".


II
Eleazar realizou, enfim, seu velho sonho: um pequeno sítio nas proximidades de Belém. No pasto, misturou vacas, cabras e cordeiros. Montou um cocho de madeira e armou, em torno, um toldo de bambu coberto com folhas de palmeira.
De madrugada, Efraim, pastor contratado pelo dono da terra, bate forte pelo lado de fora da janela. O patrão, sonolento, parece receber como pesadelo a notícia: "Invadiram suas terras, meu senhor. Tem um casal acampado lá na estrebaria. Escutei um choro miúdo. Parece que a mulher deu à luz um menino."
"Avise a guarda. Ao despontar do sol cuidaremos de tirá-los de lá", resmunga Eleazar interessado em retomar o sono.
Dia seguinte, o Diário de Belém dá em manchete: "Família sem-teto e sem-terra invade propriedade rural na periferia da cidade". No corpo da notícia: "Moça de Nazaré, engravidada por carpinteiro, teve parto em pleno pasto. A criança é do sexo masculino".


III
Guiadas pela estrela de Davi, as três rainhas magas, Ada, Míriam e Sela, chegam à manjedoura. Após louvarem a Javé, aquecem um caldo de galinha para Maria, alimentam José com pães ázimos recheados com grão-de-bico, lavam as fraldas do bebê, varrem o estábulo. Ao buscar água na fonte, comentam entre si: "O menino em nada se parece com o pai..."


IV
A notícia do nascimento do menino não tarda a chegar ao palácio de Herodes, em Jerusalém. Ele fica alarmado; afinal, é o rei dos judeus, malgrado o sangue árabe que corre em suas veias. Sabe, porém, que tem os dias contados, carcomido pelo cancro. A proximidade da morte o aterroriza tanto quanto os agouros que lhe ameaçam o trono.
Pede a Corinto, comandante da guarda, convocar reunião em palácio dos chefes dos sacerdotes e dos doutores da lei, os escribas.
O convite trazido por Corinto deixa Anás excitado. No íntimo, considera-se o verdadeiro rei da Palestina. Comparece em companhia de duas dezenas de membros do sinédrio - o conselho supremo do poder judaico, integrado por 71 notáveis, e do qual ele, na condição de sumo sacerdote, é o presidente.
Herodes é introduzido no salão a bordo de uma liteira de marfim sustentada por quatro escravos. Anás mal consegue controlar sua curiosidade por conhecer o motivo de tão inesperada convocação. O rei quer saber dos sinedritas onde e quando deve nascer o Messias que tanto aguardam. Gamaliel cofia sua barba em leque e diz: "Nascerá em Belém, na Judéia, pois está dito pelo profeta Miquéias - E tu, Belém, de modo algum és a menor entre as cidades de Judá, pois de ti sairá para mim aquele que deve guiar Israel. Quando isso ocorrerá - escusa-se o doutor da lei -, não está ao alcance do nosso saber."
Herodes não admite que a sua soberania seja desafiada por rumores em torno de um menino-messias. Ordena que a guarda de operações especiais, comandada pelo espadaúdo Tirano, dirija-se a Belém e passe ao fio da espada todas as crianças do sexo masculino com menos de dois anos de idade.
Ao amanhecer, as tropas herodianas ocupam Belém. Os batedores vão de casa em casa. Ordenam que todos os meninos de colo, e aqueles que ainda não caminham com firmeza, sejam trazidos à rua por suas mães. As outras mulheres devem permanecer trancadas em casa, com portas e janelas fechadas, em companhia de homens e crianças.
Toda a gente de Belém pressente que, desta vez, Azrael, o anjo exterminador, voltou-se contra ela. As mães ficam separadas dos filhos que, nus, são deitados lado a lado ao longo das ruas. Os bebês choram um choro de abandono, insistente, como se um presságio os movesse a sugar com avidez o ar que, em breve, já não poderão respirar. De rostos virados para as paredes das casas e dos muros, e vigiadas por soldados, as mães riscam as pedras com as unhas e lavam o musgo com as lágrimas.
Após observar cada criança à procura de algum traço messiânico, Tirano dá o sinal para a degola. O carrasco agacha-se, puxa a cabeça da vítima para esticar o pescoço, ergue o cutelo e, num golpe, separa o crânio do corpo. Algumas mães, desesperadas, ousam voltar-se na direção dos filhos; são silenciadas pela lâmina do punhal que lhes traspassa o coração. Tirano passa ao fio de sua própria espada as mulheres que furam o cerco das sentinelas e se abraçam aos filhos como se quisessem fazê-los retornar ao útero.
Desde essa trágica manhã em Belém, os poderosos cruéis tornaram-se conhecidos como tiranos.


*[Autor da biografia de Jesus "Entre todos os homens" (Ática), entre outros livros].


21 de dezembro de 2007

Para que este Natal seja novo e feliz

Marcelo Barros*

É bom se entender sobre o que desejamos uns aos outros, quando expressamos nossos votos de Feliz Natal. As comunidades cristãs fazem memória do nascimento de Jesus para celebrar como acontecimento atual a presença divina no mundo. Neste contexto, o Natal é uma celebração que não apenas repete um aniversário e sim atualiza um mistério: na pessoa de Jesus de Nazaré, Deus assume, hoje, a humanidade e a diviniza. Para tantas outras pessoas que se dizem Feliz Natal sem referência explícita ao nascimento de Jesus e sem celebração religiosa, o desejo é que a alegria e a paz proclamada pelos céus se atualizem gratuitamente para todo universo.
Neste mundo em que convivem pessoas de tantas culturas diferentes e no qual o elemento religioso ainda é motivo de conflito e provoca guerras, a graça do Natal é valorizar o caminho que tantos grupos e organizações civis fazem para tornar este mundo um grande presépio, no qual a fragilidade do ser humano seja revestida pela força do amor divino. Esta revelação de que todos os seres humanos, cada qual em seu caminho próprio e do seu modo, têm esta vocação de conceber no intimo do seu ser a divindade dá um caráter sagrado a todas as culturas, chamadas a dialogar, às religiões que, em sua diversidade, podem se complementar e mesmo à vida cotidiana que pode perder a cor da monotonia pelo anúncio de que algo de novo está nascendo. A própria troca de presentes e de votos de feliz Natal revela uma sociedade, na qual os gestos de delicadeza e relação humana ainda encontram sentido.
Em países como Costa de Marfim, muçulmanos celebram o Natal com os cristãos, assim como, no final do Ramadam, os cristãos vão à mesquita para participar da festa com os irmãos do Islã. A sociedade multi-cultural não se constrói pela abolição das particularidades próprias de cada cultura e sim pela possibilidade destas valorizarem umas às outras e conviverem em paz.
Em cada Natal, cristãos e não cristãos podem ver em Maria grávida de Jesus, a figura de toda mulher que, em nossos dias, se abre com confiança ao mistério da vida e, mesmo em situações difíceis e contraditórias, percebe no silêncio e na escuta da história o sopro do Espírito. A parábola de José que recebe em sonhos o aviso de Deus sobre sua vocação de guardião do filho de Deus nos confirma: todos nós podemos interpretar o futuro a partir dos pequenos sinais de que a história pode mudar e dar espaço a uma vida nova.
Neste Natal, seja você quem for, o melhor presente que pode se dar a si mesmo e aos outros é colocar-se na pele dos pobres pastores de Belém que receberam a visita dos anjos anunciadores da paz e da salvação. Em meio às violências cotidianas do mundo, podemos pastorear a vida e construir a paz. Para isso, às vezes, precisamos estar dispostos a caminhar, mesmo quando a viagem é longa e cansativa até o presépio onde nos espera o mistério.
O conto simbólico dos astrólogos que a devoção popular chama de reis magos nos revela a missão dos intelectuais que assumem a condição humilde de quem procura, aprendem a interpretar o que, hoje, a natureza nos diz e se deixam guiar, enamorados, pela estrela guia.
Alguns grupos espiritualistas valorizam muito a figura dos anjos, novamente, em moda. O termo grego anjo significa mensageiro. Até Jesus Cristo, como enviado do Pai, recebe este nome. Nós todos somos anjos uns para os outros, quando cuidamos das feridas uns dos outros, como fez o anjo Rafael com Tobias e acolher em nossos joelhos tantos Cristos pregados nas cruzes que, a cada dia, o mundo inventa e recria. Natal é boa ocasião para agradecer a cada pessoa ao nosso lado que, durante todo este ano, foi um verdadeiro anjo da guarda e nos defendeu das mesquinharias do dia a dia.
Finalmente, na história que o evangelho conta do Natal, o que sempre me surpreende não é apenas o esplendor e a beleza do que foi anunciado. Crer que, no meio da noite escura, o céu pode se encher de luz e a tristeza dos pastores cansados pode dar lugar à alegria de participar do cântico dos anjos é sempre um desafio. Mas, o mais difícil mesmo é reconhecer na figura marginal da criança que jaz no presépio a luz do amor divino. Tudo o que os pastores encontram é uma família paupérrima de migrantes sem teto que acalentam seu filho recém-nascido em uma estrebaria.
No Mosteiro de Goiás, em cada celebração da noite do Natal, quando os jovens fazem um presépio vivo, eu me comovo ao ver a criança recém-nascida que eles trazem para fazer o papel do menino Jesus no presépio. Aquela criança pobre não é apenas um ator. É o sinal vivo da presença permanente de Deus nos mais frágeis e pequeninos. Mas, afinal, aquela criança que, no meio da noite, dorme tranqüila no presépio e nem sabe que é o centro de uma celebração de Natal, não é um pouco a imagem de todos nós, no presépio do mundo?
Neste Natal, o Espírito de amor salva a criança que dorme no mais íntimo de cada um/uma de nós e nos chama a peregrinar até este presépio secreto de nossa vida, no qual podemos, novamente, refazer as brincadeiras de criança, recitar poesias e nos maravilhar com as histórias de amor das quais nós mesmos somos protagonistas.
Os desafios do cotidiano continuam duros. É preciso crer nos que cantam a paz e não nos que querem destruir o que de novidade índios, lavradores e seus aliados estão realizando na Bolívia, Venezuela, Equador e em todo o nosso continente. Quem escuta mais profundamente a palavra do Natal adere ao apelo profético de Dom Luiz Cáppio para salvar o rio São Francisco e espera que, em meio às políticas neo-liberais que transformam o Brasil em um imenso canavial, para produzir Etanol, os pobres de hoje continuem escutando o cântico do céu e o grito da terra e se mobilizem para que, em meio à noite, uma vida nova possa surgir.
A vocês todos, feliz Natal.


*Monge beneditino, teólogo e escritor. Tem 30 livros publicados.

18 de dezembro de 2007

Sim a Dom Luiz Cappio, Não à Transposição do Rio S. Francisco

Marcos Arruda*

Pres. Lula da SilvaPor favor, Presidente. Dom Cappio não está só. O gesto amoroso que ele faz com a greve de fome - amor ao povo brasileiro e amor à Natureza e ao Velho Chico - não é um gesto isolado, mas sim povoado de presenças de milhões pelo Brasil afora e também pelo mundo! Uma pequena mostra será o Jejum Solidária que muitxs estaremos fazendo no Brasil e no exterior, em apoio à causa e como clamor pela vida do Velho Chico e de Dom Cappio! O gesto de Dom Cappio, e o nosso, é um gesto moral, pois simboliza com eloqüência a FOME a que está sendo levado o Rio S. Francisco e sua imensa Bacia. Mas é igualmente um gesto político, pois questiona uma opção que não tem NADA de técnica. Técnica, e solidamente científica, seria a opção pela revitalização, pois através dela estariam sendo beneficiados 34 milhões de pessoas da Bacia do Velho Chico. Sendo eficiente e ecologicamente sustentável, é tecnicamente e cientificamente a mais sábia e correta. É também um gesto de repúdio contra a militarização das obras de transposição, que atentam contra o direito sagrado do povo de indignar-se e protestar, e de expressar por diversas formas, pacíficas, seu repúdio ao projeto e sua determinação de defender seu meio de vida e a integridade do seu ecossistema. A opção pela transposição é tecnicamente equivocada. Ela NÃO vai resolver o problema da seca, nem as carências de água e de alimentos da população do Semi-Árido. Ela toma o Semi-Árido como o inimigo, quando os inimigos são outros: latifúndio, agronegócio, busca de lucro fácil e imediato através da exportação, ausência de qualquer real preocupação com uma solução estrutural e sustentável para a fome, a pobreza, a miséria, a falta de acesso à terra, aos meios de torná-la fértil, a uma assistência técnica eficaz, ao fim das violações dos direitos dos povos indígenas, à educação, à saúde, enfim, aos direitos de cidadania que garantam uma vida humana e digna. Presidente, enquanto o Brasil 'economiza' R$ 106 bilhões até outubro para pagar juros aos banqueiros, já excessivamente ricos, o Nordeste de onde você veio continua sofrendo de doenças e mortes evitáveis. Seu gesto corajoso de retirar os 41 blocos do campo de Tupi do 9o. leilão precisa ser repetido, cancelando o projeto faraônico, elitista e irresponsável de transposição. E optando pela revitalização, pelo milhão de cisternas, pelas 140 técnicas alternativas e ecologicamente sustentáveis, pelas 530 obras previstas no projeto da Agência Nacional das Águas. Pela REVITALIZAÇÃO DE TODA A BACIA DO RIO SÃO FRANCISCOPor um Projeto de Convivência com o Semi-áridoPelo ARQUIVAMENTO DO INSANO E FARAÔNICO PROJETO DE TRANSPOSIÇÃO DO VELHO CHICO!Pelo respeito à sua própria palavra, Presidente, dada há dois anos ao Bispo Dom Cappio, de que a transposição não seria levada adiante sem uma ampla discussão democrática com a população! Prof. Marcos ArrudaPACS - Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul


*Socioeconomista e educador do PACS - Instituto Políticas Alternativas para o Cone Sul, Rio de Janeiro, e sócio do Instituto Transnacional

Natal de Dom Cappio

Frei Betto*

Lá está o bispo, dom Luiz Flávio Cappio, no sertão da Bahia, decidido em sua greve de fome contra a transposição do Rio São Francisco.
O rio, que corta o coração do Brasil, leva o nome do santo padroeiro da ecologia, devido ao seu amor à natureza, com a qual mantinha relação de alteridade e empatia: Irmão Sol, Irmã Lua.
O que poucos notam é que o mentor de dom Cappio era, no século XIII, um crítico radical dos primórdios do capitalismo. O feudalismo ruía por sua inércia e os burgos, as futuras cidades, despontavam sob as luzes da redescoberta de Aristóteles e os novos empreendimentos mercantis.
Bernardone, pai de Francisco, rico proprietário de manufatura de tecidos, importava da França as tinturas para colorir seu produto. Sua admiração pela metrópole levou-o a batizar o filho em homenagem à França - Francesco.
A miséria, até então, campeava na Europa em decorrência de guerras e da peste. O mercantilismo gerou, pela primeira vez, relações de trabalho promotoras de exclusão social. Francisco solidarizou-se com as vítimas da nascente manufatura. Ao despir-se na praça de Assis, todos entenderam o gesto para além de simples ato de despojamento. As roupas produzidas pelo pai estavam conspurcadas pela tecnologia que condenava artesãos à perda de seu ofício e, portanto, à miséria.
Hoje, o franciscano dom Cappio se posiciona ao lado das vítimas da transposição das águas do São Francisco. O PT, historicamente, era contrário ao projeto. E também contra a CPMF. Uma vez governo, mudou, como, aliás, mudou em tantas outras coisas. Mudou para não efetivar as mudanças prometidas, como a agrária. Mudou para se desfigurar como partido dos pobres e da ética. Mudou para ficar mais parecido com seus adversários políticos.
Em Sobradinho (BA), na capela consagrada ao santo que dá nome ao rio, o bispo faz seu gesto solitário, embora alvo, no Brasil e no exterior, de muitos apoios solidários. Sua primeira greve de fome, por 11 dias, foi em 2005. Dom Cappio recusou alimentos até que o governo prometesse rediscutir o projeto e promover a revitalização do rio. Segundo o bispo, o Planalto não honrou o compromisso.
A obra de transposição está orçada em R$ 5 bilhões. Cornucópia na qual estão de olho as grandes empreiteiras e o agronegócio. Dom Cappio desconfia de que a transposição beneficiará, não os pobres da região, que vivem da pesca e do cultivo familiar, e sim o grande capital.
Quem já viu governo fazer obra de vulto para beneficiar pobre? Nem sequer o governo Lula investiu suficientemente no programa de construção de 1 milhão de cisternas de captação de água da chuva, que poria fim às agruras da seca no semi-árido. Apenas 25% das cisternas foram construídas, assim mesmo graças ao apoio da iniciativa privada. Cidades sem suficiente saneamento são beneficiadas por viadutos para o conforto de quem transita em carros...
Quem terá acesso à água transposta? A seca ou a cerca? Não faz sentido esse projeto numa região em que ainda predomina o latifúndio e cuja população, cerca de 12 milhões pessoas, não tem acesso à propriedade da terra. No projeto não são incluídas as 34 comunidades indígenas e os 153 quilombolas encontrados em sua área de alcance.
O próprio organismo que responde pelas bacias hidrográficas, o Comitê da Bacia Hidrográfica do Rio São Francisco, está contra o projeto, que ignora as estruturas sociais arcaicas da região - o que significa, na prática, fortalecê-las.
O que dom Cappio reivindica é simples e democrático: que o governo debata o projeto com a sociedade, sobretudo com os ribeirinhos do São Francisco. A obra terá profundo impacto em toda a extensão territorial do país e, sobretudo, reflexos ambientais e sociais.
Dom Cappio tem fome de justiça, uma bem-aventurança, segundo Jesus no Sermão da Montanha. Seu Natal é o da manjedoura, lá onde a família de Maria e José, sem-teto e sem-terra, faz nascer a esperança de que a população da bacia do São Francisco não venha, em futuro próximo, ser conhecida também como sem-rio.

[Autor de "A arte de semear estrelas" (Rocco), entre outros livros].

*Frei dominicano.

14 de dezembro de 2007

Transcendência-Imanência-Transparência

Leonardo Boff*

Não há tradição cultural que não se refira a um Princípio criador ou a uma Energia originária ou simplesmente a Deus. A grande questão é como expressar essa Realidade. Aqui, mais que os teólogos que falam sobre Deus, contam os que falam com Deus, como os místicos e os profetas, cujo testemunho não pode ser negado. Na história do pensamento se delineiam três maneiras de falar com referência a Deus.
A primeira fala de transcendência. Deus é tão outro que tudo o que dizemos dele é mais mentira que verdade. O melhor é calar ou apenas sorrir amavelmente como Buda.
A segunda fala de imanência. Deus é experimentado de forma tão intensa que ele se anuncia em cada coisa. Assim vem enraizado dentro do mundo. E é chamado por mil nomes.
A terceira fala de transparência. Busca um caminho intermédio. Deus não pode ser tão transcendente, pois se assim fosse, como saberíamos dele? Ele deve ter alguma relação com o mundo. Anunciar um Deus sem o mundo faz, fatalmente, nascer um mundo sem Deus. Também não pode ser tão misturado com as coisas que acaba sendo uma parte deste mundo. Se Deus existe como as coisas existem, então Deus não existe. Ele é o suporte do mundo não porção dele.
É aqui que tem sentido a transparência. Ela afirma que a transcendência se dá dentro da imanência sem perder-se nela, caso contrário não seria realmente transcendência. E a imanência carrega dentro de si a transcendência porque comparece sempre como uma realidade aberta a intermináveis referências. Quando isso ocorre a realidade deixa de ser transcendente ou imanente. Ela se faz transparente. Encerra dentro de si a imanência e a transcendência. Tomemos o exemplo da água. A água é água, jorrando da fonte (imanente). Mas é mais que água. Simboliza também a vida e o frescor (transcendente). Ao transformar-se em símbolo de vida e frescor, a água se torna transparente para estas realidades. E o faz por ela mesma e nela mesma.
Essa talvez seja a forma mais sensata de falar sobre Deus e a partir de Deus. Na forma do paradoxo. Por um lado devemos afirmar que todas as nossas palavras são inócuas. De Deus não podemos fazer nenhuma imagem. Por outro lado, não podemos dizer que Deus é o totalmente indeterminado, qualquer coisa vaga, um fundo sem fundo. A realidade de Deus (não sua imagem) é um concreto concretíssimo, o ser em plenitude, portanto uma realidade concreta, mas sempre para além de qualquer concreção. É representado pela água mas ele não é água. Identificar água e Deus é cair na idolatria.
Nesse paradoxo a transparência ganha relevância. Ela faz que o inatingível (transcendência) se torne atingível através e dentro de algo concreto (imanência), mas transfigurado-o em símbolo (transparência). É o que o cristianismo afirma de Jesus. Ele é um camponês/artesão mediterrâneo (imanente), mas que viveu de tal modo (transparente) que nos permitiu entrever Deus (transcendente). "Quem vê a mim, vê o Pai". Como? Na forma como se dirigia a Deus, chamando-o de Paizinho querido (Abba), o que supõe que se sentia seu filho. Depois, agindo de um jeito que sua existência era uma pró-existência, vida para os outros, especialmente, os últimos e desprezados. O que disse e fez, foi para nos induzir a ter a mesma atitude que ele teve. Assim descobriremos que somos também filhos e filhas, em comunhão com ele.
Ele se fez transparente para Deus, não rebaixando os que vieram antes dele, mas radicalizando seu dinamismo, tornando-se um ponto referencial. Deus, então, está no mundo, mas para além dele.

*Teólogo e professor emérito de ética da UERJ

13 de dezembro de 2007

Atualizar as razões de esperar

Marcelo Barros*

Nos Estados Unidos e nos países que têm a mesma referência cultural, o dia nacional de ação de graças, celebrado, a cada ano, na última quinta-feira de novembro, tem o sabor de final de ano e revisão de uma etapa percorrida. É uma festa, fruto do capitalismo, que considera a acumulação de bens como graça divina. As Igrejas cristãs, embora sejam sempre tentadas pela mesma heresia, sabem que a organização atual do mundo não vem de Deus e a desigualdade social e econômica vigentes o ofendem. O Evangelho é a boa notícia de que este mundo pode mudar e o projeto de paz e justiça, inspirado por Deus, pode se realizar, como elemento transformador da vida e de toda esperança humana.
Sem dúvida, é ingenuidade pensar que, por si mesmo, com o tempo, as coisas melhoram e, seja como for, o amanhã será melhor do que hoje. A esperança verdadeira não pode ser mera projeção no futuro. Já nos duros anos da ditadura, cantávamos com Vandré: "Esperar não é saber. Quem sabe faz a hora. Não espera acontecer...". Quem se demite de agir agora não tem direito de esperar nada do futuro. Esperar não é apenas aguardar. É engravidar o amanhã pela atuação responsável no aqui e agora. Também não se pode confundir a esperança com a projeção de nossos desejos utópicos. A esperança mais profunda pode incluir o desejo, mas tem uma raiz mais objetiva. Em um livro de meditação sobre a esperança cristã, escrito nos anos 60, o padre Comblin escrevia: "Esperar não é desejar. É obedecer (no sentido do antecipar profético) ao caminho que Deus nos aponta" (A maior esperança, Ed. Paulinas).
Há tradições, como a antiga religião greco-romana, que desenvolveram uma visão do tempo mais cíclica e menos histórica. Alguns grupos espiritualistas atuais têm uma visão determinista da vida, baseada nas leis de causa e efeito e na inexorabilidade do Carma. No Candomblé de tradição iorubá, Orumilá é o Orixá que abre às pessoas o Odu, ou caminho do destino. No sistema Ifá, são 16 odus que são consultados para saber qual o destino (odu) de cada pessoa. Entretanto, há certa liberdade de escolha. Uma vez, ao tratar deste assunto, uma mãe de santo afirmou: "Você pode fazer o que quiser, mas é bom saber com que material conta. Se me dá laranjas, posso fazer suco, doce, salada de fruta, mas não posso, por exemplo, com laranja salgar uma carne. E não adianta protestar porque laranja não serve como sal para uma carne. Não se trata de fatalismo ou sina e sim de descobrir como na vida de cada pessoa se desenvolve o projeto de amor divino dado a todos".
De um modo ou de outro, muitas religiões e caminhos espirituais, tanto antigas tradições orientais, como as culturas indígenas e negras, embora com termos diversos e através de seus mitos próprios, apostam em uma visão de esperança como a confiança lúcida e operante na realização progressiva dos desígnios divinos para o mundo. Há quem prefira chamar esta esperança de fé.
A própria Bíblia diz: "Pela fé, Abraão partiu, sem saber para onde ia" (Hb 11, 8 ss). Assim, para a fé judaica e cristã, a esperança significa viver, no aqui e agora, uma confiança na promessa divina que se concretiza em uma atitude de construir o futuro. A promessa divina é raiz de esperança porque ela se compromete com a mudança da história. A promessa só tem sentido quando muda o rumo dos acontecimentos e nos faz apostar no contrário de todos os prognósticos racionais. Na Bíblia, a promessa divina é assim: abre o útero das estéreis e reinverte a ordem vigente. Derruba os poderosos e eleva os pequenos. Assim, ela dá à esperança uma raiz própria: a confiança amorosa no futuro que se abre para nós. Podem acontecer coisas terríveis. Pode ser que não tenhamos respostas para as grandes questões da existência. Apesar disso, optamos por confiar que a vida tem sentido e é possível construir para a humanidade e para o planeta Terra um futuro mais feliz.
Fora do ambiente das tradições espirituais, a esperança ainda precisa de mais fortes razões para se justificar e se alimentar. Apenas uma análise lúcida da realidade social do mundo e do estado frágil e ameaçado do planeta Terra podem dar pouco lugar à esperança. A esperança não pode dispensar os dados objetivos da realidade, mas se alimenta de razões que vão além da conjuntura social e política. A convicção de que o próprio progresso da história e o desenvolvimento natural do Capitalismo acabarão conduzindo a sociedade ao Socialismo científico não tem sido verificada. Ao menos desta forma direta e quase positivista. Existem também escolas humanistas que apostam na bondade fundamental do ser humano e de sua capacidade de conduzir a história para o bem. A fronteira entre uma opção lúcida de esperança e uma confiança ingênua ou até alienada é muito tênue. De qualquer forma, Dom Hélder Câmara tem razão, sempre podemos descobrir razões para esperar e agir em função da esperança, criança brincalhona que acorda a casa e mostra o sol que nasce.
Guimarães Rosa dizia que "esperar é reconhecer-se incompletos". Filósofos como Robert Solomon, com sua proposta de "Espiritualidade para Céticos" (1), propõem uma espécie de ética que, sem precisar de nenhuma religião, se constrói como caminho espiritual, grávido de esperança. Trata-se de uma reflexão apaixonada pela vida que se concretiza na relação com a natureza, no gosto da música e no diálogo consigo mesmo e com os outros, além da intensificação da solidariedade com todos os seres humanos e com o universo.
Em uma sociedade pluralista, mesmo quem recebe de sua fé religiosa raízes de esperar é chamado a justificar sua esperança, não mais em linguagem mítica e acessível apenas à comunidade dos iniciados, mas de forma que possa ser acolhida por qualquer pessoa humana. Já no final do primeiro século de nossa era, um documento cristão dizia às comunidades uma palavra que pode ser traduzida como: "Estejam sempre prontos/as a dar, a quem lhes pedir, as razões da esperança que vivem" (1 Pd 3, 15). Este compromisso supõe que se dêem as razões da esperança na linguagem e cultura de quem pede este testemunho. Na primeira metade do século XX, Theillard de Chardin procurou traduzir sua fé de que o futuro do universo é a divinização do ser humano e de todos os seres vivos em termos científicos. Hoje, a organização dos movimentos populares e indígenas em todo o continente podem ser mediações desta esperança maior. O fortalecimento da sociedade civil internacional em fóruns por um novo mundo possível testemunha esta esperança exigente. Quem melhor precisou o coração desta esperança parece ter sido Dom Pedro Casaldáliga ao escrever um poema, cujos termos, se olhamos bem, quase parece contraditórios, mas são indicadores desta sábia razão de esperar: "Saber esperar, sabendo, ao mesmo tempo, forçar as horas daquela urgência que não permite esperar".
Nota:
(1) ROBERT SOLOMON, Espiritualidade para Céticos, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2006.


*Monge beneditino, teólogo e escritor.

10 de dezembro de 2007

Casas Mortas, Casas Vivas

Sua casa é viva ou morta? A pergunta soa estranha, com certeza.
E você logo responderá que casa é algo inanimado.
A casa é feita de pedras, tijolos, madeira, portanto, não tem vida.
Entretanto, casas existem que são mortas.
Você as adentra e sente em todos os cômodos a inexistência de vida.
Sim, dentro delas habitam pessoas, famílias inteiras.
Mas são aquelas casas em que quase tudo é proibido.
Tudo tem que estar tão arrumado, ajeitado, sempre, que não se pode sentar no sofá porque se está arriscando sujar o revestimento novo e caro.
Casas em que o quarto das crianças é impecável.
Todos os bichinhos de pelúcia, por ordem de cor e tamanho, repousam nas prateleiras.
Essas casas são frias. Pequenas ou imensas, carecem do calor da descontração, da luz da liberdade e da iluminada possibilidade de dentro delas se respirar, cantar, viver. Por isso mesmo parecem mortas.
As casas vivas já demonstram, desde o jardim, que nelas existe vibração e alegria.
No gramado, a bola quieta fala da existência de muitos folguedos. A bicicleta, meio deitada, perto da garagem, diz que pernas infantis até há pouco a movimentaram com vigor.
Em todos os cômodos se reflete a vida. No sofá, um ursinho de pelúcia denuncia a presença de um pequenino irrequieto que carrega a sua preciosidade por todos os cantos.
Na saleta, livros, cadernos e lápis dizem dos estudos que se repetem durante horas.
O dicionário aberto, um marcador de páginas assinalando uma mensagem preciosa falam de pesquisa e leitura atenciosa.
A cozinha exala a mensagem de que ali, a qualquer momento, pode chegar alguém e se servir de um copo d’água, um café, um pedaço de pão.
Os quartos traduzem a presença dos moradores.
Cores alegres nas cortinas, janelas abertas para que o sol entre em abundância.
Os travesseiros um pouco desajeitados deixam notar que as crianças os jogam, vez ou outra, umas contra as outras, em alegres brincadeiras. Enfim, as casas vivas são aquelas em que as pessoas podem viver com liberdade. O que não quer dizer com desordem.
As casas vivas são aquelas nas quais os seus moradores já descobriram que elas foram feitas para morar, mas sobretudo para se viver.
Se estabelecemos, em nosso lar, rígidas regras de comportamento para que tudo esteja sempre impecável, como se pessoas ali não vivessem, estamos demonstrando que o mais importante são as coisas, não as pessoas.
Manter o asseio, a ordem é correto. Escravizar-se a detalhes, temer por estragos significa exagerado apego a coisas que, em última análise, somente existem em função das pessoas.
Transforme sua casa, pequena, de madeira, uma mansão, num lugar agradável de se retornar, de se viver, de se conviver com a família, os amigos, os amores. Coloque sinais de vida em todos os aposentos.
Disponha flores nas janelas para que quem passe, possa dizer:
Esta é uma casa viva. É um lar.

BOA SEMANA!

9 de dezembro de 2007

A moda Deus

Leonardo Boff*

Hoje o tema de Deus está em alta. Alguns em nome da ciência pretendem negar sua existência como o biólogo Richard Dawkins com seu livro Deus, um delirio (São Paulo 2007). Outros como o Diretor do Projeto Genoma, Francis Collins com o sugestivo título A linguagem de Deus (São Paulo 2007) apresentam as boas razões da fé em sua existência. E há outros no mercado como os de C.Hitchens e S.Harris.
No meu modo de ver, todas estes questionamentos laboram num equívoco epistemológico de base que é o de quererem plantar Deus e a religião no âmbito da razão.
O lugar natural da religião não está na razão, mas na emoção profunda, no sentimento oceânico, naquela esfera onde emergem os valores e as utopias. Bem dizia Blaise Pascal, no começo da modernidade:"é o coração que sente Deus, não a razão"(Pensées frag. 277). Crer em Deus não é pensar Deus mas sentir Deus a partir da totalidade do ser.
Rubem Alves em seu Enigma da Religião (1975) diz com acerto:"A intenção da religião não é explicar o mundo. Ela nasce, justamente, do protesto contra este mundo descrito e explicado pela ciência. A religião, ao contrário, é a voz de um consciência que não pode encontrar descanso no mundo tal qual ele é, e que tem como seu projeto transcendê-lo".
O que transcende este mundo em direção a um maior e melhor é a utopia, a fantasia e o desejo. Estas realidades que foram postas de lado pelo saber científico voltaram a ganhar crédito e foram resgatadas pelo pensamento mais radical inclusive de cunho marxista como em Ernst Bloch e Lucien Goldman. O que subjaz a este processo é a consciência de que pertence também ao real o potencial, o virtual, aquilo que ainda não é mas pode ser. Por isso, a utopia não se opõem à realidade. É expressão de sua dimensão potencial latente. A religião e a fé em Deus vivem desse ideal e desta utopia. Por isso, onde há religião há sempre esperança, projeção de futuro, promessa de salvação e de vida eterna. Elas são inalcançáveis pela simples razão técnico-científica que é uma razão encurtada porque se limita aos dados sempre limitados. Quando se restringe apenas a essa modalidade, se transforma numa razão míope como se nota em Dawkins. Se o real inclui o potencial, então com mais razão o ser humano, cheio de ilimitadas potencialidades. Ele, na verdade, é um ser utópico. Nunca está pronto, mas sempre em gênese, construindo sua existência a partir de seus ideais, utopias e sonhos. Em nome deles mostrou o melhor de si mesmo.
É deste transfundo que podemos recolocar o problema de Deus de forma sensata. A palavra-chave é abertura. O ser humano mostra três aberturas fundamentais: ao mundo transformando-o, ao outro se comunicando, ao Todo, captando seu caráter infinito, quer dizer, sem limites.
Sua condition humaine o faz sentir-se portador de um desejo infinito e de utopias últimas. Seu drama reside no fato de que não encontra no mundo real nenhum objeto que lhe seja adequado. Quer o infinito e só encontra finitos. Surge então uma angústia que nenhum psicanalista pode curar. É daqui que emerge o tema Deus. Deus é o nome, entre tantos, que damos para o obscuro objeto de nosso desejo, aquele sempre maior que está para além de qualquer horizonte.
Este caminho pode, quem sabe, nos levar à experiência do cor inquietum de Santo Agostinho:"meu coração inquieto não descansará enquanto não repousar em ti"
A razão que acolhe Deus se faz inteligência que intui para além dos dados e se transforma em sabedoria que impregna a vida de sentido e de sabor.


* Teólogo e professor emérito de ética da UERJ

7 de dezembro de 2007

Os dois sentidos da menoridade

Maria Clara Lucchetti Bingemer*

Nunca pensaria em sair desta maneira do anonimato que sempre foi sua morada. Jamais sequer sonhou que pudesse ser notícia de jornal. Exilada do mundo da lei, da ordem, dos direitos, ela seguia vida afora, empurrada pela desgraça e pelo anonimato. A pobreza, o abandono, a dificuldade eram seu pão de cada dia. A boca faminta não conseguia alimentar o corpo de menina começando a virar moça de forma abrupta e tremenda.
A fome, a pobreza, a errância a fizeram ir parar no mundo dos furtos. Estendeu a mão e pegou. Depois saiu correndo. Magrinha e ágil ia mais rápido. Até que um dia foi pega, autuada e presa. Além de ser surpreendida em furto, estava sem carteira de identidade. Era apenas uma menina sem nome, sem sobrenome, sem direitos. Ela, que pensava não haver mais sofrimento do que aquele que já enfrentava diariamente, descobriu que tudo ainda podia ser e ficar muito pior.
Em Abaetetuba, lugar perdido no mapa do Pará, foi trancafiada em uma cela com mais de 20 homens. Ali ficou por mais de um mês, segundo depoimento dos próprios detentos. Uma denúncia ao Conselho Tutelar trouxe seu caso à luz. O Conselho acionou o Ministério Público e o Juizado da Infância e da Adolescência. Sua triste história saiu do anonimato e da escuridão dos porões da carceragem masculina para ganhar a mídia e horrorizar o país.
Em Abaetetuba, como em muitas outras cidades brasileiras, não há carceragem feminina. Não havia, portanto, lugar onde colocar aquela menina presa em flagrante e que ainda por cima andava sem documentos. A solução foi jogá-la no presídio masculino. Isto, segundo a polícia civil, é o procedimento "normal". Assim como ela, outras passaram e ainda passarão por esta situação. Durante mais de um mês, serviu de pasto à libido desenfreada dos presos, que só não se serviam de seu corpo às quintas feiras, quando recebiam a visita das esposas.
Ao contrário do que acontece com outras crianças, para ela a sexta feira não anunciava o fim de semana de lazer e repouso. Mas sim o início de mais uma semana de dor, humilhação, violência e agressão. Contrariando a ética das prisões, segundo a qual estuprador não sobrevive nos cárceres, todos se uniram contra ela. Examinada, apresentou escoriações em várias partes do corpo e evidências de abuso sexual.
Em ridícula tentativa de mascarar a gravidade do ocorrido, o delegado geral da Polícia Civil do Pará, Raimundo Benassully, declarou ser a menor débil mental, por não ter declarado imediatamente sua menoridade. Felizmente, a governadora do estado retrucou que não há justificativa para o que aconteceu. E o presidente da OAB chamou o caso de "hediondo e intolerável".
Embora pobre, sem documentos e culpada de furto, ela é uma cidadã. Maior ou menor de idade, tem direitos e a lei existe para protegê-la. Sendo menor, ainda mais. O Estado tem obrigação de zelar pela integridade física e mental de suas crianças e jovens. Submeter uma menina que tem entre 15 e 17 anos a tamanho constrangimento é repugnante sob todos os pontos de vista.
Segundo o dicionário, "menor" é a pessoa que ainda não atingiu a maioridade, ou seja, a idade de 21 anos, quando pode ser plenamente responsável por seus atos. Mas há outra definição de "menor": hierarquicamente inferior, subordinado, subalterno. Ela se enquadra em todas as categorias: pela pouca idade, pela inferioridade e a subordinação que merecem sua condição e seu sexo: é pobre e, além de tudo, é mulher.
O sistema penitenciário inadequado e iníquo completou o quadro. Jogou-a na mesma cela que 20 presos homens. Vivendo em condições subumanas, estes violaram repetida e cruelmente sua fragilidade. Para sempre ela levará as marcas dessa dupla menoridade cronológica e antropológica. Que pelo menos seu sacrifício sirva para que o Brasil preste mais atenção ao que está fazendo com seu futuro ao tratar assim suas crianças e seus jovens


* teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio

Os dois sentidos da menoridade

Maria Clara Lucchetti Bingemer*

Nunca pensaria em sair desta maneira do anonimato que sempre foi sua morada. Jamais sequer sonhou que pudesse ser notícia de jornal. Exilada do mundo da lei, da ordem, dos direitos, ela seguia vida afora, empurrada pela desgraça e pelo anonimato. A pobreza, o abandono, a dificuldade eram seu pão de cada dia. A boca faminta não conseguia alimentar o corpo de menina começando a virar moça de forma abrupta e tremenda.
A fome, a pobreza, a errância a fizeram ir parar no mundo dos furtos. Estendeu a mão e pegou. Depois saiu correndo. Magrinha e ágil ia mais rápido. Até que um dia foi pega, autuada e presa. Além de ser surpreendida em furto, estava sem carteira de identidade. Era apenas uma menina sem nome, sem sobrenome, sem direitos. Ela, que pensava não haver mais sofrimento do que aquele que já enfrentava diariamente, descobriu que tudo ainda podia ser e ficar muito pior.
Em Abaetetuba, lugar perdido no mapa do Pará, foi trancafiada em uma cela com mais de 20 homens. Ali ficou por mais de um mês, segundo depoimento dos próprios detentos. Uma denúncia ao Conselho Tutelar trouxe seu caso à luz. O Conselho acionou o Ministério Público e o Juizado da Infância e da Adolescência. Sua triste história saiu do anonimato e da escuridão dos porões da carceragem masculina para ganhar a mídia e horrorizar o país.
Em Abaetetuba, como em muitas outras cidades brasileiras, não há carceragem feminina. Não havia, portanto, lugar onde colocar aquela menina presa em flagrante e que ainda por cima andava sem documentos. A solução foi jogá-la no presídio masculino. Isto, segundo a polícia civil, é o procedimento "normal". Assim como ela, outras passaram e ainda passarão por esta situação. Durante mais de um mês, serviu de pasto à libido desenfreada dos presos, que só não se serviam de seu corpo às quintas feiras, quando recebiam a visita das esposas.
Ao contrário do que acontece com outras crianças, para ela a sexta feira não anunciava o fim de semana de lazer e repouso. Mas sim o início de mais uma semana de dor, humilhação, violência e agressão. Contrariando a ética das prisões, segundo a qual estuprador não sobrevive nos cárceres, todos se uniram contra ela. Examinada, apresentou escoriações em várias partes do corpo e evidências de abuso sexual.
Em ridícula tentativa de mascarar a gravidade do ocorrido, o delegado geral da Polícia Civil do Pará, Raimundo Benassully, declarou ser a menor débil mental, por não ter declarado imediatamente sua menoridade. Felizmente, a governadora do estado retrucou que não há justificativa para o que aconteceu. E o presidente da OAB chamou o caso de "hediondo e intolerável".
Embora pobre, sem documentos e culpada de furto, ela é uma cidadã. Maior ou menor de idade, tem direitos e a lei existe para protegê-la. Sendo menor, ainda mais. O Estado tem obrigação de zelar pela integridade física e mental de suas crianças e jovens. Submeter uma menina que tem entre 15 e 17 anos a tamanho constrangimento é repugnante sob todos os pontos de vista.
Segundo o dicionário, "menor" é a pessoa que ainda não atingiu a maioridade, ou seja, a idade de 21 anos, quando pode ser plenamente responsável por seus atos. Mas há outra definição de "menor": hierarquicamente inferior, subordinado, subalterno. Ela se enquadra em todas as categorias: pela pouca idade, pela inferioridade e a subordinação que merecem sua condição e seu sexo: é pobre e, além de tudo, é mulher.
O sistema penitenciário inadequado e iníquo completou o quadro. Jogou-a na mesma cela que 20 presos homens. Vivendo em condições subumanas, estes violaram repetida e cruelmente sua fragilidade. Para sempre ela levará as marcas dessa dupla menoridade cronológica e antropológica. Que pelo menos seu sacrifício sirva para que o Brasil preste mais atenção ao que está fazendo com seu futuro ao tratar assim suas crianças e seus jovens


* teóloga, professora e decana do Centro de Teologia e Ciências Humanas da PUC-Rio

4 de dezembro de 2007

pequena poesia

Como dizia o poeta

Quem já passou por essa vida e não viveu

Pode ser mais, mas sabe menos do que eu

Porque a vida só se dá pra quem se deu

Pra quem amou, pra quem chorou, pra quem sofreu

Ah, quem nunca curtiu uma paixão nunca vai ter nada, não

Não há mal pior do que a descrença

Mesmo o amor que não compensa é melhor que a solidão

Abre os teus braços, meu irmão, deixa cair

Pra que somar se a gente pode dividir

Eu francamente já não quero nem saber

De quem não vai porque tem medo de sofrer

Ai de quem não rasga o coração, esse não vai ter perdão

Quem nunca curtiu uma paixão, nunca vai ter nada, não

Vinícius de Moraes

1 de dezembro de 2007

A compaixão e a felicidade humana

Jung Mo Sung*

Na nossa vida sempre encontramos ou cruzamos com pessoas que estão sofrendo por algum motivo. Nestes momentos todos nós somos, de um modo ou outro, tocados pelo sofrimento alheio. Isto se chama compaixão.
Para entendermos isto melhor, quero narrar uma conversa que eu tive com uma pessoa alguns anos atrás. Estávamos saindo de um banco, bem no centro velho de São Paulo, quando vimos na rua pessoas pobres pedindo esmola. Ela me disse: "eu não gosto de vir aqui para centro por causa destas cenas que me deprimem. O centro está carregado de energias negativas e toda vez que eu venho aqui saio carregado desta negatividade e mesmo quando volto para minha casa eu sinto um certo peso, um certo mal estar".

Eu não quero discutir aqui se a expressão "energias negativas" é a melhor para expressar o ambiente como aquele, mas o que eu posso dizer com certeza é que esta pessoa foi tocada pelo sofrimento daquelas pessoas pobres, algumas com crianças pequenas. O fato de ela sentir esta "energia negativa" até mesmo quando estava no conforto e segurança da sua casa (que devia ser muito boa) mostra que ela costumava ser tocada com certa profundidade e não sabia bem como lidar com isto. Mesmo as pessoas mais insensíveis são tocadas pelos sofrimentos de outras pessoas. Uma comprovação disso é que elas reagem de alguma forma a este tipo de contato, mesmo que seja apenas para virar a cabeça. Este virar a cabeça para não ver o rosto de uma pessoa que sofre mostra que foi tocada. Ninguém é completamente insensível ao sofrimento de outras pessoas.

Hoje diversos experimentos científicos estão mostrando que esta é uma característica da espécie humana. Nós somos de uma espécie que é capaz de se colocar no lugar do outro para compreender a intenção da outra pessoa e compreender o que quer dizer ou comunicar; assim como também somos capazes de nos colocar no lugar da pessoa que está nos sorrindo para entendermos - algumas vezes de forma meio equivocada - o sentido daquele sorriso para nós. Isto funciona também diante de uma pessoa que sofre. Eu me coloco no lugar desta pessoa para poder compreender o sentimento de dor que se expressa no rosto dela ou em algum outro gesto. Ao me colocar no lugar do outro, para compreendê-lo, eu sinto o sofrimento com a pessoa que sofre.

A diferença entre as pessoas se dá na reação a esta experiência de compaixão. A dor e o sofrimento da outra pessoa me lembra os meus medos, inseguranças e sofrimentos que eu não quero me lembrar. Com isso, eu posso me fechar para a dor do outro para reprimir a minha dor e esquecer dos meus medos e inseguranças; ou então me permitir sentir a compaixão e assim tomar contato com as minhas dores, os meus sofrimentos e medos. É preciso muita força espiritual e também coragem para enfrentar as minhas dores mais fundas. Permanecer na compaixão não revela fraqueza ou de "pieguice" de uma pessoa, pelo contrário, é sinal da sua força emocional e espiritual.

Reprimir o sentimento inevitável da compaixão é reprimir uma parte do "eu" que está nas profundezas do meu ser. Em outras palavras, quem nega o sentimento de compaixão não pode se conhecer e, por isso, nem consegue encontrar uma "solução" para os seus problemas que foram escondidos, empurrados e trancados no mais fundo de si. Quem não é capaz de permanecer no sentimento de compaixão, não consegue viver uma vida feliz porque tenta negar a sua própria "natureza humana".

É por isso que pessoas como Dalai Lama dizem que a felicidade depende da compaixão, e que para desenvolver o sentimento de compaixão precisamos cultivar qualidades como "amor, paciência, tolerância, capacidade de perdoar, humildade e outras" e também "o hábito de uma disciplina interior".

Quando sentimos a compaixão, desejamos que os sofrimentos das outras pessoas cessem, não só porque as amamos ou acreditamos que elas têm direito a uma vida mais digna e humana, mas também para que os nossos sofrimentos resultantes da compaixão sejam aliviados. Neste processo sentimo-nos compelidos a fazer algo para mudar a situação, assim como também incluímos no nosso horizonte de futuro desejado a superação das situações que causam estes sofrimentos. Abertura ao sofrimento alheio que nos permite tomar contato com os nossos sofrimentos e medos, a esperança de um futuro onde estes problemas foram solucionados e ações concretas que nos dão convicção firme de que estamos, dentro das possibilidades, fazendo a coisa certa para caminharmos em direção a este futuro desejado são elementos fundamentais de uma vida feliz.

Compaixão e amor encarnado em ações concretas - que buscam superar situações de opressão, dominação, marginalização, exploração ou exclusão que geram sofrimentos de tanta gente - são elementos fundamentais tanto para uma vida pessoal quanto para uma sociedade mais humana. Não se pode ser feliz sendo insensível a tanto sofrimento e dor.

É claro que não devemos cair na tentação e pressão de sermos perfeitamente compassivos e capazes de ações perfeitas e plenas para "salvar" o mundo. Só na medida em que aceitamos a nossa dificuldade é que poderemos viver e fazer o que podemos de fato.

Compaixão, responsabilidade e solidariedade são valores fundamentais para salvarmos o mundo e as nossas vidas do cinismo, da indiferença e da desumanização.

Mesmo que a nossa vida e o mundo não se transformem na intensidade e na velocidade dos nossos desejos, sabemos que nossas ações transformam ou modificam para melhor, não somente a vida de outras pessoas, mas também a nós mesmos.

Elie Wiesel nos oferece uma pérola do pensamento talmúdico sobre isto: "A caridade salva da morte. [...] O que é a caridade? Os vivos devem se preocupar com a tristeza ou doença do próximo. Quem não se preocupa não é realmente sensível; quem não é sensível não está realmente vivo. E este é o significado do apelo do shammash: a caridade nos livra de morrer em vida".

[Autor de, entre outros, "Um caminho espiritual para felicidade"].


* Professor de pós-grad. em Ciências da Religião da Univ. Metodista de S. Paulo e autor de Sementes de esperança: a fé em um mundo em crise