29 de novembro de 2007

Mulheres: Sem medo de denunciar*

*Por Iolanda Toshie Ide

Brutalmente assassinadas pelo ditador Rafael Leônidas Trujillo, da República Dominicana, as irmãs Mirabal Minerva, Maria Tereza e Pátria Mirabal são justamente lembradas pra marcar a campanha 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres. Essa campanha inicia-se exatamente na data do assassinato delas: 25 de novembro (1960).
Às vésperas do início da edição anual desta campanha, a divulgação da informação de que uma jovem atirada à prisão para ser torturada por estupros por parte de presos na mesma cela causa indignação e merece um público e veemente repúdio.
Quando nos perguntam sobre os avanços conquistados pelas mulheres desde a segunda metade do século XX, nunca fizemos um balanço otimista. O aumento significativo do ingresso de mulheres nos cursos superiores e a participação no mundo do trabalho formal faz parecer que se avançou muito. No entanto, não engendrou salários iguais aos dos homens mesmo quando a escolaridade da mulher é maior, sem falar no peso da dupla jornada. Entretanto, como ocorreu em Abaetetuba (e não é só lá) é revoltante ver o estado lançar mulheres nas celas junto a vários homens sabendo que serão estupradas.
No início do horário de verão, um homem feriu a esposa por ela não ter atrasado o relógio. Um rapaz ameaçou invadir a escola onde estuda uma jovem que ele desejava que fosse sua namorada, ameaçando-a. Um outro rapaz, não quis aceitar o rompimento com a namorada. Foi até o município onde ela estudava, abordou-a na entrada da faculdade matando-a. Um homem chegou em casa, quebrou móveis e louças, empurrou a esposa e suas duas filhas (de menos de 10 anos de idade) para fora de casa e se trancou para dormir: as três ficaram na rua durante toda a noite.
Quantas mulheres, ao longo da história foram impedidas de votar e de estudar. Mas isto não é coisa do passado. No dia 6 de dezembro de 1989, um estudante irrompeu na Escola politécnica de Montreal (Canadá) e atirou nas mulheres. Não aceitava que as jovens adentrassem nos cursos de engenharia dizendo elas roubavam as vagas dos homens. Atirou furiosamente assassinando 14 mulheres. Daí surgiu a Campanha do Laço Branco pela qual homens se engajam mobilizando-se pelo fim da violência contra a mulher.
- a cada minuto, 4 mulheres são espancadas;- em cada 10 casos registrados, 7 têm como agressor o marido, namorado, ex-companheiro, pai e parentes;- a cada 9 segundos, uma mulher é ofendida na sua conduta sexual;
A campanha pelo fim da violência contra as mulheres que de 25 de novembro a 10 de dezembro ocorre simultaneamente em mais de 130 países, necessita, pois, de muita garra. A Secretaria Especial de Políticas para Mulheres disponibilizou o telefone gratuito 180 para orientar as mulheres, funcionando 24 horas, inclusive nos sábados e domingos.
O patriarcalismo ainda está vivo: houve juiz que ousasse pronunciar-se contra a Lei Maria da Penha (Lei nº11.340) considerando-a inconstitucional. Estamos nos empenhando na direção contrária, divulgando a lei, incentivando as mulheres para que denunciem seus agressores, sem medo. Quem deve ter medo é o agressor. É preciso que a Lei nº 11.340 saia do papel. Afinal, uma vida sem violência é nosso direito.

28 de novembro de 2007

A DOR QUE DÓI MAIS

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade de uma cachoeira da infância.
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais.
Saudade do pai que já morreu.
Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas. Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã.
Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno.
Não saber mais se ela continua clareando o cabelo.
Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu.
Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu.
Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.Saudade é não saber.
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.Saudade é não querer saber.
Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

Martha Medeiros

Quem Sabe um Dia

Quem Sabe um Dia
Quem sabe um dia
Quem sabe um seremos
Quem sabe um viveremos
Quem sabe um morreremos!
Quem é queQuem é macho
Quem é fêmeaQuem é humano, apenas!
Sabe amar
Sabe de mim e de si
Sabe de nósSabe ser um!
Um dia
Um mês
Um ano
Um(a) vida!
Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois
Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois
Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois
Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois

Mário Quintana

27 de novembro de 2007

A espiritualidade no conflito

Antônio Mesquita Galvão*

As pessoas, em geral, têm dificuldade de compreender o sentido da palavra "espiritualidade". E é justamente por causa desse equívoco que não conseguem desenvolver adequadamente um cristianismo eficaz, de acordo com seu estado de vida. Muitos a confundem com "espiritismo" ou "espiritualismo" e apontam para algum modo de vida espiritual, sem saber conceituar nem tampouco ava-liar como se desenvolve esse tipo de vivência. Por ser a espiritualidade uma forma muito rica de relação com Deus, ela aponta para um estilo de vida. De vida cristã.
O grande desafio da espiritualidade cristã é compatibilizar uma vida voltada para os apelos do Espírito na ambigüidade da vida material a que todos estão sujeitos. Não é possível a ninguém, alienar-se de sua vida material, social, pro-fissional, familiar, política, etc. É justamente nessas circunstâncias de nossa existência que devemos nos encontrar com Deus, sem fugir do mundo, mas relacionando-nos com o Infinito conforme nosso estado de vida. Reside aí o de-safio: viver uma vida cristã, espiritualizada e voltada para o alto, sem furtar-se à vida material e à dimensão sócio-fraterna inerente a esse tipo de vida.
É fundamental que se insista na necessidade que os cristãos têm, cada vez mais, de descobrirem eles próprios os caminhos de sua espiritualidade, de a-cordo com a forma de vida abraçada por cada um, sem que um queira viver em sua vida o tipo de espiritualidade do outro, ou simplesmente se omitindo. Deus quer que eu me envolva com ele, sem, no entanto, fechar os olhos à injustiça que sofre o irmão, o vizinho, o companheiro de caminhada. Essa opressão é uma tônica gritante fora do âmbito das grandes capitais do Sul-Sudeste. Em tudo ocorrem conflitos e desacertos. Na psicologia, vemos conflito, segundo as teorias behavioristas, como um "estado provocado pela coexistência de dois es-tímulos que disparam reações mutuamente excludentes". Simplificando, há quem defina, igualmente como "profunda falta de entendimento entre duas ou mais partes". A vida humana, e a existência dos cristãos não está imune, ocor-re no meio dos conflitos.
No meio das comunidades, especialmente no interior do país, ocorre a grilagem e o choque com os posseiros, contrastando com o coronelismo, a extração irre-gular de madeira e minérios, a falta de demarcação de terras indígenas, amea-ças ao meio-ambiente, doenças e endemias tropicais, subemprego, violência (e não-raro mortes) contra sindicalistas, líderes comunitários e ministros da Igre-ja. Isto sem falar nos "reflorestamentos" de árvores que só produzem celulose, plantações de maconha, etc. A isto se soma a falta de saneamento básico, um sistema educacional deficiente e famílias que se desestruturam por problemas sociais, econômicos e de migração compulsória. Há, por causa desses conflitos, uma perda de fé e de referenciais humanos.
Tudo deve ter início, a partir da iluminação da fé, pela Palavra de Deus, numa formação bíblica e doutrinária adequada, assim como a descoberta de uma ní-tida consciência crítica, não jungida a outros modelos de vida cristã, mas ade-quados à vida concreta de cada pessoa, conforme sua missão no meio do mun-do. Sendo a espiritualidade a forma como nos relacionamos com Deus, é impor-tante que deixemos de lado certo tipo de cristianismo desvinculado com a vida e o mundo, demasiadamente angelista, sem o compromisso com as transfor-mações que o evangelho de Jesus não cansa de nos exortar.
Toda a religião vivida de modo alienado torna-se alienante, para quem a pratica e para tantos quantos interajam com pessoas que assim atuam. Além disto, a vivência de uma espiritualidade incoerente é capaz de, pelo negativo do teste-munho, desviar muitas pessoas do caminho reto, da amizade com Deus, da Igreja e do serviço aos irmãos. Os profetas davam alento ao povo sofredor por causa da coragem de seu testemunho e de suas denúncias.
Para quem conhece o Brasil fica a constatação da existência de um conflito, entre o ser-cristão de muitos e a figura paulina do "espírito do mundo". O con-flito se instala, muitas vezes, dentro das Igrejas, com motivação político-ideológica, social e por causa da busca da busca de poder, intentada por de-terminados grupos. Para quem, como eu, reside no Sul do país, onde se vive sob o foco de uma religião de corte germânico, burocrática, sacramentalista, demasiadamente hierárquica, que forma uma "Igreja sentada", estática, pouco missionária e, geralmente acomodada, muitas facetas do conflito passam des-percebidas. No Norte e Nordeste do Brasil viver a fé é estar no meio do conflito, pois os obstáculos, como a natureza hostil, as pressões políticas, o descaso ofi-cial e as ameaças dos poderes sociais criam nas pessoas, especialmente po-dres, humildes e sem voz, faz emergir a necessidade de um profetismo militan-te. A convivência com os negros e os índios, cada um segregados à sua manei-ra, a sobrevivência sob o tacão da opressão, seja ela representada pelo patrão, pelo senhor dos engenhos ou do latifúndio, impõe a cada um, certas necessi-dades de viver a fé, de relacionar-se com Deus, organizando-se, fomentando um espírito crítico, sem apelar para a violência e sem a tentação de quebrar os paradigmas da paz e do perdão. A própria Justiça, que em tese deveria ser ce-ga, dispensa a cada grupo um quinhão proporcional a sua representatividade social. Querendo devolver olho-por-olho as injustiças sofridas, muitos abando-nam a fé, por não saberem desenvolver uma "espiritualidade no conflito". Em alguns lugares do Brasil, os crentes vivem uma espiritualidade cômoda, sem riscos; em outros, têm que desenvolvê-la no meio do conflito.
Só uma espiritualidade discernida e orientada pela Palavra é capaz de nortear os rumos de quem insiste em ser cristão e viver sua fé no meio do conflito que, por exemplo, nas regiões mais ínvias, é permanente.

*Doutor em Teologia Moral


26 de novembro de 2007

Lula No País das Maravilhas II

Ética e Reforma Política

Frei Betto*

A "ética" neoliberal se reduz às virtudes privadas dos indivíduos. Ignora a visão de institucionalidade ética. Reforça, assim, a atitude paralisante do moralismo, que a reduz à ilusória perfeição individual. Ora, se a sociedade é estruturada, a ética é imprescindível para se configurar o mundo histórico. Portanto, exige uma teoria política normativa das instituições que regem a sociedade.
Não basta falar em ética na política. A crítica às instituições geradoras de injustiças e negadoras de direitos exige ética da política. Abrir espaços para a criação de novos direitos. As instituições devem garantir a justiça distributiva - a partilha dos bens a que todos têm direito -, e a justiça participativa, a presença de todos (democracia) no poder que decide os rumos da sociedade.
O grande desafio ético hoje é como criar instituições capazes de assegurar direitos universais. Isso supõe uma ruptura com a atual visão pós-moderna, neoliberal, de fragmentação do mundo e exacerbação egolátrica, individualista.
Ainda que o ser humano tenha defeito de fabricação e prazo de validade, o que o Gênesis chama de "pecado original", há que se instaurar uma institucionalidade política capaz de assegurar direitos e impedir ameaças à liberdade e à natureza. Isso implica suscitar uma nova cultura inibidora dessas ameaças, assim como ocorre hoje em relação à escravidão, embora ainda praticada.
De onde tirar valores éticos universalmente aceitos? Como levar as pessoas a se perguntarem por critérios e valores? Hans Küng sugere que uma base ética mínima deve ser buscada nas grandes tradições religiosas. Seria o modo de passarmos de éticas regionais a uma ética planetária. Mas como aplicá-la ao terreno político? Mudar primeiro a sociedade ou as pessoas? O ovo ou a galinha?
Inútil dar um passo atrás e fixar-se na utopia do controle do Estado como precondição para transformar a sociedade. É preciso, antes, transformar a sociedade através de conquistas dos movimentos sociais, e de gestos e símbolos que acentuem as raízes antipopulares do modelo neoliberal. Combinar as contradições de práticas cotidianas (empobrecimento progressivo da classe média, desemprego, disseminação das drogas, degradação do meio ambiente, preconceitos e discriminações) com grandes estratégias políticas.
É concessão à lógica autoritária admitir que o Estado seja o único lugar onde reside o poder. Este se alarga pela sociedade civil, os movimentos populares, as ONGs, a esfera da arte e da cultura, que incutem novos modos de pensar, de sentir e de agir, e modificam valores e representações ideológicas, inclusive religiosas.
"Não queremos conquistar o mundo, mas torná-lo novo", proclamam os zapatistas. Hoje, a luta não é apenas de uma classe contra a outra, mas de toda a sociedade contra um modelo perverso que faz da acumulação privada da riqueza a única razão de viver. A luta é da humanização contra a desumanização, da solidariedade contra a alienação, da vida contra a morte.
A crise da esquerda não resulta apenas da queda do Muro de Berlim. É também teórica e prática. Teórica, de quem enfrenta o desafio de construir um socialismo sem stalinismo, dogmatismo, sacralização de líderes e de estruturas políticas. E prática, de quem sabe que não há saída sem retomar o trabalho de base, reinventar a estrutura sindical, reativar o movimento estudantil, incluir em sua pauta as questões indígenas, étnicas, sexuais e ecológicas.
Neste mundo desesperançado, apenas a imaginação e a criatividade são capazes de livrar a juventude da inércia, a classe média do desalento, os excluídos do sofrido conformismo. Isso requer uma ideologia que resgate a ética humanista do socialismo de inspiração cristã e abandone toda interpretação escolástica da realidade. Sobretudo toda atitude que, em nome do combate à velha ordem, faz a esquerda agir mimeticamente ao incensar vaidades, apegar-se a funções de poder, ceder à corrupção, reforçar a antropofagia de grupos e tendências que se satisfazem em morder uns aos outros.
O pólo de referência de todos que pretendem alcançar "um outro mundo possível", em torno do qual precisam se unir, é somente um: os direitos dos pobres.


[Autor, em parceria com Paulo Freire e Ricardo Kotscho, de "Essa escola chamada vida" (Ática), entre outros livros].

Dois poemas

***
Outros ventos trouxeram nossas cicatrizes
Um suor me recobre, pesa nestes ombrosa flor de encontro dúbio. Assim perditanto em buscá-la, tanto em desfazer.
As mãos sobre as coxas, o sexo já confessado.
Tão poderosa e viva e assim tão puraa luminosidade dos azuis.
E aspirei contigo o perfume casto das cerejas,também desfeito. O matiz inseguro de tuas nuvens.
Fluorescência do âmbar:o segredo revelado, não te espantes.
E é o mesmo teu silêncio, amparando as estátuas.As que houvera na morte e o sonho de suas noites.



Os frutos
O tempo colhia os frutos sem alardena terra baixa, maduros de sementes.
Eu corria as ladeiras com meus olhosfreqüentes do passado, e as flores frias.
Dos muros de palavras retirávamosum punhado de hera, o cheiro seco.
Que invadia as manhãs pelas janelase nossos corações cheios de névoa.
Ele colhia os frutos. Nós, sem pressa,que o tempo madurou de outros silêncios.
Eu não me erguia ao alto da colinasobre um caixão de pedra, com medo.
De nosso território com seus prédiosenormes e homens baixos. Eles jogavam.


[Pablo Simpson]

22 de novembro de 2007

O lobby de católicos na Conferência Nacional de Saúde

Luiz Alberto Gómez de Souza*

Uma pressão de setores católicos, da CNBB à Pastoral da Criança, na 13ª Conferência Nacional de Saúde, encerrada em Brasília dia 18 de novembro, levou à rejeição de uma moção sobre a interrupção voluntária da gravidez. Isso faz lembrar os esforços, por anos, de setores católicos, liderados pelo deputado e padre Arruda Câmara, do PDC, contra o divórcio, embora este tenha sido posteriormente aprovado. No passado, setores oficiais da Igreja tinham feito campanhas contra a secularização dos cemitérios, pela obrigação de capelães nas Forças Armadas e pelo ensino religioso obrigatório, em debate acirrado com Anísio Teixeira e outros defensores da Escola Nova. Era sempre a dificuldade de aceitar uma sociedade pluralista e democrática, onde os princípios de uma religião não podem prevalecer sobre o conjunto da sociedade, com outros credos ou sem credo algum. Trata-se de uma postura intolerante, que encontramos até hoje em setores fundamentalistas do Islã dos aiatolás, dos integristas católicos ou do presidente Bush. Como leigo católico, quero manifestar aqui minha desconformidade diante de setores de minha própria Igreja.
Há muita confusão pelo caminho. Confunde-se descriminalização do aborto com a legalização do mesmo. O Uruguai, com forte tradição laica, acaba de aprovar a descriminalização. Mas, já faz anos, a Itália, considerada país católico, apesar de pressão do Vaticano, legalizou o aborto, assim como mais recentemente Portugal.
O ministro da Saúde propôs um amplo debate sobre o tema, considerando-o com razão um problema de saúde pública, além de ter implicações éticas. Opor-se a esse debate livre é uma atitude autoritária ou hipócrita, como definiu um funcionário do Ministério da Saúde. Estamos numa democracia e toda discussão é necessária, para criar uma opinião pública e reforçar a cidadania participante. Transcrevo parte da moção rejeitada: "Assegurar os direitos sexuais e reprodutivos, respeitar a autonomia das mulheres sobre seu corpo e reconhecer o aborto como problema de saúde pública e discutir sua descriminalização por meio de projeto de lei" (Proposta 37 do eixo 1). Vejam que o tema para discutir e preparar um futuro projeto de lei refere-se à descriminalização do aborto e não à sua legalização. Fica, aliás, um problema candente: como punir uma mulher que passou pela penosa, dolorosa, traumática e arriscada decisão?
A manchete de um jornal de 19 de novembro assinala: Aborto: Igreja derrota proposta do governo. Questão que nos encaminha ao ponto seguinte. Podemos dizer simplesmente Igreja, povo de Deus na definição do Vaticano II, em sua dimensão eclesial, ou deveríamos falar de setores eclesiásticos dominantes e oficiais? Não esqueçamos que a posição de Jesus nunca foi de aplicar leis punitivas, porém, cheio de misericórdia e de compaixão, fazer perguntas instigantes diante da mulher adúltera que ia ser lapidada ou, escandalizando os próprios discípulos, dialogar com a samaritana, que não seguia a religião dos judeus e que tinha tido sete homens em sua vida. As leis ficavam por conta dos fariseus formalistas.
Esse tema torna-se mais complexo, pois, se o analisarmos dentro da própria Igreja Católica, em todas as suas dimensões. Tenho falado inúmeras vezes de temas congelados dentro da mesma, que precisam ser reabertos ao debate, como o celibato obrigatório, a ordenação de homens casados e de mulheres - para permitir o acesso à Eucaristia a um número maior de fiéis - e os temas da sexualidade e da reprodução. Um bispo francês, Jacques Gaillot, que enfrentou esses temas foi afastado de sua diocese de Évreux e criou a diocese virtual de Partênia. O teólogo espanhol Juan Masiá, pela mesma razão, foi levado ao "silêncio obsequioso", como Leonardo Boff e Ivone Gebara, há uns anos atrás. Mudou-se para o Japão e um livro seu está sendo publicado em português (Encontros de bioética, Loyola, 2007). O debate está em pauta. Mas sabemos que antes de mudanças, aqueles que as temem, se fecham num rictus rígido, que não esconde uma posição defensiva, historicamente perdedora, contra a emergência do novo. Já no século XIX, um grande teólogo, convertido ao catolicismo, o futuro Cardeal J. H. Newman, falou do desenvolvimento da doutrina, que não é um legado imutável, mas que se vai desdobrando e esclarecendo aos poucos. Aliás, o mesmo teólogo, logo depois do concílio Vaticano I, quando foi definida a infalibilidade papal, isolada de uma visão de Igreja mais ampla (que o Vaticano II completaria, no documento De Ecclesia), escreveu a um amigo angustiado: "Pio (IX) não é o último dos papas... Tenhamos paciência e confiança, um novo papa e um novo concílio polirão a obra" (carta de 3/4/1871). Poderíamos aplicar a mesma observação aos dois últimos pontificados.
Há, muitas vezes, nos meios conservadores, uma grande ignorância histórica. Faz alguns anos, pelo Syllabus, Pio IX condenou a democracia e a liberdade de imprensa. Esse documento não foi revogado, mas sepultado num esquecimento incômodo. Como antes a Inquisição, com a tortura e a queima de hereges e também a condenação de Galileu (uma retratação chegou com enorme atraso). A posição violentamente anti-moderna de Pio X, no começo do século passado, foi desbloqueada por seu sucessor, Bento XV. O Papa Pio XII faria o elogio da democracia em Mensagens de Natal, ao final da Segunda Guerra e o Vaticano II (1962-1965) seria um grande diálogo com a modernidade. Ver seu documento Gaudium et Spes. A consciência histórica caminha e com ela também a consciência eclesial. A aprovação da pena de morte e a noção de guerra justa vão desaparecendo na doutrina e nas alocuções dos papas. Ver a posição firme de João Paulo II diante da guerra do Iraque. Em contraste com a de Bush, que teve de recorrer à mentira e à fraude (e mesmo de setores da cúria romana que quiseram amenizar, em declarações ambíguas, a posição do próprio papa).
A mesma falta de sensibilidade histórica pode ser aplicada a temas como a interrupção voluntária da gravidez e à utilização, em pesquisas, de células-tronco embrionárias. Nesses casos, é preciso distinguir entre embrião e feto, como fases diferenciadas de um processo. Para Santo Agostinho no século IV e Tomás de Aquino no século XIII, a "animação", isto é, a implantação da alma no ser em gestação, se daria depois de algumas semanas desde a concepção. A partir de 1869, porém, a posição oficial da Igreja até agora, tem sido de defender com vigor o direito à vida "desde a concepção até a morte". Hoje em dia admite-se como critério para definir a morte, a morte cerebral, ainda que o coração esteja pulsando; sem o que não haveria transplantes de órgãos, aos quais a Igreja não se opõe. Se isso se dá ao final da cadeia, por que não revisar, com critérios análogos, o início da mesma? Quando começa a pessoa humana no processo da gestação? Na concepção inicial ou na criação do córtex cerebral? Questões em aberto em meios teológicos (Küng, Forcano, Louise Melançon, entre outros). Tema a ser debatido com lucidez e tranqüilidade numa Igreja que deveria rever-se permanentemente diante de tantos desafios sempre renovados. Há atualmente uma esquizofrenia entre prescrições oficiais sobre a reprodução humana (Casti Connubii, Pio XI, 1930; Humanae Vitae , Paulo VI, 1968) e a prática dos católicos (ex. caso dos preservativos). Na África, religiosos e religiosas distribuem camisinhas diante de uma terrível endemia de Aids.
Há que poder participar de um debate livre e corajoso. Na Igreja, muitos teólogos estão com dificuldade de entrar nele, por medo de perder sua licença de ensinar em estabelecimentos católicos (em termos técnicos, a partir de uma autoridade que inibe a reflexão livre e responsável, isto se chama, em latim, missio canonica). Tal decisão abateu-se sobre Hans Küng, que passou depois a ensinar em Tubinga teologia ecumênica.
Sempre que posso defendo o que o governo vem fazendo e aplaudo calorosamente a gestão do ministro Temporão. Mas tenho dificuldade de entender, em sentido contrário, a última nomeação governamental para o STF de Carlos Alberto Direito que, antes de tomar posse, pré-julgando, se declarou contra o aborto e o uso de células-tronco embrionárias. O presidente Bush, na mesma direção, vem nomeando ministros conservadores no Supremo americano, para voltar atrás na legislação a esse respeito. Aliás, nós que criamos a Ação Popular em 1962, com a inspiração do personalismo comunitário de Emmanuel Mounier e a opção de um socialismo democrático, encontramos então o atual ministro do STF, na política estudantil, numa posição oposta e conservadora. Parece que ele foi indicado por pressão de setores católicos tradicionais e de seu amigo Moreira Franco (pasmem, este foi da AP, assim como o candidato presidencial derrotado José Serra). Curiosos são os caminhos enviesados da história...
Volto ao começo. Sinto-me na obrigação de expressar, como católico, meu mal-estar pela maneira como o problema vem sendo abordado por setores oficiais de minha Igreja. Termino com a introdução que escrevi a meu livro de 2004, Do Vaticano II a um novo concílio? Olhar de um cristão leigo sobre a Igreja (Loyola, 2004): "Muitas décadas de atividades eclesiais como cristão leigo - meio século!- dão-me o direito de ser franco, honesto e direto, tentando varrer uma auto-censura tão comum nos meios eclesiásticos prudentes e sujeitos a sanções autoritárias. ... (essa atitude) quer ser a expressão de uma fidelidade impaciente ou de uma rebeldia filial, de quem se sente profundamente comprometido com a Igreja de Cristo que, dividida, frágil e tantas vezes incoerente, não deixa de ser ‘o Reino em germe’ (de Lubac), ‘a presença urgente, a presença importuna de Deus entre nós’ ".


*Sociólogo e ex-funcionário das Nações Unidas, é Diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Candido Mendes

16 de novembro de 2007

Retirada sustentável

Leonardo Boff*

Aos grandes meios de comunicação passou despercebido o impressionante discurso que o Presidente da Bolívia Evo Morales fez em outubro nas Nações Unidas. Falou menos como chefe de Estado e mais como um líder indígena, cuja visão da Terra e dos problemas ambientais está em claro confronto com o sistema mundial imperante. Denuncia sem rodeios: "a doença da Terra chama-se modelo de desenvolvimento capitalista" que permite a perversidade de "três famílias possuírem ingressos superiores ao PIB dos 48 paises mais pobres" e que faz com que "os Estados Unidos e a Europa consumam em média 8,4 vezes mais do que a média mundial". E fez uma ponderação sábia e de graves conseqüências: "perante esta situação, nós, os povos indígenas e os habitantes humildes e honestos deste Planeta, acreditamos que chegou a hora de fazer uma parada para reencontrarmos as nossas raízes com respeito à Mãe Terra, com a Pachamama como a chamamos nos Andes".
O alarme ecológico provocado pelo aquecimento global já iniciado deve produzir este primeiro efeito: fazermos uma parada para repensarmos o caminho até agora andado e criarmos novos padrões que nos permitam continuar juntos e vivos neste pequeno planeta. Temos, sim, que reencontrar nossas raízes terrenais. Urge que reconquistemos a consciência de que homem vem de humus (terra fecunda) e que Adão vem de Adamah (terra fértil). Somos Terra que sente, pensa, ama e venera. E agora, devido a um percurso civilizatório de alto risco, montado sobre a ilimitada exploração de todos os recursos da Terra e da vontade desenfreada de dominação sobre a natureza e sobre os outros, chegamos a um ponto crítico em que a sobrevivência humana corre perigo.
Assim como está não podemos continuar, caso contrário, iremos ao encontro de nossa própria destruição. Ainda recentemente observava Gorbachev: "precisamos de um novo paradigma civilizatório porque o atual chegou ao seu fim e exauriu suas possibilidades; temos que chegar a um consenso sobre novos valores ou em 30 ou 40 anos a Terra poderá existir sem nós". Conseguiremos um consenso mínimo quando sabemos que o capitalismo e a ecologia obedecem a duas lógicas contrárias? O primeiro se preocupa em como ganhar mais dominando a natureza e buscando o benefício econômico e a ecologia como produzir e viver em harmonia com a natureza e com todos os seres. Há aqui uma incompatibilidade de base. Ou o capitalismo se nega a si mesmo e assim cria espaço para o modo sustentável de viver ou então nos levará fatalmente ao destino dos dinossauros.
Mas somos confiantes como Evo Morales que em seu discurso enfatizou: "tenho absoluta confiança no ser humano, na sua capacidade de raciocinar,de aprender com seus erros, de recuperar as suas raízes e de mudar para a reconstrução de um mundo justo, diverso, inclusivo, equilibrado e harmônico com a natureza".
Consola-nos a sentença do poeta alemão Hölderin: "Quando grande é o perigo, grande é também a chance de salvação". Quando, dentro de anos, atingirmos o coração da crise e tudo estiver em jogo, então valerá o máxima da sabedoria ancestral e do cristianismo dos primórdios:"em caso de extrema necessidade, tudo se torna comum". Capitais, saberes e haveres serão participados por todos para poder salvar a todos. E nos salvaremos, com a Terra.


*Teólogo e professor emérito de ética da UERJ

13 de novembro de 2007

Refundar a República para todos

Marcelo Barros *

Ao recordar a proclamação da República, neste 15 de novembro, muitos brasileiros se dão conta de que o atual modelo político, de caráter representativo eleitoral, embora hoje continue vigente na maior parte dos países do mundo, está em crise e precisa urgentemente ser refundado, em bases novas e mais verdadeiramente democráticas. Intelectuais prestigiados em todo o mundo como Noam Chomsky, José Saramago, Zigmunt Bauman e mesmo um cômico de TV italiana como Beppe Grillo revelam o que qualquer cidadão pode constatar: o divórcio entre o poder e a política tem aumentado, como também a distância entre o Estado e a sociedade civil. Os partidos que, em outro tempo, representavam linhas de pensamento na sociedade, hoje, significam uma dança nômade de siglas indecifráveis que acabam encobrindo, quase todas elas, o mesmo tipo de política baseada nos privilégios de quem está no poder e no interesse econômico de grandes grupos nacionais e internacionais. Neste quadro, as decisões políticas são mais tomadas por corporações financeiras do que pelos políticos que o povo elege. Existem políticos honestos e consagrados ao povo, mas o modelo que acaba se impondo nos meios de comunicação é dos que fazem política como negócio particular. O Estado, sempre mais diminuído de suas funções, nem parece mais capaz de garantir a segurança mínima e os direitos convencionais para seus cidadãos. Na maioria dos casos, o papel dos cidadãos acaba restrito a votar em representantes que se comunicam com seus eleitores a cada quatro anos, quando precisam do seu voto.
O panorama das próximas eleições presidenciais nos Estados Unidos revela uma enorme abstenção dos eleitores, assim como a profunda desesperança da população com este modelo. Ao mesmo tempo que existe a consciência de que a modernidade "líquida" (expressão do sociólogo Zigmunt Bauman) produz estruturas políticas que também se liquidificam, não se tem ainda um modelo alternativo delineado para o qual possamos migrar com segurança.
Neste sábado 10 de novembro, em Santiago do Chile, encerrou-se o encontro dos governantes e representantes de todos os povos da América Latina sobre a integração do continente. Ao mesmo tempo que ocorreu o encontro de cúpula, as organizações indígenas e muitos grupos sociais fizeram um encontro para discutir os mesmos temas e propor soluções a partir das bases. Eram mais de duas mil pessoas de todos os países da América Latina e as conclusões estão à disposição de todos na internet em um documento chamado "Manifesto de Santiago". Ali todos concordam que, no continente, está ocorrendo um fenômeno novo. Existe o começo de um processo social e político novo a partir da organização dos povos indígenas e de sua articulação internacional. Pela primeira vez, no continente, o sonho que o libertador Simon Bolívar tinha de formar uma "grande pátria latino-americana" começa a se consolidar, a partir do respeito à autonomia política de cada Estado soberano, mas através de uma solidariedade que nos permita enfrentar o colonialismo que, durante 500 anos, manteve nossos povos como escravos e dependentes. Agora, estes povos empobrecidos não aceitam mais ser considerados cidadãos apenas pelo direito de votar. Querem ser sujeitos e protagonistas dos seus destinos e não somente ter uma democracia eleitoral e representativa, mas um verdadeiro processo democrático social e econômico que permita ao povo conquistar o direito de viver na sua terra, ter trabalho digno e garantir educação e dignidade de vida para seus filhos.
Na carta de introdução à Agenda Latino-americana de 2008, Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, diz: "Temos de fazer da política um exercício básico de cidadania. A cidadania é o reconhecimento político dos direitos humanos. Porque somos humanidade, somos sociedade. O filósofo italiano Giorgio Agamben afirma: "A separação entre o humano e o político que vivemos na atualidade é a fase extrema da excisão entre os direitos do homem e os direitos do cidadão".
Assim como ainda há quem ensine na escola uma história protagonizada por heróis individuais (Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, Dom Pedro I fez a independência e o Marechal Deodoro proclamou a República), sem se dar conta dos movimentos comunitários e sociais que possibilitaram estas mudanças, também hoje, há quem veja a integração latino-americana como politicagem de líderes populistas ou até ditatoriais.
Organismos internacionais da ONU têm reconhecido oficialmente a honestidade dos processos eleitorais democráticos nas recentes eleições, tanto na Venezuela, como na Bolívia e no Equador. Têm dado prêmios internacionais aos esforços para consolidar um atendimento de saúde que atinja a todo o povo pobre. Valorizam a vitória da alfabetização de adultos e educação popular que avança em vários paises do continente. Para consolidar isso, vários países votaram por reformar a sua Constituição. Este processo une o Congresso Nacional, organizações indígenas e entidades da sociedade civil, em um processo de diálogo nacional novo. Um jornalista do Le Monde Diplomatique, escutou de uma velha índia em uma aldeia dos Andes: "Estou aprendendo a ler para discutir as leis e colaborar com a nova Constituição do país".
No Brasil, os movimentos sociais e camadas mais pobres da população começam a se mobilizar por uma maior participação das bases e por uma justiça social mais estrutural. Foi este anseio que se sentiu entre os quase seis mil participantes do 6º Encontro nacional do Movimento Fé e Política que, em Nova Iguaçu, RJ, reuniu neste final de semana, (10 e 11/11/2007), cristãos e militantes sociais, ligados a várias Igrejas cristãs, como também a grupos religiosos populares. Divididas em mais de vinte plenários temáticos, as pessoas puderam expressar suas convicções e esperanças. Uma conclusão comum foi a urgência de fortalecer a consciência de pertencermos todos a América Latina e participarmos juntos deste caminho de libertação e integração continental.
Isso pode parecer vago e utópico. Entretanto, é esta capacidade de utopia que permite a resistência e fortalece a confiança de que o povo é capaz de transformar a realidade. Oscar Wilde dizia: "Um mapa-mundi que não inclua a utopia não vale a pena nem olhar, pois deixa de fora o único país em que a humanidade está sempre desembarcando. E quando a humanidade lá desembarca, ela olha em volta e, ao ver um país melhor, iça as velas. O progresso é a realização das utopias".


* Monge beneditino

10 de novembro de 2007

Lula no país das maravilhas

Um Estatuto deficiente

Frei Betto*

Está em debate no Congresso Nacional o projeto do senador Paulo Paim (PT-RS) de um Estatuto do Portador de Deficiência. Ora, a Constituição é o estatuto de todo brasileiro, inclusive a pessoa com deficiência. Um estatuto especial faria de cada deficiente um cidadão à parte. Por isso a sua aprovação é inoportuna, contraria as discussões e decisões desse segmento da população (cerca de 24 milhões de pessoas), e sua história e conquistas.
A idéia de um estatuto especial se justifica quando um determinado segmento da sociedade necessita de regramento jurídico específico. Foi assim com o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Estatuto do Idoso. Ambos trouxeram novos paradigmas normativos, conceituais e políticos.
As instituições envolvidas com a questão da pessoa com deficiência adotam, como estratégia de luta contra a exclusão, a transversalidade do tema da deficiência no contexto das políticas públicas e das determinações legais. Por esta ótica, a temática tem sido inserida nas questões fundamentais da cidadania - saúde, educação, trabalho, previdência e assistência social.
A aprovação de um estatuto específico seria um retrocesso, transformaria pessoa com deficiência em uma diferenciada categoria de cidadão brasileiro.
Contudo, a proposta do senador Paim provoca um fato inédito: o movimento de pessoas com deficiência, ativo na década de 80, e que depois se desarticulou, dando espaço a atividades e atitudes isoladas de ONGs, agora se une e ganha força através da luta contra o estatuto. Algumas instituições com representatividade e liderança integram o "Movimento Nacional pela Constituição e contra o Estatuto".
Ressurge do susto causado pela intenção de se fazer um estatuto sem ampla e aberta discussão e participação do segmento um novo momento na luta por cidadania das pessoas com deficiência. A sociedade civil se organiza e busca atuar de forma independente para conquistar seus direitos.
A história da proposta do senador Paim pode ser resumida pelos seguintes fatos: Teresa Cruvinel publicou em sua coluna jornalística de 23 de setembro deste ano: "Deve ser difícil para Paim, engajado na defesa das minorias, lidar com a rejeição à proposta". O senador reagiu: "São receios justos, devemos conversar, mudar o que não esteja claro. Mas, se apontarem um só ponto prejudicial aos deficientes, eu rasgo o Estatuto".
As ONGs que atuam na área ressaltam, entre outros argumentos, estes quatro: Se aprovado, o projeto revogaria a Lei de Acessibilidade e, conseqüentemente, os prazos estabelecidos pelo seu regulamento. Determinando regulamentação futura, anularia a já existente e os prazos em curso. Como efeito imediato os concessionários de transportes coletivos estariam desobrigados de adequá-los à utilização das pessoas com deficiência até a edição de novo decreto de regulamentação.
Da mesma forma, aprovado o projeto, e revogada a Lei de Acessibilidade, e os prazos estabelecidos pelo seu regulamento, os entes federativos estariam desobrigados de construírem acessos aos logradouros e locais públicos, de uso coletivo da União, estados e municípios.
O projeto determina a intervenção obrigatória do Ministério Público em todas as ações judiciais em que figure, como parte, qualquer pessoa com deficiência, desvirtuando as atribuições do Ministério Público e incorrendo em inconstitucionalidade. Uma ação de despejo, por exemplo, envolvendo uma pessoa com deficiência totalmente capaz, passaria a exigir a intervenção do Ministério Público. A pessoa com deficiência tornar-se-ia, na prática, incapaz e obrigatoriamente tutelada pelo Estado.
Com a aprovação do projeto e a revogação tácita da Lei 7.853/89 - que determina a matrícula compulsória de pessoas com deficiência - e, em efeito, a perda de eficácia de parte da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, as escolas regulares ficariam desobrigadas de praticarem a política de educação inclusiva para pessoas com deficiência.
O PT nasceu e se elegeu com o propósito de defender os direitos dos pobres e das minorias, disposto a ouvi-los na formulação de seus projetos políticos. Seria uma lástima marcar a sua história com a aprovação de um estatuto que, além de inoportuno, é constitucionalmente deficiente.
[Autor, em parceria com Luís Fernando Veríssimo e outros, de "O desafio ético" (Garamond), entre outros livros].


* Frei dominicano.

9 de novembro de 2007

Júlio Lancellotti

Frei Betto*
Veja o leitor, há uma revista semanal que odeia pobres e quem a eles se dedica. Revista que ignora as regras básicas do bom jornalismo e nem se preocupa em bem informar o leitor. Todas as suas matérias são editorializadas, de tal modo que até mesmo uma entrevista é publicada, não segundo palavras do entrevistado, mas de acordo com a conveniência do veículo entrevistador.

Semanas atrás, no encarte contido na edição destinada a São Paulo, a revista desancou uma das pessoas mais íntegras que conheci em toda a minha vida: o padre Júlio Lancellotti. Um dos raros santos vivos de quem tenho a graça de ser amigo.
Júlio se dedica, há anos, ao povo da rua da capital paulista: pedintes, doentes mentais, desempregados, catadores de papel etc. A todos serve com espírito evangélico. Quando sofrem violência por parte da polícia, é Júlio o anjo que lhes dá proteção. E abre as portas de sua igreja para que ali se sintam em casa.
Júlio faz o mesmo com a crianças de rua e os internos da Febem. E não age como quem se interessa em "catequizá-los". Sabe muito bem, graças à sua boa formação teológica, que essa gente excluída expressa de modo especial a face viva de Jesus, que com eles se identificou (Mateus 25, 31-44). Quer apenas que se sintam pessoas dotadas de dignidade e direitos, ainda que a nossa sociedade, fundada na desigualdade econômica, os tenha escorraçado para as calçadas da mendicância e os becos do desamparo.
Veja, leitor, a revista semanal, do alto de seu empertigado farisaísmo, identificou na atitude de vida do padre Lancellotti pura demagogia, levantando indagações que fazem eco às cobranças dos fariseus a Jesus. Por que o padre Júlio não vai morar debaixo da ponte? Por que não abre a igreja para servir de moradia ao povo da rua? O que revela desinformação a respeito dessa parcela sofrida da população.
Só o preconceito e a ignorância explicam a miopia de certas pessoas que confundem morador de rua com bandido e julgam que ele vive ao relento por não ter um teto que o abrigue. Há exceções, mas a maioria faz da rua uma opção de vida. Ali há liberdade, o descompromisso, o fim de opressões outrora sofridas no trabalho e na família (espancamentos, abusos sexuais, alcoolismo etc). E são raros os que mendigam. Preferem viver do próprio trabalho, como catar lixo reciclável.
Quem levaria para casa uma criança nascida com Aids e abandonada pela família? Padre Júlio já levou centenas. A revista não viu as duas unidades da Casa Vida em São Paulo, que visito com freqüência. Ali as crianças recebem cuidados médicos e terapêuticos; são educadas no asseio e escolarizadas; aprendem a ter auto-estima e ser felizes. Cega, a publicação semanal não quis ver nada disso. Nem mesmo este detalhe: cerca de 90 crianças, mesmo virtualmente condenadas à morte por uma enfermidade incurável, já foram adotadas por famílias européias.
A revista que se gaba de ver não viu que há milagres no mundo: casais que, impossibilitados de procriar, escolhem adotar uma criança filha da miséria e contaminada pelo vírus HIV. Graças à evangélica dedicação do padre Júlio Lancellotti, cujo testemunho enobrece a espécie humana.

*Frei dominicano. Escritor.

8 de novembro de 2007

Armagedon humano?

Leonardo Boff*

Os atuais cenários sombrios sobre o futuro do sistema-vida e especificamente da espécie humana permitem que biólogos, bioantropólogos e astrofísicos aventem o possível desaparecimento da espécie homo sapiens/demens ainda neste século. Aduzem argumentos que merecem ponderação. O mais robusto parece ser aquele da superpopulação articulada com a dificuldade de adaptação às mudanças climáticas. Na escala biológica verifica-se um crescimento exponencial. A humanidade precisou um milhão de anos para alcançar em 1850 um bilhão de pessoas. Os espaços temporais entre os índices de um crescimento a outro diminuem cada vez mais. De 75 anos - de 1850 a 1925 - passaram para 5 anos de diferença. Prevê-se que por volta de 2050 haverá dez bilhões de pessoas. É triunfo ou dano?
Lynn Margulis e Dorian Sagan, notáveis microbiólogos, no conhecido livro Microcosmos (1990) afirmam com dados dos registros fósseis e da própria biologia evolutiva que um dos sinais do colapso próximo de uma espécie é sua rápida superpopulação. Isso pode ser comprovado por micro-organismos colocados na cápsula Petri (placa redonda com colônias de bactérias e nutrientes). Pouco antes de atingirem as bordas da placa e se esgotarem os nutrientes, multiplicam-se de forma exponencial. E de repente morrem. Para a humanidade, comentam eles, a Terra pode mostrar-se idêntica a uma cápsula Petri. Com efeito, ocupamos quase toda a superfície terrestre, deixando apenas 17% livre: desertos, floresta amazônica e regiões polares. Estamos chegando às bordas físicas da Terra. Há explosão demográfia e decrescimento dos meios de vida num planeta limitado. Sinal precursor de nossa próxima extinção?
O prêmio Nobel em medicina, Christian de Duve, sustenta que estamos assistindo a sintomas que precederam no passado as grandes dizimações. Normalmente desaparecem por ano 300 espécies vivas porque chegaram ao seu clímax evolucionário. Dada a pressão industrialista global sobre a biosfera estão desaparecendo cerca de 3.500. Um desastre biológico. Será que agora não chegou a nossa vez?
Carl Sagan, já falecido, via no intento humano de demandar à Lua e enviar naves espaciais como o Voyager 1 para fora do sistema solar, a manifestação do inconsciente coletivo que pressente o risco da extinção próxima. A vontade de viver nos leva a excogitar formas de sobrevivência para além da Terra. O astrofísico Stephen Hawking fala da possivel colonização extrasolar com naves, espécie de veleiros espaciais, impulsionadas por raios laser que lhes confeririam uma velocidade de trinta mil quilômetros por segundo. Mas para chegar a outros sistemas planetários teríamos que percorrer bilhões e bilhões de quilômetros, necessitando pelo menos de um século de tempo. Ocorre que somos prisioneiros da luz, cuja velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo é até hoje insuperável. Mesmo assim só para chegar a estrela mais próxima - a Alfa do Centauro - precisaríamos de quarenta e três anos, sem ainda saber como frear essa nave a esta altíssima velocidade.
Tais reflexões nos permitem falar de um possível Armagedon humano. Este representa um desafio para as religiões que vêem o fim da espécie como obra do Criador e não da atividade humana. Para o Cristianismo a morte coletiva, mesmo induzida, não impede o triunfo final da vida pela via da ressurreição e da transfiguração de toda a criação por Deus.


*Teólogo e professor emérito de ética da UERJ

6 de novembro de 2007

Limites do ilimitado: humanizar o trânsito urbano

Marcelo Barros*

Embora exista desde milênios, a Cidade exibe as marcas fundamentais da civilização urbana deste início de século. Nas ultimas duas décadas, mais de um bilhão de seres humanos migrou para as cidades. Foi o maior movimento populacional da história. Nos mais diversos continentes multiplicaram-se cidades com mais de dois milhões de habitantes. Não por caso, ou apenas por questões culturais. A mudança é fruto de uma organização social e econômica, que mais do que nunca, concentrou a propriedade da terra e fortaleceu um modelo agrícola de exportação que obriga os lavradores a deixarem suas terras procurando refúgio nas periferias das grandes cidades.
A especulação imobiliária cria um muro imaginário, mas quase intransponível entre as áreas nobres e as periferias entregues ao deus-dará. Como se fosse dividida em duas ou três, a cidade tem áreas que servem de centro do poder político, outros locais liberados para atividades econômicas, culturais ou para lazer e tem também os bairros e ajuntamentos de periferia, nos quais o planejamento urbano é quase ausente. Para os que têm recursos, a cidade é multicultural e se manifesta na pluriformidade de roupas, gestos, cenas e serviços. Para a população empobrecida que, em cada cidade, é mais tratada como massa de refugiados do que como cidadãos de pleno direito, a cidade é apenas o formigueiro humano, discriminado e agredido em sua dignidade.
A deterioração das condições de vida em bairros de periferia mesmo em cidades prósperas dos Estados Unidos como Detroit ou Chicago, que apresentam índices de desenvolvimento urbano em tudo piores do que as de muitas favelas do Rio de Janeiro, Guaquil, Salvador ou Bombay. Isso para não falar dos aglomerados humanos nas cidades norte-americanas de fronteira, guetos de refugiados, como quaisquer campos de concentração em tempos de guerra. O mundo inteiro assistiu às revoltas e quebra-quebra de moradores de bairros periféricos de Paris e de algumas cidades francesas.
Como a corrente sempre quebra no elo mais fraco, toda cidade mostra sua maior ou menor exeqüibilidade na organização do trânsito. São Paulo conta com centros administrativos dignos do primeiro mundo e intensa vida cultural, mas, infelizmente, a sua cara é o trânsito caótico, perigoso e congestionado. Na Europa, o trânsito urbano é o que mais diferencia Roma e Paris, assim como, nos Estados Unidos, se diferenciam a imensa Nova York, na qual o trânsito é intenso e complexíssimo, mas nunca deixa de fluir e a latino-americana Miami que, de vez em quando, pára e atrasa a vida de todo o mundo.
Em cidades como Goiânia, o lado mais terrível da desumanização do trânsito é a violência que continua atingindo tanto a pedestres, como a passageiros. Acidentes mortais se multiplicam e pequenos incidentes entre motoristas têm, uma vez ou outra, gerado balas e mortes gratuitas.
Conforme os jornais, entre as vítimas do trânsito nosso de cada dia, os motociclistas são as vítimas mais freqüentes e quase rotineiras. O Popular (5ª feira, 25/1072007) confirma: "Mortes sobre duas rodas não param de crescer". Só em Goiânia, a média de motociclistas vitimados pelo trânsito é de quase um por dia. O jornal explica que as principais causas desta tragédia cotidiana são a imprudência, o excesso de velocidade (das motos) e o desrespeito à lei. É bom verificar também se, por trás deste quadro, não existe ainda a angústia dos motociclistas pobres com a precariedade dos empregos, a pressão dos patrões para que produzam mais e em menos tempo. Entretanto, certamente, na base de tudo, está o pouco cuidado com a vida, seja a sua própria, seja a do outro.
É possível que, por trás desta violência quase rotineira em nossas grandes cidades, haja também um fenômeno complexo que é o fato do trânsito ser quase o único espaço no qual, sob certo ponto de vista, as classes sociais se encontram em condições de pretensa igualdade de direitos. O trânsito é quase o único lugar no qual centro e periferia se encontram ou se cruzam, sob o risco de se chocarem. Em um plano inconsciente das relações estruturais, a sociedade, do modo que é organizada, parece quase permitir que exista certo grau de tensão ou de olhar atravessado entre quem dirige carro particular e os motoristas de táxi, entre quem conduz um ônibus ou um veículo qualquer e um motociclista, em sua maioria, jovem e pobre.
Muitas mortes ocorrem por causa de uma violência difusa no modo das pessoas dirigirem e por causa das frágeis condições de segurança dos veículos e das estradas.
Por mais que existam, precisamos de mais campanhas de paz no trânsito e de respeito à vida. No trânsito, como na família ou no trabalho, é possível trabalhar para instaurar relações regidas pela cultura de paz e de administração não-violenta dos conflitos que, porventura ocorrerem. Entretanto, a raiz da mudança cultural ocorrerá quando olharmos de forma mais solidária e amorosa a todo ser humano que, em nossa cidade se torna nosso irmão e companheiro. Aí sim, teremos um trânsito e uma convivência urbana de verdadeiros cidadãos.


*Monge beneditino, teólogo e escritor.

29 de novembro de 2007

Mulheres: Sem medo de denunciar*

*Por Iolanda Toshie Ide

Brutalmente assassinadas pelo ditador Rafael Leônidas Trujillo, da República Dominicana, as irmãs Mirabal Minerva, Maria Tereza e Pátria Mirabal são justamente lembradas pra marcar a campanha 16 dias de ativismo pelo fim da violência contra as mulheres. Essa campanha inicia-se exatamente na data do assassinato delas: 25 de novembro (1960).
Às vésperas do início da edição anual desta campanha, a divulgação da informação de que uma jovem atirada à prisão para ser torturada por estupros por parte de presos na mesma cela causa indignação e merece um público e veemente repúdio.
Quando nos perguntam sobre os avanços conquistados pelas mulheres desde a segunda metade do século XX, nunca fizemos um balanço otimista. O aumento significativo do ingresso de mulheres nos cursos superiores e a participação no mundo do trabalho formal faz parecer que se avançou muito. No entanto, não engendrou salários iguais aos dos homens mesmo quando a escolaridade da mulher é maior, sem falar no peso da dupla jornada. Entretanto, como ocorreu em Abaetetuba (e não é só lá) é revoltante ver o estado lançar mulheres nas celas junto a vários homens sabendo que serão estupradas.
No início do horário de verão, um homem feriu a esposa por ela não ter atrasado o relógio. Um rapaz ameaçou invadir a escola onde estuda uma jovem que ele desejava que fosse sua namorada, ameaçando-a. Um outro rapaz, não quis aceitar o rompimento com a namorada. Foi até o município onde ela estudava, abordou-a na entrada da faculdade matando-a. Um homem chegou em casa, quebrou móveis e louças, empurrou a esposa e suas duas filhas (de menos de 10 anos de idade) para fora de casa e se trancou para dormir: as três ficaram na rua durante toda a noite.
Quantas mulheres, ao longo da história foram impedidas de votar e de estudar. Mas isto não é coisa do passado. No dia 6 de dezembro de 1989, um estudante irrompeu na Escola politécnica de Montreal (Canadá) e atirou nas mulheres. Não aceitava que as jovens adentrassem nos cursos de engenharia dizendo elas roubavam as vagas dos homens. Atirou furiosamente assassinando 14 mulheres. Daí surgiu a Campanha do Laço Branco pela qual homens se engajam mobilizando-se pelo fim da violência contra a mulher.
- a cada minuto, 4 mulheres são espancadas;- em cada 10 casos registrados, 7 têm como agressor o marido, namorado, ex-companheiro, pai e parentes;- a cada 9 segundos, uma mulher é ofendida na sua conduta sexual;
A campanha pelo fim da violência contra as mulheres que de 25 de novembro a 10 de dezembro ocorre simultaneamente em mais de 130 países, necessita, pois, de muita garra. A Secretaria Especial de Políticas para Mulheres disponibilizou o telefone gratuito 180 para orientar as mulheres, funcionando 24 horas, inclusive nos sábados e domingos.
O patriarcalismo ainda está vivo: houve juiz que ousasse pronunciar-se contra a Lei Maria da Penha (Lei nº11.340) considerando-a inconstitucional. Estamos nos empenhando na direção contrária, divulgando a lei, incentivando as mulheres para que denunciem seus agressores, sem medo. Quem deve ter medo é o agressor. É preciso que a Lei nº 11.340 saia do papel. Afinal, uma vida sem violência é nosso direito.

28 de novembro de 2007

A DOR QUE DÓI MAIS

Trancar o dedo numa porta dói. Bater com o queixo no chão dói.
Torcer o tornozelo dói. Um tapa, um soco, um pontapé, dóem.
Dói bater a cabeça na quina da mesa, dói morder a língua, dói cólica, cárie e pedra no rim.
Mas o que mais dói é saudade.
Saudade de um irmão que mora longe.
Saudade de uma cachoeira da infância.
Saudade do gosto de uma fruta que não se encontra mais.
Saudade do pai que já morreu.
Saudade de um amigo imaginário que nunca existiu.
Saudade de uma cidade.
Saudade da gente mesmo, quando se tinha mais audácia e menos cabelos brancos. Dóem essas saudades todas. Mas a saudade mais dolorida é a saudade de quem se ama.
Saudade da pele, do cheiro, dos beijos. Saudade da presença, e até da ausência consentida.
Você podia ficar na sala e ele no quarto, sem se verem, mas sabiam-se lá. Você podia ir para o aeroporto e ele para o dentista, mas sabiam-se onde.
Você podia ficar o dia sem vê-lo, ele o dia sem vê-la, mas sabiam-se amanhã.
Mas quando o amor de um acaba, ao outro sobra uma saudade que ninguém sabe como deter.Saudade é não saber. Não saber mais se ele continua se gripando no inverno.
Não saber mais se ela continua clareando o cabelo.
Não saber se ele ainda usa a camisa que você deu.
Não saber se ela foi na consulta com o dermatologista como prometeu.
Não saber se ele tem comido frango de padaria, se ela tem assistido as aulas de inglês, se ele aprendeu a entrar na Internet, se ela aprendeu a estacionar entre dois carros, se ele continua fumando Carlton, se ela continua preferindo Pepsi, se ele continua sorrindo, se ela continua dançando, se ele continua pescando, se ela continua lhe amando.Saudade é não saber.
Não saber o que fazer com os dias que ficaram mais compridos, não saber como encontrar tarefas que lhe cessem o pensamento, não saber como frear as lágrimas diante de uma música, não saber como vencer a dor de um silêncio que nada preenche.Saudade é não querer saber.
Não querer saber se ele está com outra, se ela está feliz, se ele está mais magro, se ela está mais bela.
Saudade é nunca mais querer saber de quem se ama, e ainda assim, doer.

Martha Medeiros

Quem Sabe um Dia

Quem Sabe um Dia
Quem sabe um dia
Quem sabe um seremos
Quem sabe um viveremos
Quem sabe um morreremos!
Quem é queQuem é macho
Quem é fêmeaQuem é humano, apenas!
Sabe amar
Sabe de mim e de si
Sabe de nósSabe ser um!
Um dia
Um mês
Um ano
Um(a) vida!
Sentir primeiro, pensar depois
Perdoar primeiro, julgar depois
Amar primeiro, educar depois
Esquecer primeiro, aprender depois
Libertar primeiro, ensinar depois
Alimentar primeiro, cantar depois
Possuir primeiro, contemplar depois
Agir primeiro, julgar depois
Navegar primeiro, aportar depois
Viver primeiro, morrer depois

Mário Quintana

27 de novembro de 2007

A espiritualidade no conflito

Antônio Mesquita Galvão*

As pessoas, em geral, têm dificuldade de compreender o sentido da palavra "espiritualidade". E é justamente por causa desse equívoco que não conseguem desenvolver adequadamente um cristianismo eficaz, de acordo com seu estado de vida. Muitos a confundem com "espiritismo" ou "espiritualismo" e apontam para algum modo de vida espiritual, sem saber conceituar nem tampouco ava-liar como se desenvolve esse tipo de vivência. Por ser a espiritualidade uma forma muito rica de relação com Deus, ela aponta para um estilo de vida. De vida cristã.
O grande desafio da espiritualidade cristã é compatibilizar uma vida voltada para os apelos do Espírito na ambigüidade da vida material a que todos estão sujeitos. Não é possível a ninguém, alienar-se de sua vida material, social, pro-fissional, familiar, política, etc. É justamente nessas circunstâncias de nossa existência que devemos nos encontrar com Deus, sem fugir do mundo, mas relacionando-nos com o Infinito conforme nosso estado de vida. Reside aí o de-safio: viver uma vida cristã, espiritualizada e voltada para o alto, sem furtar-se à vida material e à dimensão sócio-fraterna inerente a esse tipo de vida.
É fundamental que se insista na necessidade que os cristãos têm, cada vez mais, de descobrirem eles próprios os caminhos de sua espiritualidade, de a-cordo com a forma de vida abraçada por cada um, sem que um queira viver em sua vida o tipo de espiritualidade do outro, ou simplesmente se omitindo. Deus quer que eu me envolva com ele, sem, no entanto, fechar os olhos à injustiça que sofre o irmão, o vizinho, o companheiro de caminhada. Essa opressão é uma tônica gritante fora do âmbito das grandes capitais do Sul-Sudeste. Em tudo ocorrem conflitos e desacertos. Na psicologia, vemos conflito, segundo as teorias behavioristas, como um "estado provocado pela coexistência de dois es-tímulos que disparam reações mutuamente excludentes". Simplificando, há quem defina, igualmente como "profunda falta de entendimento entre duas ou mais partes". A vida humana, e a existência dos cristãos não está imune, ocor-re no meio dos conflitos.
No meio das comunidades, especialmente no interior do país, ocorre a grilagem e o choque com os posseiros, contrastando com o coronelismo, a extração irre-gular de madeira e minérios, a falta de demarcação de terras indígenas, amea-ças ao meio-ambiente, doenças e endemias tropicais, subemprego, violência (e não-raro mortes) contra sindicalistas, líderes comunitários e ministros da Igre-ja. Isto sem falar nos "reflorestamentos" de árvores que só produzem celulose, plantações de maconha, etc. A isto se soma a falta de saneamento básico, um sistema educacional deficiente e famílias que se desestruturam por problemas sociais, econômicos e de migração compulsória. Há, por causa desses conflitos, uma perda de fé e de referenciais humanos.
Tudo deve ter início, a partir da iluminação da fé, pela Palavra de Deus, numa formação bíblica e doutrinária adequada, assim como a descoberta de uma ní-tida consciência crítica, não jungida a outros modelos de vida cristã, mas ade-quados à vida concreta de cada pessoa, conforme sua missão no meio do mun-do. Sendo a espiritualidade a forma como nos relacionamos com Deus, é impor-tante que deixemos de lado certo tipo de cristianismo desvinculado com a vida e o mundo, demasiadamente angelista, sem o compromisso com as transfor-mações que o evangelho de Jesus não cansa de nos exortar.
Toda a religião vivida de modo alienado torna-se alienante, para quem a pratica e para tantos quantos interajam com pessoas que assim atuam. Além disto, a vivência de uma espiritualidade incoerente é capaz de, pelo negativo do teste-munho, desviar muitas pessoas do caminho reto, da amizade com Deus, da Igreja e do serviço aos irmãos. Os profetas davam alento ao povo sofredor por causa da coragem de seu testemunho e de suas denúncias.
Para quem conhece o Brasil fica a constatação da existência de um conflito, entre o ser-cristão de muitos e a figura paulina do "espírito do mundo". O con-flito se instala, muitas vezes, dentro das Igrejas, com motivação político-ideológica, social e por causa da busca da busca de poder, intentada por de-terminados grupos. Para quem, como eu, reside no Sul do país, onde se vive sob o foco de uma religião de corte germânico, burocrática, sacramentalista, demasiadamente hierárquica, que forma uma "Igreja sentada", estática, pouco missionária e, geralmente acomodada, muitas facetas do conflito passam des-percebidas. No Norte e Nordeste do Brasil viver a fé é estar no meio do conflito, pois os obstáculos, como a natureza hostil, as pressões políticas, o descaso ofi-cial e as ameaças dos poderes sociais criam nas pessoas, especialmente po-dres, humildes e sem voz, faz emergir a necessidade de um profetismo militan-te. A convivência com os negros e os índios, cada um segregados à sua manei-ra, a sobrevivência sob o tacão da opressão, seja ela representada pelo patrão, pelo senhor dos engenhos ou do latifúndio, impõe a cada um, certas necessi-dades de viver a fé, de relacionar-se com Deus, organizando-se, fomentando um espírito crítico, sem apelar para a violência e sem a tentação de quebrar os paradigmas da paz e do perdão. A própria Justiça, que em tese deveria ser ce-ga, dispensa a cada grupo um quinhão proporcional a sua representatividade social. Querendo devolver olho-por-olho as injustiças sofridas, muitos abando-nam a fé, por não saberem desenvolver uma "espiritualidade no conflito". Em alguns lugares do Brasil, os crentes vivem uma espiritualidade cômoda, sem riscos; em outros, têm que desenvolvê-la no meio do conflito.
Só uma espiritualidade discernida e orientada pela Palavra é capaz de nortear os rumos de quem insiste em ser cristão e viver sua fé no meio do conflito que, por exemplo, nas regiões mais ínvias, é permanente.

*Doutor em Teologia Moral


26 de novembro de 2007

Lula No País das Maravilhas II

Ética e Reforma Política

Frei Betto*

A "ética" neoliberal se reduz às virtudes privadas dos indivíduos. Ignora a visão de institucionalidade ética. Reforça, assim, a atitude paralisante do moralismo, que a reduz à ilusória perfeição individual. Ora, se a sociedade é estruturada, a ética é imprescindível para se configurar o mundo histórico. Portanto, exige uma teoria política normativa das instituições que regem a sociedade.
Não basta falar em ética na política. A crítica às instituições geradoras de injustiças e negadoras de direitos exige ética da política. Abrir espaços para a criação de novos direitos. As instituições devem garantir a justiça distributiva - a partilha dos bens a que todos têm direito -, e a justiça participativa, a presença de todos (democracia) no poder que decide os rumos da sociedade.
O grande desafio ético hoje é como criar instituições capazes de assegurar direitos universais. Isso supõe uma ruptura com a atual visão pós-moderna, neoliberal, de fragmentação do mundo e exacerbação egolátrica, individualista.
Ainda que o ser humano tenha defeito de fabricação e prazo de validade, o que o Gênesis chama de "pecado original", há que se instaurar uma institucionalidade política capaz de assegurar direitos e impedir ameaças à liberdade e à natureza. Isso implica suscitar uma nova cultura inibidora dessas ameaças, assim como ocorre hoje em relação à escravidão, embora ainda praticada.
De onde tirar valores éticos universalmente aceitos? Como levar as pessoas a se perguntarem por critérios e valores? Hans Küng sugere que uma base ética mínima deve ser buscada nas grandes tradições religiosas. Seria o modo de passarmos de éticas regionais a uma ética planetária. Mas como aplicá-la ao terreno político? Mudar primeiro a sociedade ou as pessoas? O ovo ou a galinha?
Inútil dar um passo atrás e fixar-se na utopia do controle do Estado como precondição para transformar a sociedade. É preciso, antes, transformar a sociedade através de conquistas dos movimentos sociais, e de gestos e símbolos que acentuem as raízes antipopulares do modelo neoliberal. Combinar as contradições de práticas cotidianas (empobrecimento progressivo da classe média, desemprego, disseminação das drogas, degradação do meio ambiente, preconceitos e discriminações) com grandes estratégias políticas.
É concessão à lógica autoritária admitir que o Estado seja o único lugar onde reside o poder. Este se alarga pela sociedade civil, os movimentos populares, as ONGs, a esfera da arte e da cultura, que incutem novos modos de pensar, de sentir e de agir, e modificam valores e representações ideológicas, inclusive religiosas.
"Não queremos conquistar o mundo, mas torná-lo novo", proclamam os zapatistas. Hoje, a luta não é apenas de uma classe contra a outra, mas de toda a sociedade contra um modelo perverso que faz da acumulação privada da riqueza a única razão de viver. A luta é da humanização contra a desumanização, da solidariedade contra a alienação, da vida contra a morte.
A crise da esquerda não resulta apenas da queda do Muro de Berlim. É também teórica e prática. Teórica, de quem enfrenta o desafio de construir um socialismo sem stalinismo, dogmatismo, sacralização de líderes e de estruturas políticas. E prática, de quem sabe que não há saída sem retomar o trabalho de base, reinventar a estrutura sindical, reativar o movimento estudantil, incluir em sua pauta as questões indígenas, étnicas, sexuais e ecológicas.
Neste mundo desesperançado, apenas a imaginação e a criatividade são capazes de livrar a juventude da inércia, a classe média do desalento, os excluídos do sofrido conformismo. Isso requer uma ideologia que resgate a ética humanista do socialismo de inspiração cristã e abandone toda interpretação escolástica da realidade. Sobretudo toda atitude que, em nome do combate à velha ordem, faz a esquerda agir mimeticamente ao incensar vaidades, apegar-se a funções de poder, ceder à corrupção, reforçar a antropofagia de grupos e tendências que se satisfazem em morder uns aos outros.
O pólo de referência de todos que pretendem alcançar "um outro mundo possível", em torno do qual precisam se unir, é somente um: os direitos dos pobres.


[Autor, em parceria com Paulo Freire e Ricardo Kotscho, de "Essa escola chamada vida" (Ática), entre outros livros].

Dois poemas

***
Outros ventos trouxeram nossas cicatrizes
Um suor me recobre, pesa nestes ombrosa flor de encontro dúbio. Assim perditanto em buscá-la, tanto em desfazer.
As mãos sobre as coxas, o sexo já confessado.
Tão poderosa e viva e assim tão puraa luminosidade dos azuis.
E aspirei contigo o perfume casto das cerejas,também desfeito. O matiz inseguro de tuas nuvens.
Fluorescência do âmbar:o segredo revelado, não te espantes.
E é o mesmo teu silêncio, amparando as estátuas.As que houvera na morte e o sonho de suas noites.



Os frutos
O tempo colhia os frutos sem alardena terra baixa, maduros de sementes.
Eu corria as ladeiras com meus olhosfreqüentes do passado, e as flores frias.
Dos muros de palavras retirávamosum punhado de hera, o cheiro seco.
Que invadia as manhãs pelas janelase nossos corações cheios de névoa.
Ele colhia os frutos. Nós, sem pressa,que o tempo madurou de outros silêncios.
Eu não me erguia ao alto da colinasobre um caixão de pedra, com medo.
De nosso território com seus prédiosenormes e homens baixos. Eles jogavam.


[Pablo Simpson]

22 de novembro de 2007

O lobby de católicos na Conferência Nacional de Saúde

Luiz Alberto Gómez de Souza*

Uma pressão de setores católicos, da CNBB à Pastoral da Criança, na 13ª Conferência Nacional de Saúde, encerrada em Brasília dia 18 de novembro, levou à rejeição de uma moção sobre a interrupção voluntária da gravidez. Isso faz lembrar os esforços, por anos, de setores católicos, liderados pelo deputado e padre Arruda Câmara, do PDC, contra o divórcio, embora este tenha sido posteriormente aprovado. No passado, setores oficiais da Igreja tinham feito campanhas contra a secularização dos cemitérios, pela obrigação de capelães nas Forças Armadas e pelo ensino religioso obrigatório, em debate acirrado com Anísio Teixeira e outros defensores da Escola Nova. Era sempre a dificuldade de aceitar uma sociedade pluralista e democrática, onde os princípios de uma religião não podem prevalecer sobre o conjunto da sociedade, com outros credos ou sem credo algum. Trata-se de uma postura intolerante, que encontramos até hoje em setores fundamentalistas do Islã dos aiatolás, dos integristas católicos ou do presidente Bush. Como leigo católico, quero manifestar aqui minha desconformidade diante de setores de minha própria Igreja.
Há muita confusão pelo caminho. Confunde-se descriminalização do aborto com a legalização do mesmo. O Uruguai, com forte tradição laica, acaba de aprovar a descriminalização. Mas, já faz anos, a Itália, considerada país católico, apesar de pressão do Vaticano, legalizou o aborto, assim como mais recentemente Portugal.
O ministro da Saúde propôs um amplo debate sobre o tema, considerando-o com razão um problema de saúde pública, além de ter implicações éticas. Opor-se a esse debate livre é uma atitude autoritária ou hipócrita, como definiu um funcionário do Ministério da Saúde. Estamos numa democracia e toda discussão é necessária, para criar uma opinião pública e reforçar a cidadania participante. Transcrevo parte da moção rejeitada: "Assegurar os direitos sexuais e reprodutivos, respeitar a autonomia das mulheres sobre seu corpo e reconhecer o aborto como problema de saúde pública e discutir sua descriminalização por meio de projeto de lei" (Proposta 37 do eixo 1). Vejam que o tema para discutir e preparar um futuro projeto de lei refere-se à descriminalização do aborto e não à sua legalização. Fica, aliás, um problema candente: como punir uma mulher que passou pela penosa, dolorosa, traumática e arriscada decisão?
A manchete de um jornal de 19 de novembro assinala: Aborto: Igreja derrota proposta do governo. Questão que nos encaminha ao ponto seguinte. Podemos dizer simplesmente Igreja, povo de Deus na definição do Vaticano II, em sua dimensão eclesial, ou deveríamos falar de setores eclesiásticos dominantes e oficiais? Não esqueçamos que a posição de Jesus nunca foi de aplicar leis punitivas, porém, cheio de misericórdia e de compaixão, fazer perguntas instigantes diante da mulher adúltera que ia ser lapidada ou, escandalizando os próprios discípulos, dialogar com a samaritana, que não seguia a religião dos judeus e que tinha tido sete homens em sua vida. As leis ficavam por conta dos fariseus formalistas.
Esse tema torna-se mais complexo, pois, se o analisarmos dentro da própria Igreja Católica, em todas as suas dimensões. Tenho falado inúmeras vezes de temas congelados dentro da mesma, que precisam ser reabertos ao debate, como o celibato obrigatório, a ordenação de homens casados e de mulheres - para permitir o acesso à Eucaristia a um número maior de fiéis - e os temas da sexualidade e da reprodução. Um bispo francês, Jacques Gaillot, que enfrentou esses temas foi afastado de sua diocese de Évreux e criou a diocese virtual de Partênia. O teólogo espanhol Juan Masiá, pela mesma razão, foi levado ao "silêncio obsequioso", como Leonardo Boff e Ivone Gebara, há uns anos atrás. Mudou-se para o Japão e um livro seu está sendo publicado em português (Encontros de bioética, Loyola, 2007). O debate está em pauta. Mas sabemos que antes de mudanças, aqueles que as temem, se fecham num rictus rígido, que não esconde uma posição defensiva, historicamente perdedora, contra a emergência do novo. Já no século XIX, um grande teólogo, convertido ao catolicismo, o futuro Cardeal J. H. Newman, falou do desenvolvimento da doutrina, que não é um legado imutável, mas que se vai desdobrando e esclarecendo aos poucos. Aliás, o mesmo teólogo, logo depois do concílio Vaticano I, quando foi definida a infalibilidade papal, isolada de uma visão de Igreja mais ampla (que o Vaticano II completaria, no documento De Ecclesia), escreveu a um amigo angustiado: "Pio (IX) não é o último dos papas... Tenhamos paciência e confiança, um novo papa e um novo concílio polirão a obra" (carta de 3/4/1871). Poderíamos aplicar a mesma observação aos dois últimos pontificados.
Há, muitas vezes, nos meios conservadores, uma grande ignorância histórica. Faz alguns anos, pelo Syllabus, Pio IX condenou a democracia e a liberdade de imprensa. Esse documento não foi revogado, mas sepultado num esquecimento incômodo. Como antes a Inquisição, com a tortura e a queima de hereges e também a condenação de Galileu (uma retratação chegou com enorme atraso). A posição violentamente anti-moderna de Pio X, no começo do século passado, foi desbloqueada por seu sucessor, Bento XV. O Papa Pio XII faria o elogio da democracia em Mensagens de Natal, ao final da Segunda Guerra e o Vaticano II (1962-1965) seria um grande diálogo com a modernidade. Ver seu documento Gaudium et Spes. A consciência histórica caminha e com ela também a consciência eclesial. A aprovação da pena de morte e a noção de guerra justa vão desaparecendo na doutrina e nas alocuções dos papas. Ver a posição firme de João Paulo II diante da guerra do Iraque. Em contraste com a de Bush, que teve de recorrer à mentira e à fraude (e mesmo de setores da cúria romana que quiseram amenizar, em declarações ambíguas, a posição do próprio papa).
A mesma falta de sensibilidade histórica pode ser aplicada a temas como a interrupção voluntária da gravidez e à utilização, em pesquisas, de células-tronco embrionárias. Nesses casos, é preciso distinguir entre embrião e feto, como fases diferenciadas de um processo. Para Santo Agostinho no século IV e Tomás de Aquino no século XIII, a "animação", isto é, a implantação da alma no ser em gestação, se daria depois de algumas semanas desde a concepção. A partir de 1869, porém, a posição oficial da Igreja até agora, tem sido de defender com vigor o direito à vida "desde a concepção até a morte". Hoje em dia admite-se como critério para definir a morte, a morte cerebral, ainda que o coração esteja pulsando; sem o que não haveria transplantes de órgãos, aos quais a Igreja não se opõe. Se isso se dá ao final da cadeia, por que não revisar, com critérios análogos, o início da mesma? Quando começa a pessoa humana no processo da gestação? Na concepção inicial ou na criação do córtex cerebral? Questões em aberto em meios teológicos (Küng, Forcano, Louise Melançon, entre outros). Tema a ser debatido com lucidez e tranqüilidade numa Igreja que deveria rever-se permanentemente diante de tantos desafios sempre renovados. Há atualmente uma esquizofrenia entre prescrições oficiais sobre a reprodução humana (Casti Connubii, Pio XI, 1930; Humanae Vitae , Paulo VI, 1968) e a prática dos católicos (ex. caso dos preservativos). Na África, religiosos e religiosas distribuem camisinhas diante de uma terrível endemia de Aids.
Há que poder participar de um debate livre e corajoso. Na Igreja, muitos teólogos estão com dificuldade de entrar nele, por medo de perder sua licença de ensinar em estabelecimentos católicos (em termos técnicos, a partir de uma autoridade que inibe a reflexão livre e responsável, isto se chama, em latim, missio canonica). Tal decisão abateu-se sobre Hans Küng, que passou depois a ensinar em Tubinga teologia ecumênica.
Sempre que posso defendo o que o governo vem fazendo e aplaudo calorosamente a gestão do ministro Temporão. Mas tenho dificuldade de entender, em sentido contrário, a última nomeação governamental para o STF de Carlos Alberto Direito que, antes de tomar posse, pré-julgando, se declarou contra o aborto e o uso de células-tronco embrionárias. O presidente Bush, na mesma direção, vem nomeando ministros conservadores no Supremo americano, para voltar atrás na legislação a esse respeito. Aliás, nós que criamos a Ação Popular em 1962, com a inspiração do personalismo comunitário de Emmanuel Mounier e a opção de um socialismo democrático, encontramos então o atual ministro do STF, na política estudantil, numa posição oposta e conservadora. Parece que ele foi indicado por pressão de setores católicos tradicionais e de seu amigo Moreira Franco (pasmem, este foi da AP, assim como o candidato presidencial derrotado José Serra). Curiosos são os caminhos enviesados da história...
Volto ao começo. Sinto-me na obrigação de expressar, como católico, meu mal-estar pela maneira como o problema vem sendo abordado por setores oficiais de minha Igreja. Termino com a introdução que escrevi a meu livro de 2004, Do Vaticano II a um novo concílio? Olhar de um cristão leigo sobre a Igreja (Loyola, 2004): "Muitas décadas de atividades eclesiais como cristão leigo - meio século!- dão-me o direito de ser franco, honesto e direto, tentando varrer uma auto-censura tão comum nos meios eclesiásticos prudentes e sujeitos a sanções autoritárias. ... (essa atitude) quer ser a expressão de uma fidelidade impaciente ou de uma rebeldia filial, de quem se sente profundamente comprometido com a Igreja de Cristo que, dividida, frágil e tantas vezes incoerente, não deixa de ser ‘o Reino em germe’ (de Lubac), ‘a presença urgente, a presença importuna de Deus entre nós’ ".


*Sociólogo e ex-funcionário das Nações Unidas, é Diretor do Programa de Estudos Avançados em Ciência e Religião da Universidade Candido Mendes

16 de novembro de 2007

Retirada sustentável

Leonardo Boff*

Aos grandes meios de comunicação passou despercebido o impressionante discurso que o Presidente da Bolívia Evo Morales fez em outubro nas Nações Unidas. Falou menos como chefe de Estado e mais como um líder indígena, cuja visão da Terra e dos problemas ambientais está em claro confronto com o sistema mundial imperante. Denuncia sem rodeios: "a doença da Terra chama-se modelo de desenvolvimento capitalista" que permite a perversidade de "três famílias possuírem ingressos superiores ao PIB dos 48 paises mais pobres" e que faz com que "os Estados Unidos e a Europa consumam em média 8,4 vezes mais do que a média mundial". E fez uma ponderação sábia e de graves conseqüências: "perante esta situação, nós, os povos indígenas e os habitantes humildes e honestos deste Planeta, acreditamos que chegou a hora de fazer uma parada para reencontrarmos as nossas raízes com respeito à Mãe Terra, com a Pachamama como a chamamos nos Andes".
O alarme ecológico provocado pelo aquecimento global já iniciado deve produzir este primeiro efeito: fazermos uma parada para repensarmos o caminho até agora andado e criarmos novos padrões que nos permitam continuar juntos e vivos neste pequeno planeta. Temos, sim, que reencontrar nossas raízes terrenais. Urge que reconquistemos a consciência de que homem vem de humus (terra fecunda) e que Adão vem de Adamah (terra fértil). Somos Terra que sente, pensa, ama e venera. E agora, devido a um percurso civilizatório de alto risco, montado sobre a ilimitada exploração de todos os recursos da Terra e da vontade desenfreada de dominação sobre a natureza e sobre os outros, chegamos a um ponto crítico em que a sobrevivência humana corre perigo.
Assim como está não podemos continuar, caso contrário, iremos ao encontro de nossa própria destruição. Ainda recentemente observava Gorbachev: "precisamos de um novo paradigma civilizatório porque o atual chegou ao seu fim e exauriu suas possibilidades; temos que chegar a um consenso sobre novos valores ou em 30 ou 40 anos a Terra poderá existir sem nós". Conseguiremos um consenso mínimo quando sabemos que o capitalismo e a ecologia obedecem a duas lógicas contrárias? O primeiro se preocupa em como ganhar mais dominando a natureza e buscando o benefício econômico e a ecologia como produzir e viver em harmonia com a natureza e com todos os seres. Há aqui uma incompatibilidade de base. Ou o capitalismo se nega a si mesmo e assim cria espaço para o modo sustentável de viver ou então nos levará fatalmente ao destino dos dinossauros.
Mas somos confiantes como Evo Morales que em seu discurso enfatizou: "tenho absoluta confiança no ser humano, na sua capacidade de raciocinar,de aprender com seus erros, de recuperar as suas raízes e de mudar para a reconstrução de um mundo justo, diverso, inclusivo, equilibrado e harmônico com a natureza".
Consola-nos a sentença do poeta alemão Hölderin: "Quando grande é o perigo, grande é também a chance de salvação". Quando, dentro de anos, atingirmos o coração da crise e tudo estiver em jogo, então valerá o máxima da sabedoria ancestral e do cristianismo dos primórdios:"em caso de extrema necessidade, tudo se torna comum". Capitais, saberes e haveres serão participados por todos para poder salvar a todos. E nos salvaremos, com a Terra.


*Teólogo e professor emérito de ética da UERJ

13 de novembro de 2007

Refundar a República para todos

Marcelo Barros *

Ao recordar a proclamação da República, neste 15 de novembro, muitos brasileiros se dão conta de que o atual modelo político, de caráter representativo eleitoral, embora hoje continue vigente na maior parte dos países do mundo, está em crise e precisa urgentemente ser refundado, em bases novas e mais verdadeiramente democráticas. Intelectuais prestigiados em todo o mundo como Noam Chomsky, José Saramago, Zigmunt Bauman e mesmo um cômico de TV italiana como Beppe Grillo revelam o que qualquer cidadão pode constatar: o divórcio entre o poder e a política tem aumentado, como também a distância entre o Estado e a sociedade civil. Os partidos que, em outro tempo, representavam linhas de pensamento na sociedade, hoje, significam uma dança nômade de siglas indecifráveis que acabam encobrindo, quase todas elas, o mesmo tipo de política baseada nos privilégios de quem está no poder e no interesse econômico de grandes grupos nacionais e internacionais. Neste quadro, as decisões políticas são mais tomadas por corporações financeiras do que pelos políticos que o povo elege. Existem políticos honestos e consagrados ao povo, mas o modelo que acaba se impondo nos meios de comunicação é dos que fazem política como negócio particular. O Estado, sempre mais diminuído de suas funções, nem parece mais capaz de garantir a segurança mínima e os direitos convencionais para seus cidadãos. Na maioria dos casos, o papel dos cidadãos acaba restrito a votar em representantes que se comunicam com seus eleitores a cada quatro anos, quando precisam do seu voto.
O panorama das próximas eleições presidenciais nos Estados Unidos revela uma enorme abstenção dos eleitores, assim como a profunda desesperança da população com este modelo. Ao mesmo tempo que existe a consciência de que a modernidade "líquida" (expressão do sociólogo Zigmunt Bauman) produz estruturas políticas que também se liquidificam, não se tem ainda um modelo alternativo delineado para o qual possamos migrar com segurança.
Neste sábado 10 de novembro, em Santiago do Chile, encerrou-se o encontro dos governantes e representantes de todos os povos da América Latina sobre a integração do continente. Ao mesmo tempo que ocorreu o encontro de cúpula, as organizações indígenas e muitos grupos sociais fizeram um encontro para discutir os mesmos temas e propor soluções a partir das bases. Eram mais de duas mil pessoas de todos os países da América Latina e as conclusões estão à disposição de todos na internet em um documento chamado "Manifesto de Santiago". Ali todos concordam que, no continente, está ocorrendo um fenômeno novo. Existe o começo de um processo social e político novo a partir da organização dos povos indígenas e de sua articulação internacional. Pela primeira vez, no continente, o sonho que o libertador Simon Bolívar tinha de formar uma "grande pátria latino-americana" começa a se consolidar, a partir do respeito à autonomia política de cada Estado soberano, mas através de uma solidariedade que nos permita enfrentar o colonialismo que, durante 500 anos, manteve nossos povos como escravos e dependentes. Agora, estes povos empobrecidos não aceitam mais ser considerados cidadãos apenas pelo direito de votar. Querem ser sujeitos e protagonistas dos seus destinos e não somente ter uma democracia eleitoral e representativa, mas um verdadeiro processo democrático social e econômico que permita ao povo conquistar o direito de viver na sua terra, ter trabalho digno e garantir educação e dignidade de vida para seus filhos.
Na carta de introdução à Agenda Latino-americana de 2008, Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, diz: "Temos de fazer da política um exercício básico de cidadania. A cidadania é o reconhecimento político dos direitos humanos. Porque somos humanidade, somos sociedade. O filósofo italiano Giorgio Agamben afirma: "A separação entre o humano e o político que vivemos na atualidade é a fase extrema da excisão entre os direitos do homem e os direitos do cidadão".
Assim como ainda há quem ensine na escola uma história protagonizada por heróis individuais (Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, Dom Pedro I fez a independência e o Marechal Deodoro proclamou a República), sem se dar conta dos movimentos comunitários e sociais que possibilitaram estas mudanças, também hoje, há quem veja a integração latino-americana como politicagem de líderes populistas ou até ditatoriais.
Organismos internacionais da ONU têm reconhecido oficialmente a honestidade dos processos eleitorais democráticos nas recentes eleições, tanto na Venezuela, como na Bolívia e no Equador. Têm dado prêmios internacionais aos esforços para consolidar um atendimento de saúde que atinja a todo o povo pobre. Valorizam a vitória da alfabetização de adultos e educação popular que avança em vários paises do continente. Para consolidar isso, vários países votaram por reformar a sua Constituição. Este processo une o Congresso Nacional, organizações indígenas e entidades da sociedade civil, em um processo de diálogo nacional novo. Um jornalista do Le Monde Diplomatique, escutou de uma velha índia em uma aldeia dos Andes: "Estou aprendendo a ler para discutir as leis e colaborar com a nova Constituição do país".
No Brasil, os movimentos sociais e camadas mais pobres da população começam a se mobilizar por uma maior participação das bases e por uma justiça social mais estrutural. Foi este anseio que se sentiu entre os quase seis mil participantes do 6º Encontro nacional do Movimento Fé e Política que, em Nova Iguaçu, RJ, reuniu neste final de semana, (10 e 11/11/2007), cristãos e militantes sociais, ligados a várias Igrejas cristãs, como também a grupos religiosos populares. Divididas em mais de vinte plenários temáticos, as pessoas puderam expressar suas convicções e esperanças. Uma conclusão comum foi a urgência de fortalecer a consciência de pertencermos todos a América Latina e participarmos juntos deste caminho de libertação e integração continental.
Isso pode parecer vago e utópico. Entretanto, é esta capacidade de utopia que permite a resistência e fortalece a confiança de que o povo é capaz de transformar a realidade. Oscar Wilde dizia: "Um mapa-mundi que não inclua a utopia não vale a pena nem olhar, pois deixa de fora o único país em que a humanidade está sempre desembarcando. E quando a humanidade lá desembarca, ela olha em volta e, ao ver um país melhor, iça as velas. O progresso é a realização das utopias".


* Monge beneditino

10 de novembro de 2007

Lula no país das maravilhas

Um Estatuto deficiente

Frei Betto*

Está em debate no Congresso Nacional o projeto do senador Paulo Paim (PT-RS) de um Estatuto do Portador de Deficiência. Ora, a Constituição é o estatuto de todo brasileiro, inclusive a pessoa com deficiência. Um estatuto especial faria de cada deficiente um cidadão à parte. Por isso a sua aprovação é inoportuna, contraria as discussões e decisões desse segmento da população (cerca de 24 milhões de pessoas), e sua história e conquistas.
A idéia de um estatuto especial se justifica quando um determinado segmento da sociedade necessita de regramento jurídico específico. Foi assim com o Estatuto da Criança e do Adolescente e o Estatuto do Idoso. Ambos trouxeram novos paradigmas normativos, conceituais e políticos.
As instituições envolvidas com a questão da pessoa com deficiência adotam, como estratégia de luta contra a exclusão, a transversalidade do tema da deficiência no contexto das políticas públicas e das determinações legais. Por esta ótica, a temática tem sido inserida nas questões fundamentais da cidadania - saúde, educação, trabalho, previdência e assistência social.
A aprovação de um estatuto específico seria um retrocesso, transformaria pessoa com deficiência em uma diferenciada categoria de cidadão brasileiro.
Contudo, a proposta do senador Paim provoca um fato inédito: o movimento de pessoas com deficiência, ativo na década de 80, e que depois se desarticulou, dando espaço a atividades e atitudes isoladas de ONGs, agora se une e ganha força através da luta contra o estatuto. Algumas instituições com representatividade e liderança integram o "Movimento Nacional pela Constituição e contra o Estatuto".
Ressurge do susto causado pela intenção de se fazer um estatuto sem ampla e aberta discussão e participação do segmento um novo momento na luta por cidadania das pessoas com deficiência. A sociedade civil se organiza e busca atuar de forma independente para conquistar seus direitos.
A história da proposta do senador Paim pode ser resumida pelos seguintes fatos: Teresa Cruvinel publicou em sua coluna jornalística de 23 de setembro deste ano: "Deve ser difícil para Paim, engajado na defesa das minorias, lidar com a rejeição à proposta". O senador reagiu: "São receios justos, devemos conversar, mudar o que não esteja claro. Mas, se apontarem um só ponto prejudicial aos deficientes, eu rasgo o Estatuto".
As ONGs que atuam na área ressaltam, entre outros argumentos, estes quatro: Se aprovado, o projeto revogaria a Lei de Acessibilidade e, conseqüentemente, os prazos estabelecidos pelo seu regulamento. Determinando regulamentação futura, anularia a já existente e os prazos em curso. Como efeito imediato os concessionários de transportes coletivos estariam desobrigados de adequá-los à utilização das pessoas com deficiência até a edição de novo decreto de regulamentação.
Da mesma forma, aprovado o projeto, e revogada a Lei de Acessibilidade, e os prazos estabelecidos pelo seu regulamento, os entes federativos estariam desobrigados de construírem acessos aos logradouros e locais públicos, de uso coletivo da União, estados e municípios.
O projeto determina a intervenção obrigatória do Ministério Público em todas as ações judiciais em que figure, como parte, qualquer pessoa com deficiência, desvirtuando as atribuições do Ministério Público e incorrendo em inconstitucionalidade. Uma ação de despejo, por exemplo, envolvendo uma pessoa com deficiência totalmente capaz, passaria a exigir a intervenção do Ministério Público. A pessoa com deficiência tornar-se-ia, na prática, incapaz e obrigatoriamente tutelada pelo Estado.
Com a aprovação do projeto e a revogação tácita da Lei 7.853/89 - que determina a matrícula compulsória de pessoas com deficiência - e, em efeito, a perda de eficácia de parte da Lei de Diretrizes e Bases da Educação, as escolas regulares ficariam desobrigadas de praticarem a política de educação inclusiva para pessoas com deficiência.
O PT nasceu e se elegeu com o propósito de defender os direitos dos pobres e das minorias, disposto a ouvi-los na formulação de seus projetos políticos. Seria uma lástima marcar a sua história com a aprovação de um estatuto que, além de inoportuno, é constitucionalmente deficiente.
[Autor, em parceria com Luís Fernando Veríssimo e outros, de "O desafio ético" (Garamond), entre outros livros].


* Frei dominicano.

9 de novembro de 2007

Júlio Lancellotti

Frei Betto*
Veja o leitor, há uma revista semanal que odeia pobres e quem a eles se dedica. Revista que ignora as regras básicas do bom jornalismo e nem se preocupa em bem informar o leitor. Todas as suas matérias são editorializadas, de tal modo que até mesmo uma entrevista é publicada, não segundo palavras do entrevistado, mas de acordo com a conveniência do veículo entrevistador.

Semanas atrás, no encarte contido na edição destinada a São Paulo, a revista desancou uma das pessoas mais íntegras que conheci em toda a minha vida: o padre Júlio Lancellotti. Um dos raros santos vivos de quem tenho a graça de ser amigo.
Júlio se dedica, há anos, ao povo da rua da capital paulista: pedintes, doentes mentais, desempregados, catadores de papel etc. A todos serve com espírito evangélico. Quando sofrem violência por parte da polícia, é Júlio o anjo que lhes dá proteção. E abre as portas de sua igreja para que ali se sintam em casa.
Júlio faz o mesmo com a crianças de rua e os internos da Febem. E não age como quem se interessa em "catequizá-los". Sabe muito bem, graças à sua boa formação teológica, que essa gente excluída expressa de modo especial a face viva de Jesus, que com eles se identificou (Mateus 25, 31-44). Quer apenas que se sintam pessoas dotadas de dignidade e direitos, ainda que a nossa sociedade, fundada na desigualdade econômica, os tenha escorraçado para as calçadas da mendicância e os becos do desamparo.
Veja, leitor, a revista semanal, do alto de seu empertigado farisaísmo, identificou na atitude de vida do padre Lancellotti pura demagogia, levantando indagações que fazem eco às cobranças dos fariseus a Jesus. Por que o padre Júlio não vai morar debaixo da ponte? Por que não abre a igreja para servir de moradia ao povo da rua? O que revela desinformação a respeito dessa parcela sofrida da população.
Só o preconceito e a ignorância explicam a miopia de certas pessoas que confundem morador de rua com bandido e julgam que ele vive ao relento por não ter um teto que o abrigue. Há exceções, mas a maioria faz da rua uma opção de vida. Ali há liberdade, o descompromisso, o fim de opressões outrora sofridas no trabalho e na família (espancamentos, abusos sexuais, alcoolismo etc). E são raros os que mendigam. Preferem viver do próprio trabalho, como catar lixo reciclável.
Quem levaria para casa uma criança nascida com Aids e abandonada pela família? Padre Júlio já levou centenas. A revista não viu as duas unidades da Casa Vida em São Paulo, que visito com freqüência. Ali as crianças recebem cuidados médicos e terapêuticos; são educadas no asseio e escolarizadas; aprendem a ter auto-estima e ser felizes. Cega, a publicação semanal não quis ver nada disso. Nem mesmo este detalhe: cerca de 90 crianças, mesmo virtualmente condenadas à morte por uma enfermidade incurável, já foram adotadas por famílias européias.
A revista que se gaba de ver não viu que há milagres no mundo: casais que, impossibilitados de procriar, escolhem adotar uma criança filha da miséria e contaminada pelo vírus HIV. Graças à evangélica dedicação do padre Júlio Lancellotti, cujo testemunho enobrece a espécie humana.

*Frei dominicano. Escritor.

8 de novembro de 2007

Armagedon humano?

Leonardo Boff*

Os atuais cenários sombrios sobre o futuro do sistema-vida e especificamente da espécie humana permitem que biólogos, bioantropólogos e astrofísicos aventem o possível desaparecimento da espécie homo sapiens/demens ainda neste século. Aduzem argumentos que merecem ponderação. O mais robusto parece ser aquele da superpopulação articulada com a dificuldade de adaptação às mudanças climáticas. Na escala biológica verifica-se um crescimento exponencial. A humanidade precisou um milhão de anos para alcançar em 1850 um bilhão de pessoas. Os espaços temporais entre os índices de um crescimento a outro diminuem cada vez mais. De 75 anos - de 1850 a 1925 - passaram para 5 anos de diferença. Prevê-se que por volta de 2050 haverá dez bilhões de pessoas. É triunfo ou dano?
Lynn Margulis e Dorian Sagan, notáveis microbiólogos, no conhecido livro Microcosmos (1990) afirmam com dados dos registros fósseis e da própria biologia evolutiva que um dos sinais do colapso próximo de uma espécie é sua rápida superpopulação. Isso pode ser comprovado por micro-organismos colocados na cápsula Petri (placa redonda com colônias de bactérias e nutrientes). Pouco antes de atingirem as bordas da placa e se esgotarem os nutrientes, multiplicam-se de forma exponencial. E de repente morrem. Para a humanidade, comentam eles, a Terra pode mostrar-se idêntica a uma cápsula Petri. Com efeito, ocupamos quase toda a superfície terrestre, deixando apenas 17% livre: desertos, floresta amazônica e regiões polares. Estamos chegando às bordas físicas da Terra. Há explosão demográfia e decrescimento dos meios de vida num planeta limitado. Sinal precursor de nossa próxima extinção?
O prêmio Nobel em medicina, Christian de Duve, sustenta que estamos assistindo a sintomas que precederam no passado as grandes dizimações. Normalmente desaparecem por ano 300 espécies vivas porque chegaram ao seu clímax evolucionário. Dada a pressão industrialista global sobre a biosfera estão desaparecendo cerca de 3.500. Um desastre biológico. Será que agora não chegou a nossa vez?
Carl Sagan, já falecido, via no intento humano de demandar à Lua e enviar naves espaciais como o Voyager 1 para fora do sistema solar, a manifestação do inconsciente coletivo que pressente o risco da extinção próxima. A vontade de viver nos leva a excogitar formas de sobrevivência para além da Terra. O astrofísico Stephen Hawking fala da possivel colonização extrasolar com naves, espécie de veleiros espaciais, impulsionadas por raios laser que lhes confeririam uma velocidade de trinta mil quilômetros por segundo. Mas para chegar a outros sistemas planetários teríamos que percorrer bilhões e bilhões de quilômetros, necessitando pelo menos de um século de tempo. Ocorre que somos prisioneiros da luz, cuja velocidade de trezentos mil quilômetros por segundo é até hoje insuperável. Mesmo assim só para chegar a estrela mais próxima - a Alfa do Centauro - precisaríamos de quarenta e três anos, sem ainda saber como frear essa nave a esta altíssima velocidade.
Tais reflexões nos permitem falar de um possível Armagedon humano. Este representa um desafio para as religiões que vêem o fim da espécie como obra do Criador e não da atividade humana. Para o Cristianismo a morte coletiva, mesmo induzida, não impede o triunfo final da vida pela via da ressurreição e da transfiguração de toda a criação por Deus.


*Teólogo e professor emérito de ética da UERJ

6 de novembro de 2007

Limites do ilimitado: humanizar o trânsito urbano

Marcelo Barros*

Embora exista desde milênios, a Cidade exibe as marcas fundamentais da civilização urbana deste início de século. Nas ultimas duas décadas, mais de um bilhão de seres humanos migrou para as cidades. Foi o maior movimento populacional da história. Nos mais diversos continentes multiplicaram-se cidades com mais de dois milhões de habitantes. Não por caso, ou apenas por questões culturais. A mudança é fruto de uma organização social e econômica, que mais do que nunca, concentrou a propriedade da terra e fortaleceu um modelo agrícola de exportação que obriga os lavradores a deixarem suas terras procurando refúgio nas periferias das grandes cidades.
A especulação imobiliária cria um muro imaginário, mas quase intransponível entre as áreas nobres e as periferias entregues ao deus-dará. Como se fosse dividida em duas ou três, a cidade tem áreas que servem de centro do poder político, outros locais liberados para atividades econômicas, culturais ou para lazer e tem também os bairros e ajuntamentos de periferia, nos quais o planejamento urbano é quase ausente. Para os que têm recursos, a cidade é multicultural e se manifesta na pluriformidade de roupas, gestos, cenas e serviços. Para a população empobrecida que, em cada cidade, é mais tratada como massa de refugiados do que como cidadãos de pleno direito, a cidade é apenas o formigueiro humano, discriminado e agredido em sua dignidade.
A deterioração das condições de vida em bairros de periferia mesmo em cidades prósperas dos Estados Unidos como Detroit ou Chicago, que apresentam índices de desenvolvimento urbano em tudo piores do que as de muitas favelas do Rio de Janeiro, Guaquil, Salvador ou Bombay. Isso para não falar dos aglomerados humanos nas cidades norte-americanas de fronteira, guetos de refugiados, como quaisquer campos de concentração em tempos de guerra. O mundo inteiro assistiu às revoltas e quebra-quebra de moradores de bairros periféricos de Paris e de algumas cidades francesas.
Como a corrente sempre quebra no elo mais fraco, toda cidade mostra sua maior ou menor exeqüibilidade na organização do trânsito. São Paulo conta com centros administrativos dignos do primeiro mundo e intensa vida cultural, mas, infelizmente, a sua cara é o trânsito caótico, perigoso e congestionado. Na Europa, o trânsito urbano é o que mais diferencia Roma e Paris, assim como, nos Estados Unidos, se diferenciam a imensa Nova York, na qual o trânsito é intenso e complexíssimo, mas nunca deixa de fluir e a latino-americana Miami que, de vez em quando, pára e atrasa a vida de todo o mundo.
Em cidades como Goiânia, o lado mais terrível da desumanização do trânsito é a violência que continua atingindo tanto a pedestres, como a passageiros. Acidentes mortais se multiplicam e pequenos incidentes entre motoristas têm, uma vez ou outra, gerado balas e mortes gratuitas.
Conforme os jornais, entre as vítimas do trânsito nosso de cada dia, os motociclistas são as vítimas mais freqüentes e quase rotineiras. O Popular (5ª feira, 25/1072007) confirma: "Mortes sobre duas rodas não param de crescer". Só em Goiânia, a média de motociclistas vitimados pelo trânsito é de quase um por dia. O jornal explica que as principais causas desta tragédia cotidiana são a imprudência, o excesso de velocidade (das motos) e o desrespeito à lei. É bom verificar também se, por trás deste quadro, não existe ainda a angústia dos motociclistas pobres com a precariedade dos empregos, a pressão dos patrões para que produzam mais e em menos tempo. Entretanto, certamente, na base de tudo, está o pouco cuidado com a vida, seja a sua própria, seja a do outro.
É possível que, por trás desta violência quase rotineira em nossas grandes cidades, haja também um fenômeno complexo que é o fato do trânsito ser quase o único espaço no qual, sob certo ponto de vista, as classes sociais se encontram em condições de pretensa igualdade de direitos. O trânsito é quase o único lugar no qual centro e periferia se encontram ou se cruzam, sob o risco de se chocarem. Em um plano inconsciente das relações estruturais, a sociedade, do modo que é organizada, parece quase permitir que exista certo grau de tensão ou de olhar atravessado entre quem dirige carro particular e os motoristas de táxi, entre quem conduz um ônibus ou um veículo qualquer e um motociclista, em sua maioria, jovem e pobre.
Muitas mortes ocorrem por causa de uma violência difusa no modo das pessoas dirigirem e por causa das frágeis condições de segurança dos veículos e das estradas.
Por mais que existam, precisamos de mais campanhas de paz no trânsito e de respeito à vida. No trânsito, como na família ou no trabalho, é possível trabalhar para instaurar relações regidas pela cultura de paz e de administração não-violenta dos conflitos que, porventura ocorrerem. Entretanto, a raiz da mudança cultural ocorrerá quando olharmos de forma mais solidária e amorosa a todo ser humano que, em nossa cidade se torna nosso irmão e companheiro. Aí sim, teremos um trânsito e uma convivência urbana de verdadeiros cidadãos.


*Monge beneditino, teólogo e escritor.