13 de novembro de 2007

Refundar a República para todos

Marcelo Barros *

Ao recordar a proclamação da República, neste 15 de novembro, muitos brasileiros se dão conta de que o atual modelo político, de caráter representativo eleitoral, embora hoje continue vigente na maior parte dos países do mundo, está em crise e precisa urgentemente ser refundado, em bases novas e mais verdadeiramente democráticas. Intelectuais prestigiados em todo o mundo como Noam Chomsky, José Saramago, Zigmunt Bauman e mesmo um cômico de TV italiana como Beppe Grillo revelam o que qualquer cidadão pode constatar: o divórcio entre o poder e a política tem aumentado, como também a distância entre o Estado e a sociedade civil. Os partidos que, em outro tempo, representavam linhas de pensamento na sociedade, hoje, significam uma dança nômade de siglas indecifráveis que acabam encobrindo, quase todas elas, o mesmo tipo de política baseada nos privilégios de quem está no poder e no interesse econômico de grandes grupos nacionais e internacionais. Neste quadro, as decisões políticas são mais tomadas por corporações financeiras do que pelos políticos que o povo elege. Existem políticos honestos e consagrados ao povo, mas o modelo que acaba se impondo nos meios de comunicação é dos que fazem política como negócio particular. O Estado, sempre mais diminuído de suas funções, nem parece mais capaz de garantir a segurança mínima e os direitos convencionais para seus cidadãos. Na maioria dos casos, o papel dos cidadãos acaba restrito a votar em representantes que se comunicam com seus eleitores a cada quatro anos, quando precisam do seu voto.
O panorama das próximas eleições presidenciais nos Estados Unidos revela uma enorme abstenção dos eleitores, assim como a profunda desesperança da população com este modelo. Ao mesmo tempo que existe a consciência de que a modernidade "líquida" (expressão do sociólogo Zigmunt Bauman) produz estruturas políticas que também se liquidificam, não se tem ainda um modelo alternativo delineado para o qual possamos migrar com segurança.
Neste sábado 10 de novembro, em Santiago do Chile, encerrou-se o encontro dos governantes e representantes de todos os povos da América Latina sobre a integração do continente. Ao mesmo tempo que ocorreu o encontro de cúpula, as organizações indígenas e muitos grupos sociais fizeram um encontro para discutir os mesmos temas e propor soluções a partir das bases. Eram mais de duas mil pessoas de todos os países da América Latina e as conclusões estão à disposição de todos na internet em um documento chamado "Manifesto de Santiago". Ali todos concordam que, no continente, está ocorrendo um fenômeno novo. Existe o começo de um processo social e político novo a partir da organização dos povos indígenas e de sua articulação internacional. Pela primeira vez, no continente, o sonho que o libertador Simon Bolívar tinha de formar uma "grande pátria latino-americana" começa a se consolidar, a partir do respeito à autonomia política de cada Estado soberano, mas através de uma solidariedade que nos permita enfrentar o colonialismo que, durante 500 anos, manteve nossos povos como escravos e dependentes. Agora, estes povos empobrecidos não aceitam mais ser considerados cidadãos apenas pelo direito de votar. Querem ser sujeitos e protagonistas dos seus destinos e não somente ter uma democracia eleitoral e representativa, mas um verdadeiro processo democrático social e econômico que permita ao povo conquistar o direito de viver na sua terra, ter trabalho digno e garantir educação e dignidade de vida para seus filhos.
Na carta de introdução à Agenda Latino-americana de 2008, Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, diz: "Temos de fazer da política um exercício básico de cidadania. A cidadania é o reconhecimento político dos direitos humanos. Porque somos humanidade, somos sociedade. O filósofo italiano Giorgio Agamben afirma: "A separação entre o humano e o político que vivemos na atualidade é a fase extrema da excisão entre os direitos do homem e os direitos do cidadão".
Assim como ainda há quem ensine na escola uma história protagonizada por heróis individuais (Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, Dom Pedro I fez a independência e o Marechal Deodoro proclamou a República), sem se dar conta dos movimentos comunitários e sociais que possibilitaram estas mudanças, também hoje, há quem veja a integração latino-americana como politicagem de líderes populistas ou até ditatoriais.
Organismos internacionais da ONU têm reconhecido oficialmente a honestidade dos processos eleitorais democráticos nas recentes eleições, tanto na Venezuela, como na Bolívia e no Equador. Têm dado prêmios internacionais aos esforços para consolidar um atendimento de saúde que atinja a todo o povo pobre. Valorizam a vitória da alfabetização de adultos e educação popular que avança em vários paises do continente. Para consolidar isso, vários países votaram por reformar a sua Constituição. Este processo une o Congresso Nacional, organizações indígenas e entidades da sociedade civil, em um processo de diálogo nacional novo. Um jornalista do Le Monde Diplomatique, escutou de uma velha índia em uma aldeia dos Andes: "Estou aprendendo a ler para discutir as leis e colaborar com a nova Constituição do país".
No Brasil, os movimentos sociais e camadas mais pobres da população começam a se mobilizar por uma maior participação das bases e por uma justiça social mais estrutural. Foi este anseio que se sentiu entre os quase seis mil participantes do 6º Encontro nacional do Movimento Fé e Política que, em Nova Iguaçu, RJ, reuniu neste final de semana, (10 e 11/11/2007), cristãos e militantes sociais, ligados a várias Igrejas cristãs, como também a grupos religiosos populares. Divididas em mais de vinte plenários temáticos, as pessoas puderam expressar suas convicções e esperanças. Uma conclusão comum foi a urgência de fortalecer a consciência de pertencermos todos a América Latina e participarmos juntos deste caminho de libertação e integração continental.
Isso pode parecer vago e utópico. Entretanto, é esta capacidade de utopia que permite a resistência e fortalece a confiança de que o povo é capaz de transformar a realidade. Oscar Wilde dizia: "Um mapa-mundi que não inclua a utopia não vale a pena nem olhar, pois deixa de fora o único país em que a humanidade está sempre desembarcando. E quando a humanidade lá desembarca, ela olha em volta e, ao ver um país melhor, iça as velas. O progresso é a realização das utopias".


* Monge beneditino

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13 de novembro de 2007

Refundar a República para todos

Marcelo Barros *

Ao recordar a proclamação da República, neste 15 de novembro, muitos brasileiros se dão conta de que o atual modelo político, de caráter representativo eleitoral, embora hoje continue vigente na maior parte dos países do mundo, está em crise e precisa urgentemente ser refundado, em bases novas e mais verdadeiramente democráticas. Intelectuais prestigiados em todo o mundo como Noam Chomsky, José Saramago, Zigmunt Bauman e mesmo um cômico de TV italiana como Beppe Grillo revelam o que qualquer cidadão pode constatar: o divórcio entre o poder e a política tem aumentado, como também a distância entre o Estado e a sociedade civil. Os partidos que, em outro tempo, representavam linhas de pensamento na sociedade, hoje, significam uma dança nômade de siglas indecifráveis que acabam encobrindo, quase todas elas, o mesmo tipo de política baseada nos privilégios de quem está no poder e no interesse econômico de grandes grupos nacionais e internacionais. Neste quadro, as decisões políticas são mais tomadas por corporações financeiras do que pelos políticos que o povo elege. Existem políticos honestos e consagrados ao povo, mas o modelo que acaba se impondo nos meios de comunicação é dos que fazem política como negócio particular. O Estado, sempre mais diminuído de suas funções, nem parece mais capaz de garantir a segurança mínima e os direitos convencionais para seus cidadãos. Na maioria dos casos, o papel dos cidadãos acaba restrito a votar em representantes que se comunicam com seus eleitores a cada quatro anos, quando precisam do seu voto.
O panorama das próximas eleições presidenciais nos Estados Unidos revela uma enorme abstenção dos eleitores, assim como a profunda desesperança da população com este modelo. Ao mesmo tempo que existe a consciência de que a modernidade "líquida" (expressão do sociólogo Zigmunt Bauman) produz estruturas políticas que também se liquidificam, não se tem ainda um modelo alternativo delineado para o qual possamos migrar com segurança.
Neste sábado 10 de novembro, em Santiago do Chile, encerrou-se o encontro dos governantes e representantes de todos os povos da América Latina sobre a integração do continente. Ao mesmo tempo que ocorreu o encontro de cúpula, as organizações indígenas e muitos grupos sociais fizeram um encontro para discutir os mesmos temas e propor soluções a partir das bases. Eram mais de duas mil pessoas de todos os países da América Latina e as conclusões estão à disposição de todos na internet em um documento chamado "Manifesto de Santiago". Ali todos concordam que, no continente, está ocorrendo um fenômeno novo. Existe o começo de um processo social e político novo a partir da organização dos povos indígenas e de sua articulação internacional. Pela primeira vez, no continente, o sonho que o libertador Simon Bolívar tinha de formar uma "grande pátria latino-americana" começa a se consolidar, a partir do respeito à autonomia política de cada Estado soberano, mas através de uma solidariedade que nos permita enfrentar o colonialismo que, durante 500 anos, manteve nossos povos como escravos e dependentes. Agora, estes povos empobrecidos não aceitam mais ser considerados cidadãos apenas pelo direito de votar. Querem ser sujeitos e protagonistas dos seus destinos e não somente ter uma democracia eleitoral e representativa, mas um verdadeiro processo democrático social e econômico que permita ao povo conquistar o direito de viver na sua terra, ter trabalho digno e garantir educação e dignidade de vida para seus filhos.
Na carta de introdução à Agenda Latino-americana de 2008, Dom Pedro Casaldáliga, bispo emérito de São Félix do Araguaia, diz: "Temos de fazer da política um exercício básico de cidadania. A cidadania é o reconhecimento político dos direitos humanos. Porque somos humanidade, somos sociedade. O filósofo italiano Giorgio Agamben afirma: "A separação entre o humano e o político que vivemos na atualidade é a fase extrema da excisão entre os direitos do homem e os direitos do cidadão".
Assim como ainda há quem ensine na escola uma história protagonizada por heróis individuais (Pedro Álvares Cabral descobriu o Brasil, Dom Pedro I fez a independência e o Marechal Deodoro proclamou a República), sem se dar conta dos movimentos comunitários e sociais que possibilitaram estas mudanças, também hoje, há quem veja a integração latino-americana como politicagem de líderes populistas ou até ditatoriais.
Organismos internacionais da ONU têm reconhecido oficialmente a honestidade dos processos eleitorais democráticos nas recentes eleições, tanto na Venezuela, como na Bolívia e no Equador. Têm dado prêmios internacionais aos esforços para consolidar um atendimento de saúde que atinja a todo o povo pobre. Valorizam a vitória da alfabetização de adultos e educação popular que avança em vários paises do continente. Para consolidar isso, vários países votaram por reformar a sua Constituição. Este processo une o Congresso Nacional, organizações indígenas e entidades da sociedade civil, em um processo de diálogo nacional novo. Um jornalista do Le Monde Diplomatique, escutou de uma velha índia em uma aldeia dos Andes: "Estou aprendendo a ler para discutir as leis e colaborar com a nova Constituição do país".
No Brasil, os movimentos sociais e camadas mais pobres da população começam a se mobilizar por uma maior participação das bases e por uma justiça social mais estrutural. Foi este anseio que se sentiu entre os quase seis mil participantes do 6º Encontro nacional do Movimento Fé e Política que, em Nova Iguaçu, RJ, reuniu neste final de semana, (10 e 11/11/2007), cristãos e militantes sociais, ligados a várias Igrejas cristãs, como também a grupos religiosos populares. Divididas em mais de vinte plenários temáticos, as pessoas puderam expressar suas convicções e esperanças. Uma conclusão comum foi a urgência de fortalecer a consciência de pertencermos todos a América Latina e participarmos juntos deste caminho de libertação e integração continental.
Isso pode parecer vago e utópico. Entretanto, é esta capacidade de utopia que permite a resistência e fortalece a confiança de que o povo é capaz de transformar a realidade. Oscar Wilde dizia: "Um mapa-mundi que não inclua a utopia não vale a pena nem olhar, pois deixa de fora o único país em que a humanidade está sempre desembarcando. E quando a humanidade lá desembarca, ela olha em volta e, ao ver um país melhor, iça as velas. O progresso é a realização das utopias".


* Monge beneditino

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