13 de dezembro de 2007

Atualizar as razões de esperar

Marcelo Barros*

Nos Estados Unidos e nos países que têm a mesma referência cultural, o dia nacional de ação de graças, celebrado, a cada ano, na última quinta-feira de novembro, tem o sabor de final de ano e revisão de uma etapa percorrida. É uma festa, fruto do capitalismo, que considera a acumulação de bens como graça divina. As Igrejas cristãs, embora sejam sempre tentadas pela mesma heresia, sabem que a organização atual do mundo não vem de Deus e a desigualdade social e econômica vigentes o ofendem. O Evangelho é a boa notícia de que este mundo pode mudar e o projeto de paz e justiça, inspirado por Deus, pode se realizar, como elemento transformador da vida e de toda esperança humana.
Sem dúvida, é ingenuidade pensar que, por si mesmo, com o tempo, as coisas melhoram e, seja como for, o amanhã será melhor do que hoje. A esperança verdadeira não pode ser mera projeção no futuro. Já nos duros anos da ditadura, cantávamos com Vandré: "Esperar não é saber. Quem sabe faz a hora. Não espera acontecer...". Quem se demite de agir agora não tem direito de esperar nada do futuro. Esperar não é apenas aguardar. É engravidar o amanhã pela atuação responsável no aqui e agora. Também não se pode confundir a esperança com a projeção de nossos desejos utópicos. A esperança mais profunda pode incluir o desejo, mas tem uma raiz mais objetiva. Em um livro de meditação sobre a esperança cristã, escrito nos anos 60, o padre Comblin escrevia: "Esperar não é desejar. É obedecer (no sentido do antecipar profético) ao caminho que Deus nos aponta" (A maior esperança, Ed. Paulinas).
Há tradições, como a antiga religião greco-romana, que desenvolveram uma visão do tempo mais cíclica e menos histórica. Alguns grupos espiritualistas atuais têm uma visão determinista da vida, baseada nas leis de causa e efeito e na inexorabilidade do Carma. No Candomblé de tradição iorubá, Orumilá é o Orixá que abre às pessoas o Odu, ou caminho do destino. No sistema Ifá, são 16 odus que são consultados para saber qual o destino (odu) de cada pessoa. Entretanto, há certa liberdade de escolha. Uma vez, ao tratar deste assunto, uma mãe de santo afirmou: "Você pode fazer o que quiser, mas é bom saber com que material conta. Se me dá laranjas, posso fazer suco, doce, salada de fruta, mas não posso, por exemplo, com laranja salgar uma carne. E não adianta protestar porque laranja não serve como sal para uma carne. Não se trata de fatalismo ou sina e sim de descobrir como na vida de cada pessoa se desenvolve o projeto de amor divino dado a todos".
De um modo ou de outro, muitas religiões e caminhos espirituais, tanto antigas tradições orientais, como as culturas indígenas e negras, embora com termos diversos e através de seus mitos próprios, apostam em uma visão de esperança como a confiança lúcida e operante na realização progressiva dos desígnios divinos para o mundo. Há quem prefira chamar esta esperança de fé.
A própria Bíblia diz: "Pela fé, Abraão partiu, sem saber para onde ia" (Hb 11, 8 ss). Assim, para a fé judaica e cristã, a esperança significa viver, no aqui e agora, uma confiança na promessa divina que se concretiza em uma atitude de construir o futuro. A promessa divina é raiz de esperança porque ela se compromete com a mudança da história. A promessa só tem sentido quando muda o rumo dos acontecimentos e nos faz apostar no contrário de todos os prognósticos racionais. Na Bíblia, a promessa divina é assim: abre o útero das estéreis e reinverte a ordem vigente. Derruba os poderosos e eleva os pequenos. Assim, ela dá à esperança uma raiz própria: a confiança amorosa no futuro que se abre para nós. Podem acontecer coisas terríveis. Pode ser que não tenhamos respostas para as grandes questões da existência. Apesar disso, optamos por confiar que a vida tem sentido e é possível construir para a humanidade e para o planeta Terra um futuro mais feliz.
Fora do ambiente das tradições espirituais, a esperança ainda precisa de mais fortes razões para se justificar e se alimentar. Apenas uma análise lúcida da realidade social do mundo e do estado frágil e ameaçado do planeta Terra podem dar pouco lugar à esperança. A esperança não pode dispensar os dados objetivos da realidade, mas se alimenta de razões que vão além da conjuntura social e política. A convicção de que o próprio progresso da história e o desenvolvimento natural do Capitalismo acabarão conduzindo a sociedade ao Socialismo científico não tem sido verificada. Ao menos desta forma direta e quase positivista. Existem também escolas humanistas que apostam na bondade fundamental do ser humano e de sua capacidade de conduzir a história para o bem. A fronteira entre uma opção lúcida de esperança e uma confiança ingênua ou até alienada é muito tênue. De qualquer forma, Dom Hélder Câmara tem razão, sempre podemos descobrir razões para esperar e agir em função da esperança, criança brincalhona que acorda a casa e mostra o sol que nasce.
Guimarães Rosa dizia que "esperar é reconhecer-se incompletos". Filósofos como Robert Solomon, com sua proposta de "Espiritualidade para Céticos" (1), propõem uma espécie de ética que, sem precisar de nenhuma religião, se constrói como caminho espiritual, grávido de esperança. Trata-se de uma reflexão apaixonada pela vida que se concretiza na relação com a natureza, no gosto da música e no diálogo consigo mesmo e com os outros, além da intensificação da solidariedade com todos os seres humanos e com o universo.
Em uma sociedade pluralista, mesmo quem recebe de sua fé religiosa raízes de esperar é chamado a justificar sua esperança, não mais em linguagem mítica e acessível apenas à comunidade dos iniciados, mas de forma que possa ser acolhida por qualquer pessoa humana. Já no final do primeiro século de nossa era, um documento cristão dizia às comunidades uma palavra que pode ser traduzida como: "Estejam sempre prontos/as a dar, a quem lhes pedir, as razões da esperança que vivem" (1 Pd 3, 15). Este compromisso supõe que se dêem as razões da esperança na linguagem e cultura de quem pede este testemunho. Na primeira metade do século XX, Theillard de Chardin procurou traduzir sua fé de que o futuro do universo é a divinização do ser humano e de todos os seres vivos em termos científicos. Hoje, a organização dos movimentos populares e indígenas em todo o continente podem ser mediações desta esperança maior. O fortalecimento da sociedade civil internacional em fóruns por um novo mundo possível testemunha esta esperança exigente. Quem melhor precisou o coração desta esperança parece ter sido Dom Pedro Casaldáliga ao escrever um poema, cujos termos, se olhamos bem, quase parece contraditórios, mas são indicadores desta sábia razão de esperar: "Saber esperar, sabendo, ao mesmo tempo, forçar as horas daquela urgência que não permite esperar".
Nota:
(1) ROBERT SOLOMON, Espiritualidade para Céticos, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2006.


*Monge beneditino, teólogo e escritor.

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13 de dezembro de 2007

Atualizar as razões de esperar

Marcelo Barros*

Nos Estados Unidos e nos países que têm a mesma referência cultural, o dia nacional de ação de graças, celebrado, a cada ano, na última quinta-feira de novembro, tem o sabor de final de ano e revisão de uma etapa percorrida. É uma festa, fruto do capitalismo, que considera a acumulação de bens como graça divina. As Igrejas cristãs, embora sejam sempre tentadas pela mesma heresia, sabem que a organização atual do mundo não vem de Deus e a desigualdade social e econômica vigentes o ofendem. O Evangelho é a boa notícia de que este mundo pode mudar e o projeto de paz e justiça, inspirado por Deus, pode se realizar, como elemento transformador da vida e de toda esperança humana.
Sem dúvida, é ingenuidade pensar que, por si mesmo, com o tempo, as coisas melhoram e, seja como for, o amanhã será melhor do que hoje. A esperança verdadeira não pode ser mera projeção no futuro. Já nos duros anos da ditadura, cantávamos com Vandré: "Esperar não é saber. Quem sabe faz a hora. Não espera acontecer...". Quem se demite de agir agora não tem direito de esperar nada do futuro. Esperar não é apenas aguardar. É engravidar o amanhã pela atuação responsável no aqui e agora. Também não se pode confundir a esperança com a projeção de nossos desejos utópicos. A esperança mais profunda pode incluir o desejo, mas tem uma raiz mais objetiva. Em um livro de meditação sobre a esperança cristã, escrito nos anos 60, o padre Comblin escrevia: "Esperar não é desejar. É obedecer (no sentido do antecipar profético) ao caminho que Deus nos aponta" (A maior esperança, Ed. Paulinas).
Há tradições, como a antiga religião greco-romana, que desenvolveram uma visão do tempo mais cíclica e menos histórica. Alguns grupos espiritualistas atuais têm uma visão determinista da vida, baseada nas leis de causa e efeito e na inexorabilidade do Carma. No Candomblé de tradição iorubá, Orumilá é o Orixá que abre às pessoas o Odu, ou caminho do destino. No sistema Ifá, são 16 odus que são consultados para saber qual o destino (odu) de cada pessoa. Entretanto, há certa liberdade de escolha. Uma vez, ao tratar deste assunto, uma mãe de santo afirmou: "Você pode fazer o que quiser, mas é bom saber com que material conta. Se me dá laranjas, posso fazer suco, doce, salada de fruta, mas não posso, por exemplo, com laranja salgar uma carne. E não adianta protestar porque laranja não serve como sal para uma carne. Não se trata de fatalismo ou sina e sim de descobrir como na vida de cada pessoa se desenvolve o projeto de amor divino dado a todos".
De um modo ou de outro, muitas religiões e caminhos espirituais, tanto antigas tradições orientais, como as culturas indígenas e negras, embora com termos diversos e através de seus mitos próprios, apostam em uma visão de esperança como a confiança lúcida e operante na realização progressiva dos desígnios divinos para o mundo. Há quem prefira chamar esta esperança de fé.
A própria Bíblia diz: "Pela fé, Abraão partiu, sem saber para onde ia" (Hb 11, 8 ss). Assim, para a fé judaica e cristã, a esperança significa viver, no aqui e agora, uma confiança na promessa divina que se concretiza em uma atitude de construir o futuro. A promessa divina é raiz de esperança porque ela se compromete com a mudança da história. A promessa só tem sentido quando muda o rumo dos acontecimentos e nos faz apostar no contrário de todos os prognósticos racionais. Na Bíblia, a promessa divina é assim: abre o útero das estéreis e reinverte a ordem vigente. Derruba os poderosos e eleva os pequenos. Assim, ela dá à esperança uma raiz própria: a confiança amorosa no futuro que se abre para nós. Podem acontecer coisas terríveis. Pode ser que não tenhamos respostas para as grandes questões da existência. Apesar disso, optamos por confiar que a vida tem sentido e é possível construir para a humanidade e para o planeta Terra um futuro mais feliz.
Fora do ambiente das tradições espirituais, a esperança ainda precisa de mais fortes razões para se justificar e se alimentar. Apenas uma análise lúcida da realidade social do mundo e do estado frágil e ameaçado do planeta Terra podem dar pouco lugar à esperança. A esperança não pode dispensar os dados objetivos da realidade, mas se alimenta de razões que vão além da conjuntura social e política. A convicção de que o próprio progresso da história e o desenvolvimento natural do Capitalismo acabarão conduzindo a sociedade ao Socialismo científico não tem sido verificada. Ao menos desta forma direta e quase positivista. Existem também escolas humanistas que apostam na bondade fundamental do ser humano e de sua capacidade de conduzir a história para o bem. A fronteira entre uma opção lúcida de esperança e uma confiança ingênua ou até alienada é muito tênue. De qualquer forma, Dom Hélder Câmara tem razão, sempre podemos descobrir razões para esperar e agir em função da esperança, criança brincalhona que acorda a casa e mostra o sol que nasce.
Guimarães Rosa dizia que "esperar é reconhecer-se incompletos". Filósofos como Robert Solomon, com sua proposta de "Espiritualidade para Céticos" (1), propõem uma espécie de ética que, sem precisar de nenhuma religião, se constrói como caminho espiritual, grávido de esperança. Trata-se de uma reflexão apaixonada pela vida que se concretiza na relação com a natureza, no gosto da música e no diálogo consigo mesmo e com os outros, além da intensificação da solidariedade com todos os seres humanos e com o universo.
Em uma sociedade pluralista, mesmo quem recebe de sua fé religiosa raízes de esperar é chamado a justificar sua esperança, não mais em linguagem mítica e acessível apenas à comunidade dos iniciados, mas de forma que possa ser acolhida por qualquer pessoa humana. Já no final do primeiro século de nossa era, um documento cristão dizia às comunidades uma palavra que pode ser traduzida como: "Estejam sempre prontos/as a dar, a quem lhes pedir, as razões da esperança que vivem" (1 Pd 3, 15). Este compromisso supõe que se dêem as razões da esperança na linguagem e cultura de quem pede este testemunho. Na primeira metade do século XX, Theillard de Chardin procurou traduzir sua fé de que o futuro do universo é a divinização do ser humano e de todos os seres vivos em termos científicos. Hoje, a organização dos movimentos populares e indígenas em todo o continente podem ser mediações desta esperança maior. O fortalecimento da sociedade civil internacional em fóruns por um novo mundo possível testemunha esta esperança exigente. Quem melhor precisou o coração desta esperança parece ter sido Dom Pedro Casaldáliga ao escrever um poema, cujos termos, se olhamos bem, quase parece contraditórios, mas são indicadores desta sábia razão de esperar: "Saber esperar, sabendo, ao mesmo tempo, forçar as horas daquela urgência que não permite esperar".
Nota:
(1) ROBERT SOLOMON, Espiritualidade para Céticos, Rio de Janeiro, Civilização Brasileira, 2006.


*Monge beneditino, teólogo e escritor.

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