5 de março de 2008

De grandes finais

Não há, no cinema contemporâneo, realizadores cinematográficos que pensem exaustivamente os finais para seus filmes. Alfred Hitchcock e Billy Wilder, dois mestres que não encontraram seguidores, mas imitadores baratos, passavam bom período, quando da elaboração de seus roteiros, a pensar nos vários desfechos para seus filmes. Billy Wilder chegou a ter, no roteiro de "Se meu apartamento falasse" ("The apartment", 1960), quinze finais para o "the end" dessa obra-prima da comediografia americana.

O que ficou está uma beleza (e o DVD foi lançado recentemente a respeitar a integridade do formato original em cinemascope):MacLaine, na festa de Ano Novo, sente que está apaixonada por Jack Lemmon e a impressão que se tem é a de que "voa" para o apartamento dele.

Em tempos idos, o filme geralmente se finalizava com um retumbante "the end". Alguns, em imagem parada, colocavam o "cast of characters". Mas a maioria terminava sem nenhuma outra indicação. A partir dos anos 80, no entanto, o poderoso sindicato que reúne os profissionais do cinema nos Estados Unidos, ganha na justiça o direito de ter todos os nomes dos técnicos e artistas mostrados na tela.

Do diretor, de todos os atores - mesmo aquele que faz uma minúscula ponta, até os motoristas, os contínuos e aqueles que servem o cafezinho. Como resultado, os filmes passaram a colocar os créditos no final, a fazer com que estes "subam" de maneira quase interminável.As pessoas, porém, não têm paciência nem interesse. A partir do momento em que os créditos sobem, as portas de saída se abrem para a "boiada" passar. Faço questão, no entanto, de ficar até que o último fotograma se apague da tela. Na subida dos créditos, há a partitura musical, informações aqui e ali esclarecedoras, enfim, creio que a ascensão dos letreiros faz parte da "mise-en-scène" da obra cinematográfica.

Existe um filme produzido por Steven Spielberg (o nome do diretor não me lembro agora) chamado "O enigma da pirâmide" no qual um dado da resolução do mistério é fornecido somente depois que todos os créditos são apresentados. Lembro-me que as pessoas reclamaram da falta de explicação no desenlace, a faltar alguma coisa importante.

Ficaram sem entender o filme na sua integridade por causa dessa ânsia de ir logo embora, como se aflitas estivessem para pegar o "último metrô".Um amigo, que esteve na França, contou-me que os franceses não se comportam como vândalos como se verifica nos complexos de salas do Brasil, mas assistem ao filme em silêncio e com grande interesse. E, mais importante, permanecem na sala de exibição até o fim da apresentação dos créditos. Se nos Estados Unidos, que instituíram a pipoca como complemento indispensável da visão de um filme, a comilança é geral, na Europa, excetuando-se um "drops" discreto ou uma tábua de chocolate amena, não se faz do cinema, como aqui, um "fast food". Há, sim, uma "bombonière", como, aliás, também entre nós em décadas passadas.

A comilança aumentou, e se encontra, hoje, em níveis insuportáveis, por causa da decadência da indústria cultural hollywoodiana, com a infantilização temática que se estabeleceu através do advento dos efeitos especiais e da ação ininterrupta como prioridades.


Mas estava a falar sobre outra decadência: a da composição dos grandes finais. Em "Irma la douce", por exemplo, o fecho é de ouro. Há um personagem, Moustache, dono do bar do bairro da prostituição, que gosta de contar as suas peripécias do passado e que finaliza suas anedotas com um "mas é outra história" - Moustache, na verdade, é um grande mentiroso. O policial Nestor, vivido por Jack Lemmon, que se apaixona por Irma (Shirley MacLaine), uma prostituta delicada e amorosa, não admite que a sua amada continue a se dar aos homens. E se transforma num outro personagem, Lord X, um "milionário inglês", que, uma vez por semana, vai visitar Irma e deixa, com ela, uma soma respeitável para que, assim, não precise trabalhar (o dinheiro do Lord X é fruto do trabalho exaustivo, e noturno, do policial, que passa as noites em claro para ganhá-lo).

Dessa maneira, Nestor fica feliz, pois sabe que o Lord X é ele mesmo e, além do mais, não tem o lord relações com ela, mas apenas fica a jogar cartas nas suas idas semanais. Um belo dia, no entanto, o Lord sucumbe aos encantos de Irma e tem com esta uma conjunção carnal. Ela fica grávida. Nestor, cheio de ciúmes, "mata" o Lord X. A sua morte se faz com ele a andar pelas ruas de Paris a tirar os disfarces do personagem.

Bem, no final, Irma, quando está na Igreja, diante do padre, para se casar com Nestor, tem a dor do parto e se dirige à sacristia para ter o filho. A câmera fixa promove uma ligeira panorâmica para mostrar as pessoas a se dirigir à sacristia inclusive o policial Nestor. Resta, porém, sentado, na sala vazia, Lord X (o espectador se confunde por que sabe que Lord X é Nestor e, então, como poderia estar ali já que Nestor está na sacristia), que se levanta, passa diante de um atônico Moustache, que se dirige ao público e diz: "Mas é outra história".

Wilder, em outro filme, menos conhecido, "Cupido não tem bandeira" ("One, two, three, 1961), tem um desfecho também surpreendente: James Cagney, executivo da Coca-Cola em Berlim, com seus familiares no aeroporto, começa a tirar, de uma máquina, cocas em latas e, de repente, sai um Crush, a lhe fazer ficar estupefato e a imagem congelada. O que dizer de um dos finais mais saborosos da história do cinema? Aquele de "Quanto mais quente melhor" ("Some like it hot", 1959) do "Ninguém é perfeito".

Se Wilder tinha fechos primorosos, o mesmo acontecia com Hitchcock, que estudava muito a composição de seus "the ends". O seu canto de cisne, "Trama macabra" ("The family plot", 1976) tem um final impressionante e pleno de espirituosidade, quando Bárbara Harris, a falsa vidente, senta-se na escada e pisca os olhos para o espectador. Em "Intriga internacional", para simbolizar a posse sexual de Eve-Marie Saint por Cary Grant, um trem entra num túnel. Em "O homem que sabia demais" ("The man who to knew too much", 1956), os convidados estão a esperar James Stewart e Doris Day, que, quando eles chegaram, tiveram que sair para descobrir o paradeiro de seu filho, Hanks. Toda a ação se comprime em algumas horas, e dada a resolução, os pais entram em casa e encontram todos os convidados a dormir. Quando abrem a porta dizem, simplesmente, "Demoramos porque fomos buscar Hanks".

É o tal negócio: quando há bom cinema difícil fica passar a idéia, dar a impressão de determinado momento cinematográfico. É o caso dessa coluna de hoje.


André Setaro é crítico de cinema e professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba).
-negrito e gifs por minha conta!


Hoje é meu niver!


Agradeço as mensagens pelo mail e orkut... Um abraço.

Espero que todos os meus desejos se realizem!

Um comentário:

  1. Feliz Aniversário, amiga!

    Hiper, mega, super atrasado - eu sei.
    Tudo de muito, muito bom para vc, guria!

    Beijoooooo =)

    ResponderExcluir

Olá! Se está aqui, leu e quer dizer algo...

5 de março de 2008

De grandes finais

Não há, no cinema contemporâneo, realizadores cinematográficos que pensem exaustivamente os finais para seus filmes. Alfred Hitchcock e Billy Wilder, dois mestres que não encontraram seguidores, mas imitadores baratos, passavam bom período, quando da elaboração de seus roteiros, a pensar nos vários desfechos para seus filmes. Billy Wilder chegou a ter, no roteiro de "Se meu apartamento falasse" ("The apartment", 1960), quinze finais para o "the end" dessa obra-prima da comediografia americana.

O que ficou está uma beleza (e o DVD foi lançado recentemente a respeitar a integridade do formato original em cinemascope):MacLaine, na festa de Ano Novo, sente que está apaixonada por Jack Lemmon e a impressão que se tem é a de que "voa" para o apartamento dele.

Em tempos idos, o filme geralmente se finalizava com um retumbante "the end". Alguns, em imagem parada, colocavam o "cast of characters". Mas a maioria terminava sem nenhuma outra indicação. A partir dos anos 80, no entanto, o poderoso sindicato que reúne os profissionais do cinema nos Estados Unidos, ganha na justiça o direito de ter todos os nomes dos técnicos e artistas mostrados na tela.

Do diretor, de todos os atores - mesmo aquele que faz uma minúscula ponta, até os motoristas, os contínuos e aqueles que servem o cafezinho. Como resultado, os filmes passaram a colocar os créditos no final, a fazer com que estes "subam" de maneira quase interminável.As pessoas, porém, não têm paciência nem interesse. A partir do momento em que os créditos sobem, as portas de saída se abrem para a "boiada" passar. Faço questão, no entanto, de ficar até que o último fotograma se apague da tela. Na subida dos créditos, há a partitura musical, informações aqui e ali esclarecedoras, enfim, creio que a ascensão dos letreiros faz parte da "mise-en-scène" da obra cinematográfica.

Existe um filme produzido por Steven Spielberg (o nome do diretor não me lembro agora) chamado "O enigma da pirâmide" no qual um dado da resolução do mistério é fornecido somente depois que todos os créditos são apresentados. Lembro-me que as pessoas reclamaram da falta de explicação no desenlace, a faltar alguma coisa importante.

Ficaram sem entender o filme na sua integridade por causa dessa ânsia de ir logo embora, como se aflitas estivessem para pegar o "último metrô".Um amigo, que esteve na França, contou-me que os franceses não se comportam como vândalos como se verifica nos complexos de salas do Brasil, mas assistem ao filme em silêncio e com grande interesse. E, mais importante, permanecem na sala de exibição até o fim da apresentação dos créditos. Se nos Estados Unidos, que instituíram a pipoca como complemento indispensável da visão de um filme, a comilança é geral, na Europa, excetuando-se um "drops" discreto ou uma tábua de chocolate amena, não se faz do cinema, como aqui, um "fast food". Há, sim, uma "bombonière", como, aliás, também entre nós em décadas passadas.

A comilança aumentou, e se encontra, hoje, em níveis insuportáveis, por causa da decadência da indústria cultural hollywoodiana, com a infantilização temática que se estabeleceu através do advento dos efeitos especiais e da ação ininterrupta como prioridades.


Mas estava a falar sobre outra decadência: a da composição dos grandes finais. Em "Irma la douce", por exemplo, o fecho é de ouro. Há um personagem, Moustache, dono do bar do bairro da prostituição, que gosta de contar as suas peripécias do passado e que finaliza suas anedotas com um "mas é outra história" - Moustache, na verdade, é um grande mentiroso. O policial Nestor, vivido por Jack Lemmon, que se apaixona por Irma (Shirley MacLaine), uma prostituta delicada e amorosa, não admite que a sua amada continue a se dar aos homens. E se transforma num outro personagem, Lord X, um "milionário inglês", que, uma vez por semana, vai visitar Irma e deixa, com ela, uma soma respeitável para que, assim, não precise trabalhar (o dinheiro do Lord X é fruto do trabalho exaustivo, e noturno, do policial, que passa as noites em claro para ganhá-lo).

Dessa maneira, Nestor fica feliz, pois sabe que o Lord X é ele mesmo e, além do mais, não tem o lord relações com ela, mas apenas fica a jogar cartas nas suas idas semanais. Um belo dia, no entanto, o Lord sucumbe aos encantos de Irma e tem com esta uma conjunção carnal. Ela fica grávida. Nestor, cheio de ciúmes, "mata" o Lord X. A sua morte se faz com ele a andar pelas ruas de Paris a tirar os disfarces do personagem.

Bem, no final, Irma, quando está na Igreja, diante do padre, para se casar com Nestor, tem a dor do parto e se dirige à sacristia para ter o filho. A câmera fixa promove uma ligeira panorâmica para mostrar as pessoas a se dirigir à sacristia inclusive o policial Nestor. Resta, porém, sentado, na sala vazia, Lord X (o espectador se confunde por que sabe que Lord X é Nestor e, então, como poderia estar ali já que Nestor está na sacristia), que se levanta, passa diante de um atônico Moustache, que se dirige ao público e diz: "Mas é outra história".

Wilder, em outro filme, menos conhecido, "Cupido não tem bandeira" ("One, two, three, 1961), tem um desfecho também surpreendente: James Cagney, executivo da Coca-Cola em Berlim, com seus familiares no aeroporto, começa a tirar, de uma máquina, cocas em latas e, de repente, sai um Crush, a lhe fazer ficar estupefato e a imagem congelada. O que dizer de um dos finais mais saborosos da história do cinema? Aquele de "Quanto mais quente melhor" ("Some like it hot", 1959) do "Ninguém é perfeito".

Se Wilder tinha fechos primorosos, o mesmo acontecia com Hitchcock, que estudava muito a composição de seus "the ends". O seu canto de cisne, "Trama macabra" ("The family plot", 1976) tem um final impressionante e pleno de espirituosidade, quando Bárbara Harris, a falsa vidente, senta-se na escada e pisca os olhos para o espectador. Em "Intriga internacional", para simbolizar a posse sexual de Eve-Marie Saint por Cary Grant, um trem entra num túnel. Em "O homem que sabia demais" ("The man who to knew too much", 1956), os convidados estão a esperar James Stewart e Doris Day, que, quando eles chegaram, tiveram que sair para descobrir o paradeiro de seu filho, Hanks. Toda a ação se comprime em algumas horas, e dada a resolução, os pais entram em casa e encontram todos os convidados a dormir. Quando abrem a porta dizem, simplesmente, "Demoramos porque fomos buscar Hanks".

É o tal negócio: quando há bom cinema difícil fica passar a idéia, dar a impressão de determinado momento cinematográfico. É o caso dessa coluna de hoje.


André Setaro é crítico de cinema e professor de comunicação da Universidade Federal da Bahia (Ufba).
-negrito e gifs por minha conta!


Hoje é meu niver!


Agradeço as mensagens pelo mail e orkut... Um abraço.

Espero que todos os meus desejos se realizem!

Um comentário:

  1. Feliz Aniversário, amiga!

    Hiper, mega, super atrasado - eu sei.
    Tudo de muito, muito bom para vc, guria!

    Beijoooooo =)

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Olá! Se está aqui, leu e quer dizer algo...