19 de outubro de 2008

Batata não é feijão

Quem dera pudéssemos manter, após a idade adulta, a curiosidade saudável e investigadora, que não se contenta com respostas superficiais.
Muitos deixaram de questionar, aceitando tudo sem o processo indispensável do raciocínio.
Lembro sempre do meu irmão, Paulinho, quando fomos embora, queria saber os por quês da partida. Por que aqui não tem como estudar? Aqui não tem mais trabalho? Não podem mudar de idéia?

A medida que vamos envelhecendo, quermos tudo mais rápido, nos contentamos com respostas curtas e objetivas... Vamos perdendo a vontade de compreender e analisar mais as coisas.
Lembrei de uma historinha que um dia li, da crônica Como as crianças pensam, de Cecília Meirelles, do livro intitulado Crônicas de educação, ed. Nova Fronteira.

Duas meninas, uma de cinco, outra de sete anos, estavam na sua mesinha jantando.
A menorzinha encontrou um grão de feijão na sopa, e disse para a outra:
Quando eu tiver uma semente de feijão, vou plantar no meu canteiro.
A outra acabou de engolir a sua colherada, passou o guardanapo na boca, e replicou:
Feijão não tem semente. A semente é ele mesmo.
A pequenina não entendeu, e tornou:
Então, como é que ele pode nascer, sem semente?
A outra, depois de pensar um pouco, explicou:
Eu acho que é mesmo a terra que, um dia, vira feijão.
Mas sem ter havido nenhuma semente, antes?
É, mesmo sem ter havido. Ela vai se juntando, juntando, juntando, e fica assim... num grão.
E procurou pelo prato, para ver se encontrava mais algum.
A menorzinha não se conformou muito com essa transformação abstrata. Foi tomando a sopa, e pensando.
Depois de um pedaço de silêncio, reatou a conversa:
Olha, também pode ser assim: um homem faz uma bolinha pequenina, pequenininha de massa... Depois, pinta por cima. Fica o primeiro feijão, então. Depois, os outros nascem...
A outra menina perguntou imediatamente:
E com que é que ele faz a massa?
Pode ser com... batata.
Mas batata não é feijão! - concluiu a maior, voltando a tomar sua sopa, pensando um pouco mais no tema proposto.
As duas continuaram ali, sentadas na mesinha, sem solução para sua dúvida, e com as cabecinhas quentes, de tanto pensar, imaginar e questionar.



Um comentário:

  1. Hello, this is my first time here and I'm looking forward to returning. I hope you will find the time for a counter visit so we can stay connected. I find your blog very interesting and would like to follow it. I also see we share some interests i.e. I see one of your favourite movies is babel, did you like the story, what do you think about it in the way GLOBALISATION is linked to the tower of babel?

    ResponderExcluir

Olá! Se está aqui, leu e quer dizer algo...

19 de outubro de 2008

Batata não é feijão

Quem dera pudéssemos manter, após a idade adulta, a curiosidade saudável e investigadora, que não se contenta com respostas superficiais.
Muitos deixaram de questionar, aceitando tudo sem o processo indispensável do raciocínio.
Lembro sempre do meu irmão, Paulinho, quando fomos embora, queria saber os por quês da partida. Por que aqui não tem como estudar? Aqui não tem mais trabalho? Não podem mudar de idéia?

A medida que vamos envelhecendo, quermos tudo mais rápido, nos contentamos com respostas curtas e objetivas... Vamos perdendo a vontade de compreender e analisar mais as coisas.
Lembrei de uma historinha que um dia li, da crônica Como as crianças pensam, de Cecília Meirelles, do livro intitulado Crônicas de educação, ed. Nova Fronteira.

Duas meninas, uma de cinco, outra de sete anos, estavam na sua mesinha jantando.
A menorzinha encontrou um grão de feijão na sopa, e disse para a outra:
Quando eu tiver uma semente de feijão, vou plantar no meu canteiro.
A outra acabou de engolir a sua colherada, passou o guardanapo na boca, e replicou:
Feijão não tem semente. A semente é ele mesmo.
A pequenina não entendeu, e tornou:
Então, como é que ele pode nascer, sem semente?
A outra, depois de pensar um pouco, explicou:
Eu acho que é mesmo a terra que, um dia, vira feijão.
Mas sem ter havido nenhuma semente, antes?
É, mesmo sem ter havido. Ela vai se juntando, juntando, juntando, e fica assim... num grão.
E procurou pelo prato, para ver se encontrava mais algum.
A menorzinha não se conformou muito com essa transformação abstrata. Foi tomando a sopa, e pensando.
Depois de um pedaço de silêncio, reatou a conversa:
Olha, também pode ser assim: um homem faz uma bolinha pequenina, pequenininha de massa... Depois, pinta por cima. Fica o primeiro feijão, então. Depois, os outros nascem...
A outra menina perguntou imediatamente:
E com que é que ele faz a massa?
Pode ser com... batata.
Mas batata não é feijão! - concluiu a maior, voltando a tomar sua sopa, pensando um pouco mais no tema proposto.
As duas continuaram ali, sentadas na mesinha, sem solução para sua dúvida, e com as cabecinhas quentes, de tanto pensar, imaginar e questionar.



Um comentário:

  1. Hello, this is my first time here and I'm looking forward to returning. I hope you will find the time for a counter visit so we can stay connected. I find your blog very interesting and would like to follow it. I also see we share some interests i.e. I see one of your favourite movies is babel, did you like the story, what do you think about it in the way GLOBALISATION is linked to the tower of babel?

    ResponderExcluir

Olá! Se está aqui, leu e quer dizer algo...